O “novo” cooperativismo no Juruá – O caso da Coopercintra

Orlando Sabino da Costa Filho

INTRODUÇÃO

Em Boletins anteriores, ficou demostrado que a Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre (Cooperacre) consolidou-se, nas duas últimas décadas, como o principal eixo articulador do novo cooperativismo agroextrativista no estado. Sua presença transformadora nas cadeias da castanha, borracha, café, óleos vegetais e frutas amazônicas transcende o papel de uma simples central de comercialização — a Cooperacre é, hoje, uma verdadeira rede de integração produtiva, social e territorial que conecta dezenas de cooperativas singulares e associações comunitárias em todas as regionais do Acre.

No Vale do Juruá, sua atuação tem sido decisiva para o fortalecimento de organizações locais como a Coopercafé (Mâncio Lima), a Coopercintra (Rodrigues Alves) e outras unidades emergentes que combinam saberes tradicionais, inovação tecnológica e gestão coletiva. Essa presença sistêmica criou as condições para que o cooperativismo deixasse de ser um instrumento de subsistência e se tornasse um vetor estratégico da bioeconomia amazônica.

Sem a Cooperacre, seria quase impossível escoar a produção, garantir preço justo e acessar o mercado. Ela é o elo que nos liga ao Acre inteiro e ao Brasil. Por meio de sua estrutura logística, assistência técnica e parcerias institucionais, a Cooperacre tem permitido que comunidades ribeirinhas, seringueiros, cafeicultores e agricultores familiares do Juruá transformem produtos antes invisíveis em ativos econômicos de alto valor. Ao mesmo tempo, a cooperativa central impulsiona práticas de governança democrática, promovendo a autonomia das bases e fortalecendo o protagonismo das mulheres e dos jovens na gestão comunitária.

Sua importância ultrapassa o aspecto econômico: a Cooperacre representa um projeto político e social de desenvolvimento sustentável, no qual a floresta em pé é sinônimo de renda, dignidade e permanência das famílias no campo.

Fundada em 2001, a Cooperacre nasceu do esforço de unificação das cooperativas e associações extrativistas que surgiam isoladamente nas regiões do Acre. O que começou como uma experiência modesta de comercialização da castanha-do-brasil evoluiu para um sistema cooperativo moderno, com infraestrutura industrial, rede logística própria e presença em mais de 15 municípios.

A central funciona como um laboratório de inovação social: viabiliza a compra e beneficiamento da produção, oferece suporte técnico-contábil às cooperativas filiadas, promove capacitação gerencial e articula projetos com instituições públicas e privadas — entre elas, Sebrae, Funtac, SOS Amazônia, BID e Natura.

No Juruá, sua presença é visível na expansão das cadeias produtivas do café e dos óleos vegetais, com a Coopercafé e a Coopercintra despontando como exemplos da nova geração de cooperativas florestais. Essas entidades locais reproduzem, em escala territorial, o modelo de integração proposto pela Cooperacre: gestão autônoma, foco na agregação de valor e compromisso ambiental.

A Cooperacre é, portanto, a espinha dorsal do sistema cooperativista acreano, que hoje envolve mais de 2.500 famílias, movimenta milhões de reais por safra e amplia continuamente sua inserção em mercados nacionais e internacionais.

O Vale do Juruá representa a fronteira produtiva mais dinâmica do cooperativismo agroextrativista no Acre. É nessa região, rica em biodiversidade e tradições florestais, que o novo cooperativismo ganha forma concreta — convertendo café, murmurú, borracha e cacau nativo em símbolos de uma economia inclusiva e ambientalmente sustentável.

A experiência da Cooperacre comprova que o cooperativismo é uma política de desenvolvimento com base popular, capaz de gerar resultados concretos para o Acre e, especialmente, para o Vale do Juruá. Sua atuação integra produção e cidadania, valoriza o trabalho coletivo e promove o uso sustentável dos recursos da floresta.

Mais do que uma central de comercialização, a Cooperacre é um projeto civilizatório amazônico, que redefine o sentido da economia florestal e transforma o cooperativismo em instrumento de soberania regional.

O fortalecimento da Cooperacre — com apoio político, técnico e financeiro — é condição indispensável para que novas comunidades do Acre adotem o cooperativismo como prática produtiva e como caminho de emancipação social e ambiental.

GESTÃO E GOVERNANÇA E RELAÇÃO COM OS COOPERADOS

A Cooperativa de Cultura Familiar e Economia Solidária da Nova Cintra (Coopercintra) representa um dos exemplos mais expressivos do novo cooperativismo agroextrativista em consolidação no Vale do Juruá. Localizada no município de Rodrigues Alves, sua atuação abrange ainda comunidades ribeirinhas e áreas de fronteira produtiva com os municípios de Porto Walter e Cruzeiro do Sul (AC), Guajará e Ipixuna (AM).

A cooperativa tem se destacado pela capacidade de articular produção extrativista, inovação tecnológica e gestão coletiva, com foco na valorização do murmurú, da borracha nativa e do cacau nativo, produtos típicos das florestas acreanas e de grande relevância para a bioeconomia amazônica.

Em entrevista ao Projeto LEGAL, o presidente da entidade, Osmarino Lagos, sintetiza essa trajetória de modo simples e contundente:

[…] a nossa cooperativa foi fundada em 2011. No começo, ela ficou parada, mas em 2013 a gente começou a trabalhar com o murmurú. Compramos 1.600 sacas e produzimos mais de 3 mil quilos de manteiga. Era um desafio grande, porque não tínhamos mercado, mas conseguimos vender para empresas de fora, e a partir daí começamos a crescer c

Com cerca de duzentos cooperados ativos, a Coopercintra tornou-se referência na região pela sua resistência, adaptação e capacidade de estabelecer parcerias estratégicas com empresas e programas nacionais e internacionais, como a Natura, SOS Amazônia, FUNTAC e Sebrae. Seu modelo de operação revela uma combinação rara entre organização comunitária, gestão técnica e compromisso ambiental, integrando pequenos produtores, famílias extrativistas e jovens da comunidade.

A história da Coopercintra remonta à antiga associação comunitária da Nova Cintra, que detinha a concessão de uso de um prédio público cedido pelo governo estadual. A partir dessa estrutura, um grupo de produtores decidiu constituir a cooperativa em 2011, formalizando-a como pessoa jurídica e ampliando o raio de atuação para além da comunidade.

Primeiro foi uma associação. Depois tornou-se uma cooperativa, porque a associação não tinha acesso a benefícios e projetos. Então, 29 pessoas se reuniram e fundaram a Coopercintra, relembra Osmarino.

Nos primeiros anos, a cooperativa enfrentou dificuldades operacionais e longos períodos de inatividade, devido à falta de mercado e infraestrutura. Entretanto, a persistência dos fundadores permitiu um processo gradual de reestruturação, principalmente a partir de 2013, quando iniciou a produção de manteiga de murmurú.

Essa mudança marcou o início de uma nova fase, em que a cooperativa começou a participar de projetos apoiados por instituições como o KfW, o BID e o Fundo Amazônia, que possibilitaram a aquisição de equipamentos, transporte e maquinário.

[…] foi uma luta. Mas conseguimos apoio de vários projetos. Com o BID, compramos uma balsa, e com o Fundo Amazônia conseguimos equipamentos. Isso nos ajudou a sair do improviso e começar a trabalhar de verdade”, relata o presidente (Osmarino Lagos, 2025).

Em 2021, a Coopercintra firmou contrato com a Natura, o que ampliou seu acesso ao mercado de cosméticos naturais. Esse acordo foi um divisor de águas para a consolidação financeira da cooperativa. No entanto, também revelou desafios internos de gestão e transparência, superados a partir da eleição de uma nova diretoria em 2023.

A antiga diretoria não queria transparência e chegou a romper o contrato com a Natura. Quando assumimos, refizemos o diálogo, mostramos a situação real e conseguimos uma reforma da indústria com apoio de R$ 350 mil da empresa (Osmarino Lagos, 2025).

Atualmente, a Coopercintra vive uma fase de reorganização institucional, reforçando a governança, a base social e os processos produtivos, sem perder a essência comunitária que marcou sua fundação.

A atuação da Coopercintra se dá em um território de grande diversidade ambiental e produtiva. O Vale do Juruá, historicamente ligado ao extrativismo da borracha, farinha de mandioca e óleos vegetais, vem se transformando em um polo emergente da bioeconomia amazônica. Nesse contexto, a cooperativa representa um vetor de transição para um modelo sustentável de desenvolvimento rural.

O território de atuação abrange comunidades dispersas em uma área geográfica extensa, com limitações severas de transporte e comunicação.

[…] a nossa área é muito grande. A gente trabalha nos cinco municípios do Juruá e até no Amazonas. Isso dificulta a participação dos cooperados nas assembleias, porque é caro e longe. Mesmo assim, a gente consegue reunir uns 20% nas reuniões e mantém o contato por telefone.”

Essa dispersão territorial impõe desafios logísticos e de gestão, mas também amplia o impacto social da cooperativa, que atua como elo de integração entre produtores de diferentes localidades, estimulando práticas sustentáveis e o uso racional dos recursos florestais.

A Coopercintra adota um modelo de gestão baseado em Diretoria Executiva, Conselho Fiscal e Assembleia Geral de cooperados, respeitando os princípios cooperativistas de autogestão e transparência.

A diretoria atual é composta por presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro, além de três membros titulares e três suplentes no conselho fiscal.

[…] temos diretoria e conselho fiscal, sim. O estatuto determina que o conselho seja renovado todo ano, e agora colocamos pessoas mais próximas, que estão participando ativamente (Osmarino Lagos, 2025).

As reuniões regulares ocorrem entre os diretores, que vivem próximos uns dos outros, o que facilita a comunicação e a tomada de decisões. Entretanto, a participação dos cooperados ainda é limitada devido à extensão territorial e às dificuldades de deslocamento. Poucos cooperados conseguem participar das assembleias, porque muitos moram longe e a despesa é grande. Mas quem está mais perto participa, e é mantido um contato com os demais, outros por telefone.

O processo de transição da antiga diretoria para a atual foi marcado por tensões e disputas internas, reflexo de práticas anteriores de pouca renovação e controle centralizado.

[…] diretoria antiga estava desde a fundação. Eles não queriam entregar a cooperativa quando perderam a eleição. Tivemos que procurar ajuda na justiça e na OCB para assumir. Hoje a gente trabalha de forma aberta e participativa (Osmarino Lagos, 2025).

Embora a nova gestão demonstre compromisso com transparência, reestruturação administrativa e fortalecimento da base social, um dos principais desafios imediatos é a regularização contábil da cooperativa, cuja escrituração está pendente desde o afastamento da antiga diretoria. Essa pendência tem comprometido o funcionamento institucional, dificultado o planejamento e a execução de ações internas e, sobretudo, impedido a regularização da entidade junto à OCB/Acre, condição essencial para acessar capacitações, programas de apoio e representação institucional.

A superação desse passivo contábil é, portanto, um passo decisivo para consolidar a nova etapa de profissionalização da cooperativa e garantir estabilidade administrativa para os próximos anos.

PRODUÇÃO E INFRAESTRUTURA E MERCADO E COMERCIALIZAÇÃO

A base produtiva da Coopercintra concentra-se em três principais cadeias: murmurú, borracha nativa e cacau nativo. Esses produtos, além de valorizar o extrativismo tradicional, possuem elevado potencial de agregação de valor, especialmente no mercado de cosméticos e alimentos naturais. A empresária Heloísa Abram, de São Paulo, compra o cacau. O murmurú é vendido para a Natura, a Quimiuni e a Cossete. E a borracha é toda vendida para a Cooperacre.

A articulação com a cooperativa central (Cooperacre) e empresas revela a capacidade da Coopercintra de construir redes produtivas locais, participando do esforço coletivo de transformar o Acre em referência de bioeconomia integrada e inclusiva.

A base produtiva da Coopercintra estrutura-se em torno de três eixos principais: murmurú, borracha nativa e cacau nativo, produtos que representam não apenas a tradição do extrativismo amazônico, mas também uma oportunidade concreta de inserção na economia verde.

[…] a gente começou com o murmurú. Produzimos 25 toneladas de manteiga em 2019, mas em 2023 caiu para 5 toneladas. Foi um problema de safra, de clima e de gestão. A diretoria antiga não conversava com os produtores, e isso atrapalhou muito (Osmarino Lagos, 2025).

Com a nova gestão, iniciada em 2023, a produção voltou a crescer, atingindo 18 toneladas em 2024, ainda abaixo do potencial total, mas com estabilidade e planejamento. Em 2024 conseguiu recuperar parte da produção e retomar as parcerias com a Natura. Aquela empresa visitou a fábrica, detectaram a necessidade de reforma e ajudaram com recursos próprios.

Além do murmurú, a cooperativa mantém uma rede de produtores de borracha nativa, integrados ao sistema da Cooperacre.

“[…] a borracha a gente vende só para a Cooperacre. Temos 38 pessoas cadastradas, mas hoje 18 estão cortando. A produção foi de 2.712 quilos no ano passado, e o preço é o mesmo pago para o pessoal da reserva (Osmarino Lagos, 2025).

O cacau nativo é um produto em expansão, ainda em escala limitada, mas com alto valor agregado.

[…] o cacau a gente vende para a Heloísa Abram, de São Paulo, que trabalha com chocolate. Ela compra direto dos produtores. Agora estamos com um viveiro de 7 mil mudas para fazer enriquecimento de área e plantar em áreas degradadas (Osmarino Lagos, 2025).

A diversificação produtiva mostra-se como uma estratégia central da cooperativa para reduzir riscos, ampliar fontes de renda e promover a sustentabilidade socioeconômica das famílias associadas.

A infraestrutura física da Coopercintra é um reflexo de sua trajetória: limitada, mas em processo de modernização. A cooperativa opera em prédios cedidos pela FUNTAC, construídos originalmente em 2006, com estrutura simples, de madeira e alvenaria.

[..] os prédios são do governo do Estado. Só o piso é de alvenaria; o resto é madeira. Estava tudo muito ruim, com goteiras e desgaste. A Natura ajudou a gente a reformar o prédio principal, das máquinas, com R$ 350 mil (Osmarino Lagos, 2025).

Além da reforma parcial, a Natura também apoiou a substituição do maquinário, que antes era de aço carbono e agora está sendo trocado por equipamentos em aço inox, adequados às exigências do mercado de cosméticos.

A cooperativa também dispõe de um armazém para murmurú, um pequeno depósito para borracha e uma agroindústria de despolpamento de frutas, hoje subutilizada, mas com potencial de integração produtiva.

O transporte é um dos maiores gargalos. A cooperativa conta com um caminhão pequeno e uma balsa adquirida com recursos do BID.

[…] o nosso caminhão carrega 110 sacas, mas quando fazemos o transporte do Guajará para Rodrigues Alves, precisamos trazer 600. São seis viagens. A logística é o nosso maior problema”, enfatiza o presidente (Osmarino Lagos, 2025).

O caminhão pertence formalmente à prefeitura, adquirido por emenda parlamentar, o que cria dependência política e operacional. Se mudar o prefeito e ele não for um aliado, a cooperativa perde o caminhão. Advogam pela necessidade de ter o próprio caminhão.

Os planos incluem a aquisição de um caminhão de maior porte e a instalação de um secador e um armazém em Ipixuna, para descentralizar o beneficiamento e otimizar o transporte durante o período de seca dos rios.

POLÍTICAS PÚBLICAS E APOIO INSTITUCIONAL

A Coopercintra mantém um conjunto de parcerias estratégicas com instituições públicas e privadas, fundamentais para sua manutenção e crescimento. Entre os principais parceiros estão a Natura, a FUNTAC, o Sebrae, a OCB/AC e o SOS Amazônia.

[…] o Sebrae e a Funtac são os que mais ajudam a gente. O SOS Amazônia entra quando consegue projeto, ajuda por um tempo, depois encerra. Agora a gente está começando um trabalho mais firme com a OCB, para reestruturar o quadro social e a gestão (Osmarino Lagos, 2025).

A parceria com a Natura é, sem dúvida, a mais relevante. Desde 2021, a empresa atua não apenas como compradora do murmurú, mas também como investidora em infraestrutura e capacitação técnica.

Apesar das parcerias, o apoio do poder público municipal e estadual ainda é considerado insuficiente.

[…] da prefeitura a gente quase não tem apoio. Agora o prefeito novo ajudou em uma oficina, mandou um fotógrafo, mas foi pontual. Do governo, o que temos é o prédio cedido e o subsídio do murmurú, que está bloqueado por causa da gestão anterior (Osmarino Lagos, 2025).

As parcerias com empresas privadas e ONGs têm garantido recursos, treinamento e infraestrutura, mas a sustentabilidade de longo prazo depende de políticas públicas consistentes e de acesso ao crédito — pontos ainda frágeis no contexto da cooperativa.

QUESTÕES SOCIAIS E AMBIENTAIS

A Coopercintra baseia sua atuação no manejo sustentável dos recursos florestais, associando conservação ambiental, geração de renda e fortalecimento comunitário.
Os produtos trabalhados — murmurú, borracha e cacau nativo — dependem diretamente da preservação da floresta, o que tem reforçado a conscientização dos cooperados sobre o valor ecológico e econômico da biodiversidade.

[…] os produtores estão entendendo que precisam zelar pela floresta. A borracha voltou e trouxe essa consciência de que é preciso cuidar para o futuro dos filhos (Jaqueline Lagos, 2025).

Segundo o presidente, há sinais concretos de mudança de mentalidade entre os extrativistas. Ele diz que hoje, quando alguém vai desmatar e derruba murmurú, os outros já ficam preocupados. Eles sabem que estão perdendo renda. Antes, o murmurú era só para os bichos. Agora é o sustento de muita gente.

A cooperativa também atua para limitar o avanço da pecuária em áreas de floresta primária. Embora reconheça o crescimento da atividade na região, Osmarino observa que os próprios cooperados têm buscado manter a floresta em pé. Diz que entre os cooperados tem pouco gado. Quando tem, é cinco ou dez cabeças, só para o consumo da família.

Essa postura reflete uma nova relação com o território, em que a floresta passa a ser vista não como obstáculo, mas como ativo produtivo e fonte de renda sustentável.

A adoção de boas práticas ambientais, começa a consolidar uma cultura de sustentabilidade, que diferencia a Coopercintra como modelo de economia florestal comunitária.

Um dos aspectos mais notáveis da Coopercintra é a participação crescente das mulheres e dos jovens em todas as etapas do processo produtivo. Historicamente, o extrativismo foi dominado por homens, mas a cooperativa de Nova Cintra apresenta um quadro social em que as mulheres assumem papel central na coleta, beneficiamento e gestão cotidiana.

[…] quem está mais à frente do trabalho do murmurú são as mulheres…
mulheres jovens, que estão bem envolvidas nessa parte do murmurú (Osmarino Lagos, 2025).

A inserção feminina no extrativismo do murmurú não apenas fortalece a renda familiar, mas também promove a autonomia e o reconhecimento social das trabalhadoras rurais. Muitas delas são chefes de família e conciliam o trabalho na coleta com as tarefas domésticas e a gestão das propriedades.

Entre os jovens, observa-se um engajamento progressivo nas atividades industriais e logísticas.

[…] hoje temos bastante jovens trabalhando na usina e no transporte, no embarque e desembarque. Antes eram os mais velhos que iam, agora são os jovens (Osmarino Lagos, 2025).

A cooperativa identifica, contudo, um desafio importante de qualificação: a falta de formação técnica e digital. Osmarino afirma que na diretoria, ninguém sabe mexer em computador. Isso é uma dificuldade muito grande. Identifica a necessidade de preparar os jovens para esse trabalho que tem hoje.

Essa percepção levou à formulação de um projeto de criação de uma escola de informática na comunidade de Nova Cintra, voltado à formação tecnológica dos jovens locais. Trata-se de uma ação simbólica e estratégica, que reforça o compromisso da cooperativa com a renovação geracional e a inclusão tecnológica no meio rural.

SITUAÇÃO FINANCEIRA

Osmarino comenta que a estrutura financeira limitada. A Coopercintra não tem sobras. Trabalham no limite, pegando uma safra para pagar a outra. Nunca acessaram crédito. Precisam ampliar essa visão e adquirir conhecimentos para acessar o crédito. A ausência de capital de giro e o receio histórico de contrair empréstimos restringem a capacidade de investimento.

DESAFIOS E PERSPECTIVAS FUTURAS

A Coopercintra enfrenta um conjunto de desafios estruturais que definem sua agenda de médio prazo. O principal e mais urgente é a regularização contábil, pendente desde o afastamento da diretoria anterior. A ausência de escrituração atualizada tem comprometido decisões administrativas, dificultado o acesso a políticas de apoio e, sobretudo, impedido a cooperativa de se regularizar junto à OCB/Acre, condição essencial para habilitação em programas, capacitações, representação institucional e fortalecimento da governança.

O segundo desafio, igualmente relevante, é a questão logística, que eleva custos de produção, transporte e comercialização, limitando a competitividade dos cooperados. Soma-se a isso a necessidade de investimentos em infraestrutura física. Apesar da recente modernização do maquinário com apoio da Natura, a cooperativa ainda carece de recursos para concluir as obras nos prédios existentes e construir novos armazéns e secadores em pontos estratégicos, especialmente em Ipixuna e Rodrigues Alves.

Por outro lado, o cenário aponta para oportunidades significativas de diversificação produtiva, com o início de experiências com cumarú e frutíferas nativas, ampliando horizontes econômicos e fortalecendo a sustentabilidade da cadeia produtiva no Vale do Juruá.

[…] a EcoCert quer comprar a semente do cumarú. Estamos vendo se conseguimos umas amostras para análise (Osmarino Lagos, 2025).

A cooperativa também planeja retomar o uso da agroindústria de despolpamento de frutas, produzindo polpas e óleos, aproveitando melhor os resíduos do murmurú e outras matérias-primas locais.

Essas iniciativas demonstram que a Coopercintra vive uma fase de transição:
de uma cooperativa voltada à sobrevivência e produção primária para uma organização estrategicamente orientada para a agregação de valor e a sustentabilidade de longo prazo.

CONCLUSÕES

A trajetória da Coopercintra sintetiza o espírito do novo cooperativismo rural do Acre, construído a partir da base comunitária, da economia solidária e da gestão participativa.
Fundada em condições precárias, a cooperativa alcançou maturidade institucional por meio de autonomia organizacional, aprendizado coletivo e parcerias estratégicas.

O murmurú simboliza essa caminhada. De um produto florestal marginalizado, tornou-se fonte de renda, inclusão e identidade econômica local. A inserção da cooperativa em cadeias de valor sustentáveis, com compradores como a Natura, demonstra o potencial de integração entre floresta, mercado e cidadania.

O presidente Osmarino Lagos resume essa trajetória com clareza:

[…] foi uma luta, mas conseguimos apoio, fizemos a fábrica funcionar, estamos crescendo de novo. Agora o que a gente precisa é melhorar a logística e preparar os jovens, para que esse trabalho não pare (Osmarino Lagos, 2025).

Mais do que uma cooperativa, a Coopercintra representa um laboratório social de transformação no interior do Acre.

Sua experiência reforça a ideia de que o desenvolvimento amazônico não depende da derrubada da floresta, mas da organização coletiva dos que vivem dela.
O fortalecimento da autogestão, a valorização das mulheres e dos jovens e a busca por eficiência produtiva e ambiental fazem da Coopercintra um exemplo de resiliência e inovação social.

O futuro da cooperativa dependerá de três vetores principais:

O futuro da cooperativa dependerá de quatro vetores principais:

  • a regularização contábil, passo indispensável para recuperar a credibilidade institucional, acessar políticas de apoio, restabelecer a relação com a OCB/Acre e superar as pendências deixadas pela antiga diretoria;
  • a profissionalização da gestão, com formação técnica e digital que permita maior eficiência administrativa e transparência;
  • a ampliação da base logística, com frota e infraestrutura adequadas para reduzir custos e melhorar a competitividade; e
  • a integração com políticas públicas e parceiros de longo prazo, garantindo sustentabilidade econômica e expansão das atividades.

A Coopercintra, portanto, consolida-se como um elo essencial no sistema cooperativista do Acre, contribuindo para transformar o Vale do Juruá em território de bioeconomia, solidariedade e sustentabilidade.

Bibliografia:

  1. Lagos, Osmarino. Entrevista concedida a Orlando Sabino. Rio Branco, 16 maio 2025.
  2. Lagos, Jaqueline. Entrevista concedida a Orlando Sabino. Rio Branco, 16 maio 2025.
  3. COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPAEB. Boletim Legal, Rio Branco, Acre. Disponível em: https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-da-coopaeb/. Acesso em: 21 ago. 2025.
  4. COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPASFE. Boletim Legal, Rio Branco, Acre. Disponível em: https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-da-coopasf/. Acesso em: 25 set. 2025.
  5. COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPERXAPURI. Boletim Legal, Rio Branco, Acre. Disponível em:https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-da-cooperxapuri/. Acesso em: 15 out. 2025.
  6. COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo no Juruá – o caso da COOPERCAFÉ. Boletim Legal, Rio Branco, Acre. Em revisão e publicação: outubro de 2025.