Redes Sociais e Eleições no Acre

Bruno Marques Schaefer, Matteo de Barros Manes, João Feres Júnior, Fabiano Santos

Introdução

Uma pergunta frequente sobre eleições contemporâneas é a relação entre redes sociais e o desempenho de candidatos e partidos. Desde a campanha do BREXIT, no Reino Unido, a eleição de Donald Trump, nos EUA, e a própria eleição de Jair Bolsonaro, no Brasil, jornalistas, cientistas políticos e outros se perguntam em que medida as redes sociais substituíram outros meios como forma de comunicação e informação política (1); bem como, qual o efeito das redes sociais sobre o comportamento eleitoral (2)1–6. Ou seja, a maioria das pesquisas foca no lado da demanda (como eleitores se informam e se comportam eleitoralmente).

Neste boletim sobre Redes Sociais e Eleições no Acre, exploramos o lado da oferta, analisando como os políticos utilizam, em momentos eleitorais, estratégias digitais de campanhas. Utilizamos dados de financiamento de campanha (despesas realizadas e contratadas) para verificar, primeiramente, se há um incremento deste tipo de gasto nas eleições locais acreanas; em segundo lugar, olhando especificamente para o pleito de 2024, verificamos, se o gasto com internet e redes sociais é maior em contextos de melhor cobertura de internet; e, finalmente, se mais gastos com redes sociais representam mais votos para os candidatos.

Este boletim se integra aos mais de dez já publicados frutos da parceria entre a Universidade Federal do Acre (UFAC) e o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Todos os dados utilizados estão disponíveis ao público pelo repositório do projeto no Open Science Framework7. Nele também estão todos os arquivos para replicação das análises realizadas.

Coleta de dados

Coletamos os dados de prestações de contas de candidatos e candidatas a vereador e prefeito nas eleições de 2016, 2020 e 2024. Para esse último pleito, temos as informações das prestações de contas parciais (despesas contratadas). Os dados foram coletados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a partir do pacote do R basedosdados8. Para 2024, os dados foram coletados diretamente do repositório de dados eleitorais do TSE.

Coletamos também informações de cobertura de internet, a partir da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL). Consideramos a densidade de acessos (por 100 domicílios) para telefonia móvel e banda larga fixa como proxys para a cobertura de internet nos municípios. Essas informações estavam disponíveis no banco de dados mape_municipios9.

Gastos com internet e redes sociais

Para avaliar a evolução dos gastos com redes sociais e internet nas eleições locais brasileiras, criamos uma variável intitulada gastos com internet. Quando candidatos preenchem sua prestação de contas, destacam a descrição e tipo de despesa. Consideramos os tipos: “criação e inclusão de páginas na internet”, “despesa com impulsionamento de conteúdos”, como gastos com internet. Seguimos classificação já realizadas na literatura sobre o tema na Ciência Política10–12. É importante considerar que as despesas de 2024 ainda não são as definitivas.

Como depreendemos da figura 1, o percentual gasto com internet cresceu de 2016 para 2020, passando de 0,04% (R$ 1.800,00) para 1,05% (R$ 74.550,00) no caso de candidatos a prefeito. Este valor cai para 0,64% (R$ 73.000,00) em 2024, sempre com a ponderação de que os dados para este ano ainda não são definitivos. No caso de vereadores, o movimento é semelhante. Há um incremento no percentual de recursos destinados a esse tipo de despesa entre 2016 e 2020, com queda em 2024. É importante considerar que mesmo com acréscimos, considerando o ano base de 2016, a despesa com internet ainda representa um percentual muito baixo das despesas de campanha nas eleições municipais acreanas. Por exemplo, no restante do Brasil, nas eleições de 2020, a despesa média com internet foi de 6% dos orçamentos das campanhas13. No Acre, a maior parte dos fundos de campanha é destinada a despesas tradicionais, como contratação de pessoal, carros de som e outros tipos.

Figura 1: Percentual de gastos com redes sociais e internet (por eleição e cargo)

Quem faz os gastos?

Exploramos também o perfil demográfico e político dos candidatos que realizam despesas com internet. Para isso, concentramos a análise no pleito de 2024.

Na figura 2, expomos a relação entre despesas com internet e gênero dos candidatos. No canto esquerdo, estão distribuídos os valores para candidatos a prefeito e à direita para vereador. Os valores da linha superior indicam o número de candidatos por categoria de gênero, e os da linha inferior indicam o percentual de despesas com internet nas campanhas. Por exemplo, dos mais de 2 mil candidatos a prefeito registrados nas eleições de 2024, 86,89% eram homens. No entanto, eles foram responsáveis por 100,00% de todo o investimento das campanhas com internet. Ou seja, postulantes homens às prefeituras investiram de forma massiva no impulsionamento de conteúdo e criação de páginas e sites. No caso de vereadores, a distribuição entre gastos e candidaturas é mais equilibrada entre os grupos. O resultado segue padrão nacional14.

Figura 2: Despesas com Internet e Gênero

Seguindo a mesma estrutura da figura 2, abaixo apresentamos a relação entre o percentual de candidaturas e investimento com internet, observando a escolaridade do postulante.

Para medir a escolaridade usamos uma variável dicotômica, sendo 0 para candidatos sem ensino superior completo e 1 para os que completaram o ensino superior. Aqui é interessante observar a diferença entre os candidatos aos dois cargos: a maioria dos candidatos a prefeito completaram o ensino superior, enquanto candidatos a vereador com graduação são minoria.

Ao olharmos para os gastos, vemos que candidatos com ensino superior tendem a gastar mais com internet. A diferença entre percentuais de candidatos e gastos é positiva e bastante acentuada para os dois cargos. Por exemplo, na disputa de vereador, enquanto apenas 29,82% dos candidatos têm ensino superior, eles respondem por mais de 65% dos gastos nas redes. Isso pode indicar que candidatos com escolaridade mais alta dão mais importância a esses meios de comunicação, além de terem maior domínio das ferramentas e recursos necessários para usá-los.

Figura 3: Despesas com Internet e Escolaridade

Por fim, analisamos a variável ideologia na figura 4. Muito se fala em como a direita parece ter maior domínio sobre a comunicação nas redes do que a esquerda, e os dados sobre gastos com internet podem dar alguns insights sobre isso. Separamos candidatos de direita e esquerda a partir de classificação consagrada na literatura15. À direita e centro-direita estão AGIR, DC, MDB, NOVO, PL, PODE, PP, PRD, PSD, PSDB, PV, REPUBLICANOS, SOLIDARIEDADE e UNIÃO. À esquerda e centro-esquerda estão CIDADANIA, PCdoB, PDT, PSB, PT e PSOL.

Vemos que candidatos à esquerda e à direita, sejam postulantes à prefeitura ou vereança, apresentam diferenças significativas quando comparados os percentuais de candidaturas x gastos. Em outras palavras, o percentual do gasto não segue exatamente o percentual que cada grupo representa no total de candidatos. Assim, pelo menos no nível agregado, parece que a direita prioriza mais a comunicação nas redes quando distribuem seus gastos de campanha. Esse resultado é distinto do padrão nacional, onde, para o pleito de 2024, há equalização do gasto com internet e candidaturas entre os dois campos ideológicos.

Figura 4: Despesas com Internet e Ideologia

Relação entre cobertura da internet e gastos com redes sociais

Passamos agora a análise da relação entre a cobertura da internet e os gastos com internet. Na figura 5 e 6, testamos a correlação entre densidade da banda larga nos municípios e densidade de telefonia móvel (X) e o percentual de gastos com internet no nível do município para candidatos a prefeito (Y). Ou seja, calculamos o total de despesas realizadas por todos os candidatos e, deste valor, o percentual de gastos com internet. A ideia é verificar em que medida há uma opção estratégica em aumentar esse tipo de despesa em localidades nas quais as pessoas têm mais acesso à conexão online. Os resultados do coeficiente de correlação de Pearson, para o caso de vereadores, indicam valores moderados, mas positivos e estatisticamente significativos. Em outras palavras, à medida em que aumenta a cobertura de internet no município, o gasto com esse tipo de estratégia de campanha também aumenta. No caso de prefeitos, essa relação não se verifica: não há correlação significa entre as duas variáveis.

Figura 5: Relação entre cobertura da internet e gastos com internet (Banda Larga)

Figura 6: Relação entre cobertura da internet e gastos com internet (Telefonia Móvel)

Votos e despesas com internet

A Figura 7 mostra a correlação entre os gastos com internet e o desempenho eleitoral dos candidatos a prefeito e vereador no Acre nas eleições de 2024. Os resultados apontam para uma ausência de correlação significativa no caso dos candidatos a prefeito (R = 0,027; p = 0,83), indicando que, nesse grupo, o investimento em redes não se traduz em mais votos. A dispersão dos dados sugere que outros fatores — como força partidária, experiência política, coligações ou gastos tradicionais10,16,17 — podem ser mais determinantes para o desempenho eleitoral de quem disputa o executivo municipal. Isso se alinha ao padrão descrito anteriormente no relatório, onde candidatos a prefeito concentram recursos em estratégias tradicionais de campanha, com pouca ênfase na presença digital.

Já no caso dos candidatos a vereador, o coeficiente de correlação é pequeno (R = 0,066), mas estatisticamente significativo (p = 0,0029), sugerindo que, embora modesta, há uma associação positiva entre gastos com internet e votos. Esse resultado, ainda que limitado, reforça achados anteriores do boletim: vereadores investem proporcionalmente mais em redes sociais e candidatos com maior escolaridade ou pertencentes à direita tendem a valorizar mais essas estratégias digitais. A correlação, ainda que fraca, aponta que, para campanhas proporcionais, a presença online pode representar uma vantagem competitiva marginal — especialmente em municípios com maior cobertura digital, como mostrado nas Figuras 5 e 6.

Figura 7: Relação entre gastos com internet e votos

Discussão

Este boletim mostrou que, embora o uso das redes sociais como estratégia de campanha tenha crescido nas eleições locais acreanas entre 2016 e 2020, os percentuais de investimento ainda permanecem baixos quando comparados ao restante do país. Observamos que perfis específicos de candidatos — como homens, com ensino superior e identificados com a direita — tendem a investir mais em comunicação digital, sobretudo nas campanhas para vereador. Além disso, há evidências de que, em municípios com maior cobertura de internet, os candidatos proporcionais também destinam uma parcela maior de seus recursos para esse tipo de estratégia. Ainda que a correlação entre investimento em redes e desempenho eleitoral seja modesta, o padrão sugere que as campanhas proporcionais podem se beneficiar mais do ambiente digital do que as majoritárias.

Apesar das contribuições empíricas, a pesquisa apresenta limitações importantes. Primeiramente, os dados de 2024 ainda são parciais, o que pode afetar a robustez das estimativas sobre os gastos. Em segundo lugar, a classificação das despesas como “gastos com internet” depende da descrição feita pelos próprios candidatos, o que pode gerar subnotificação ou inconsistência. Por fim, a análise baseia-se em correlações, não sendo possível afirmar relações causais entre o uso de redes e o desempenho eleitoral — especialmente em contextos locais nos quais outros fatores, como estrutura partidária, vínculos territoriais ou redes clientelistas, ainda têm peso significativo.

Diante desses achados e limites, pesquisas futuras podem avançar em pelo menos três frentes. A primeira é a atualização das análises com os dados completos de 2024, permitindo testes mais robustos. A segunda envolve a modelagem dos textos das postagens, de modo a tratar quais são os temas mobilizados pelos candidatos. E a terceira diz respeito ao cruzamento com dados de engajamento nas redes sociais (curtidas, compartilhamentos, comentários), possibilitando avaliar se os investimentos se convertem em visibilidade e, potencialmente, em votos. Ao dar visibilidade ao uso desigual e ainda limitado das redes nas eleições do Acre, este boletim oferece uma base empírica relevante para o debate sobre a profissionalização das campanhas digitais em contextos periféricos.

Referências

1 Allcott H, Gentzkow M. Social Media and Fake News in the 2016 Election. Journal of Economic Perspectives 2017;31:211–36. https://doi.org/10.1257/jep.31.2.211.

2 Entenda o Brexit e seus impactos em 8 perguntas. BBC News Brasil n.d.

3 Cambridge Analytica se declara culpada em caso de uso de dados do Facebook. G1. 2019. URL: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2019/01/09/cambridge-analytica-se-declara-culpada-por-uso-de-dados-do-facebook.ghtml (Accessed 8 October 2024).

4 Bori A. Uso de redes sociais para informação sobre política quase dobrou as chances de voto em Bolsonaro em 2018. Agência BORI 2022. URL: https://abori.com.br/comunicacao/facebook-e-whatsapp-impulsionaram-as-chances-de-voto-em-bolsonaro-em-2018-mostra-pesquisa/ (Accessed 8 October 2024).

5 Eleições 2018: Como Bolsonaro superou a bolha radical na internet e terminou o 1o turno na liderança. BBC News Brasil n.d.

6 Feres Junior J, Schaefer BM, Barbabela E. Redefining the Communication Dynamics in Bolsonaro’s Brazil: Media Consumption and Political Preferences. Social Sciences 2024;13:245. https://doi.org/10.3390/socsci13050245.

7 Schaefer BM, Manes M de B, Junior JF, Santos FGM. Projeto LEGAL-Acre 2024. https://doi.org/10.17605/OSF.IO/EC395.

8 Dahis R, Carabetta J, Scovino F, Israel F, Oliveira D. Data Basis (Base Dos Dados): Universalizing Access to High-Quality Data 2022. https://doi.org/10.2139/ssrn.4157813.

9 Schaefer BM, Meireles F, Freitas C, Borges TP, Caldas O, Fernandes LB, et al. mape_municipios Database 2024. https://doi.org/10.17605/OSF.IO/3YKA9.

10 Sampaio D. CAMPANHAS TRADICIONAIS OU MODERNAS? Estratégias de gastos nas eleições municipais de 2016. Revista Brasileira de Ciências Sociais 2020.

11 Souza BM, Freitas ASKL. Eleições pós-web: os gastos com campanha online em destaque nas eleições municipais de 2020 no Brasil. Em Tese 2024;21:01–34. https://doi.org/10.5007/1806-5023.2024.e94415.

12 Speck BW, Mancuso WP. “Street fighters” e “media stars”: estratégias de campanha e sua eficácia nas eleições brasileiras de 2014. Cadernos Adenauer 2017.

13 PNR – Edição Especial: Gastos com redes sociais e eleições. Manchetômetro 2024. URL: https://manchetometro.com.br/2024/11/15/pnr-edicao-especial-gastos-com-redes-sociais-e-eleicoes/ (Accessed 28 July 2025).

14 PNR – Edição Especial: Gastos com redes sociais e eleições – candidatos. Manchetômetro 2024. URL: https://manchetometro.com.br/2024/11/27/pnr-edicao-especial-gastos-com-redes-sociais-e-eleicoes-candidatos/ (Accessed 1 August 2025).

15 Bolognesi B, Ribeiro E, Codato A. A New Ideological Classification of Brazilian Political Parties. Dados 2022;66:e20210164. https://doi.org/10.1590/dados.2023.66.2.303x.

16 Cervi EU. Doações de campanha e desempenho eleitoral: uma análise comparativa sobre as eleições para prefeitos de capitais brasileiras em 2008 e 2012. Agenda Política 2013.

17 Peixoto V de M, Leal JGRP, Souza RB de, Machado MVH. Uma análise dos determinantes da reeleição de prefeitos nos municípios brasileiros em 2016. Agenda Política 2021;9:86–117. https://doi.org/10.31990/agenda.2021.3.3.