Candidatos Majoritários de municípios acreanos no Instagram: eleições de 2024

João Feres Júnior, Matteo de Barros Manes, Bruno Marques Schaefer

Introdução

Este relatório apresenta uma análise da comunicação política no Instagram realizada por candidatos a prefeito no estado do Acre durante as eleições municipais de 2024. O estudo espelha, em termos metodológicos e analíticos, o relatório anteriormente produzido para o Facebook, permitindo a comparação sistemática entre plataformas e a avaliação do papel específico do Instagram no ecossistema digital da campanha eleitoral.

A base de dados utilizada foi extraída a partir do sistema SOMAR e compreende todas as publicações realizadas nos perfis oficiais de Instagram dos candidatos a prefeito durante o período oficial de campanha eleitoral, de 16 de agosto a 6 de outubro de 2024. Além do conteúdo textual das postagens, a base inclui metadados relevantes, como data de publicação, identificação do candidato, partido e município, bem como métricas de engajamento associadas à plataforma.

Nossa análise concentra-se em três municípios: Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia. A escolha dessas cidades obedece a critérios substantivos e analíticos. Rio Branco, capital do estado, concentra o maior colégio eleitoral do Acre. Cruzeiro do Sul, segundo maior município do estado, permite-nos observar estratégias digitais em um contexto urbano relevante, porém distinto da capital. Já Brasiléia, por sua vez, representa um município de pequeno porte, com eleitorado reduzido e campanhas mais personalizadas, oferecendo um contraste importante em termos de escala, recursos e intensidade da competição eleitoral.

Essa seleção possibilita uma análise comparativa entre diferentes contextos municipais, permitindo avaliar como o uso do Instagram e os estilos de comunicação política variam

conforme o tamanho do eleitorado, o grau de profissionalização das campanhas e a centralidade das redes sociais na disputa local. Ao combinar capital, cidade média e município pequeno, o estudo busca captar variações estruturais no uso da plataforma, evitando generalizações baseadas em um único tipo de contexto urbano.

Assim como no relatório anterior, os dados foram submetidos a um processo de codificação automatizada por inteligência artificial, aplicado por meio de scripts em Python e prompts estruturados. As postagens foram classificadas segundo três dimensões analíticas centrais: função comunicacional, ideologia manifesta e grau de polarização. Essa estratégia permite captar não apenas a intensidade do uso do Instagram, mas também os estilos discursivos e as estratégias comunicacionais mobilizadas pelos diferentes partidos e candidaturas.

A escolha do Instagram como objeto de análise é particularmente relevante por se tratar de uma plataforma fortemente orientada à comunicação visual, à personalização e à construção de narrativas identitárias. Diferentemente do Facebook, o Instagram privilegia formatos imagéticos, vídeos curtos e textos condensados, o que pode influenciar tanto o conteúdo quanto o tom da comunicação política. Analisar o uso dessa plataforma no contexto das eleições municipais permite compreender de que maneira campanhas locais se adaptam a esses constrangimentos técnicos e simbólicos, e se reproduzem — ou não — os padrões de comunicação disruptiva frequentemente associados à direita radical na literatura especializada.

O relatório, portanto, tem como objetivo examinar como os candidatos em Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia utilizaram o Instagram em 2024, quais funções comunicacionais predominaram, como a ideologia se manifesta no conteúdo publicado e em que medida a plataforma foi mobilizada para estratégias mais ou menos polarizadoras. Ao fazê-lo, o estudo contribui para uma análise comparativa entre plataformas e para o refinamento das interpretações teóricas sobre comunicação política digital em contextos subnacionais.

Discussão teórica

A literatura sobre comunicação política digital tem destacado o Instagram como uma plataforma particularmente associada à personalização da política, à estetização da vida pública e à centralidade das emoções na construção de vínculos entre candidatos e eleitores. Diferentemente de redes orientadas ao debate textual ou à circulação de links, como o Facebook, o Instagram favorece narrativas visuais, performances identitárias e formas de

comunicação que aproximam a figura do candidato de registros cotidianos e informais (Enli, 2017; Lalancette e Raynauld, 2019).

Nesse contexto, diversos autores argumentam que o Instagram tende a reforçar estratégias de autopromoção e branding político, privilegiando a construção de imagens de autenticidade, proximidade e liderança carismática. A política se apresenta menos como confronto programático explícito e mais como narrativa pessoal, em que valores, estilos de vida e traços de personalidade ganham centralidade (Street, 2004; Wheeler, 2013). Esse padrão é particularmente relevante em campanhas locais, nas quais a identificação pessoal com o candidato costuma desempenhar papel decisivo.

A literatura sobre direita radical e populismo digital sugere que essas características do Instagram podem ser exploradas de forma estratégica por atores à direita do espectro ideológico. Estudos indicam que lideranças populistas e de direita radical utilizam intensamente recursos visuais e narrativas identitárias para construir a oposição simbólica entre “povo” e “elites”, reforçar valores morais conservadores e mobilizar afetos como indignação, orgulho ou ressentimento (Mudde, 2007; Engesser et al., 2017; Cesarino, 2020). O Instagram, ao reduzir o espaço para mediações discursivas complexas, pode funcionar como um ambiente particularmente propício à circulação desse tipo de mensagem.

Ao mesmo tempo, pesquisas mais recentes relativizam a expectativa de que o uso do Instagram por atores da direita radical seja necessariamente marcado por alto grau de polarização ou retórica agressiva. Em especial no nível subnacional, estudos mostram que campanhas locais tendem a adaptar sua comunicação às lógicas eleitorais específicas do território, combinando elementos ideológicos com discursos moderados, pragmáticos e fortemente personalistas (Bossetta, 2018; Kriesi et al., 2020). Nesses casos, a plataforma é utilizada menos como espaço de confronto político direto e mais como ferramenta de visibilidade, mobilização afetiva e reforço de capital simbólico.

Além disso, a própria arquitetura do Instagram impõe limites à comunicação negativa tradicional. A ênfase em imagens positivas, narrativas aspiracionais e performances de sucesso dificulta o uso sistemático de ataques explícitos a adversários, deslocando o conflito político para formas mais indiretas, como a afirmação de valores, identidades e estilos de vida contrastivos. A polarização, portanto, tende a se manifestar de modo mais simbólico e implícito, em vez de assumir a forma de embates discursivos diretos.

O estudo do Instagram no contexto das eleições municipais do Acre em 2024 — especificamente em Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia — dialoga diretamente com esse conjunto de debates. Ao articular municípios de portes distintos, o relatório permite avaliar como as estratégias digitais associadas à direita e à direita radical se adaptam a contextos eleitorais diversos, nos quais variam tanto os recursos disponíveis quanto o perfil do eleitorado. Ao mesmo tempo, o caso acreano oferece uma oportunidade empírica para testar a hipótese, recorrente na literatura, de que campanhas locais tendem a moderar o discurso mesmo quando se apropriam intensamente das redes sociais.

Metodologia

A análise apresentada neste relatório examina a comunicação política realizada no Instagram por candidatos a prefeito nas eleições municipais de 2024, com foco nos municípios de Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia. Os dados foram obtidos por meio do sistema SOMAR, que realiza a coleta sistemática de conteúdos publicados em plataformas digitais, e incluem todas as postagens realizadas nos perfis oficiais dos candidatos durante o período oficial de campanha eleitoral, compreendido entre 16 de agosto e 6 de outubro de 2024, conforme o calendário da Justiça Eleitoral.

A base do Instagram reúne o conteúdo textual associado às publicações — incluindo legendas e descrições — além de metadados relevantes, como data e horário da postagem, identificação do candidato, partido e município, bem como métricas de engajamento próprias da plataforma. Considerando as especificidades do Instagram, marcado pela centralidade da comunicação visual e por textos frequentemente curtos ou ausentes, o procedimento analítico concentrou-se nas informações textuais disponíveis, quando existentes, e nos registros mínimos necessários à classificação automática.

A partir da base original, foi conduzido um processo de codificação automatizada com o uso de scripts desenvolvidos em Python e modelos de inteligência artificial baseados em grandes modelos de linguagem. Esse procedimento teve por objetivo classificar sistematicamente o conteúdo das postagens segundo três dimensões analíticas: função comunicacional, ideologia manifesta e grau de polarização. Para cada dimensão, foram empregados prompts estruturados, com categorias claramente definidas e critérios substantivos explícitos, de modo a assegurar coerência conceitual e permitir a replicação do método.

A classificação da função comunicacional distinguiu diferentes usos do Instagram na campanha, abrangendo desde conteúdos informativos e programáticos até estratégias de autopromoção, mobilização de apoiadores, afirmação de valores e, de forma residual, ataque a adversários ou reação a eventos externos. Postagens sem texto ou com informação insuficiente para interpretação substantiva foram identificadas separadamente.

A ideologia manifesta foi inferida a partir de elementos explícitos presentes nas legendas das postagens, sendo classificadas em quatro grandes categorias — direita radical, direita neoliberal, centro e esquerda — sempre que o conteúdo permitisse identificar referências ideológicas discerníveis. Por sua vez, o grau de polarização captou o tom do discurso, variando de mensagens neutras ou técnicas a conteúdos mais antagonistas ou emocionalmente carregados, com previsão de uma categoria residual para casos não classificáveis.

Os resultados da codificação automática foram integrados à base original e analisados por meio de procedimentos estatísticos descritivos e representações gráficas, permitindo o cruzamento entre partido, ideologia, funções comunicacionais e níveis de polarização. Essa estratégia metodológica possibilita uma leitura comparativa do uso do Instagram na campanha municipal de 2024, evidenciando tanto padrões gerais de comunicação política quanto variações associadas ao contexto local e à posição ideológica das candidaturas.

Resultados

A tabela abaixo apresenta a distribuição do volume de postagens e do engajamento no Instagram dos candidatos a prefeito nos municípios de Brasiléia, Cruzeiro do Sul e Rio Branco durante a campanha eleitoral de 2024. Para cada cidade e candidato, são reportados o número absoluto e a participação percentual de publicações, bem como o total e a proporção de curtidas recebidas, permitindo comparar tanto a intensidade de uso da plataforma quanto a capacidade relativa de mobilização de audiência.

Tabela 1. Atividade e engajamento dos candidatos a prefeito no Instagram, por município (eleições municipais de 2024)

Cidade Candidato no. Posts % no. Curtidas %

Brasileia 164 18% 37.170 6%
(23.776 habitantes) Carlinhos do Pelado (PP) 108 12% 20.956 4%
Leila Galvão (MDB) 56 6% 16.214 3%
Cruzeiro do Sul 236 26% 229.306 39%
(88.233 habitantes) Jéssica Sales (MDB) 127 14% 122.605 21%
Zequinha Lima (PP) 109 12% 106.701 18%
Rio Branco 507 56% 323.957 55%
(418.687 habitantes) Emerson Jarude (Novo) Marcus Alexandre (MDB) 270237 30%26% 159.853164.104 27%28%
Total 907 100% 590.433 100%

Os dados evidenciam, em primeiro lugar, uma forte concentração da atividade e do engajamento no Instagram nos municípios de maior porte. Rio Branco, capital do estado, responde por 56% das postagens e 55% das curtidas do conjunto analisado, confirmando o papel central da cidade na dinâmica da comunicação política digital. Esse padrão sugere campanhas mais estruturadas e maior investimento na produção contínua de conteúdo visual, compatível com o perfil da plataforma.

Em Cruzeiro do Sul, segundo maior município do Acre, observa-se um nível elevado de engajamento em relação ao volume de postagens: embora concentre 26% das publicações, o município responde por 39% das curtidas. Esse descompasso indica uma maior eficiência média das postagens, com conteúdos que geram alto retorno em termos de interação, possivelmente em função de audiências mais engajadas ou de estratégias visuais mais eficazes. Se levamos em conta o tamanho da população de cada município, Cruzeiro do Sul apresentou atividade de campanha no Instagram bem mais elevada que a capital, Rio Branco.

O caso de Brasiléia, município de pequeno porte, contrasta fortemente com os demais. Apesar de responder por 18% das postagens, a cidade concentra apenas 6% das curtidas, o que sugere menor alcance ou menor capacidade de mobilização no Instagram. Esse resultado é consistente com a literatura que aponta menor centralidade das redes sociais visuais em campanhas locais de pequeno porte, nas quais o público potencial é reduzido e a circulação de conteúdo tende a ser mais limitada.

No plano das candidaturas, observa-se novamente uma assimetria relevante. Em Brasiléia, Carlinhos do Pelado (PP) publica quase o dobro de posts de Leila Galvão (MDB), mas a diferença de engajamento entre os dois é menos pronunciada, sugerindo retornos marginais decrescentes associados ao aumento do volume de postagens. Em Cruzeiro do Sul, Jéssica Sales (MDB) e Zequinha Lima (PP) apresentam níveis relativamente equilibrados de atividade e engajamento, indicando uma disputa mais simétrica na ocupação da plataforma.

Em Rio Branco, a competição se dá em patamares mais elevados. Emerson Jarude (Novo) lidera em número de postagens, enquanto Marcus Alexandre (MDB) obtém ligeiramente mais curtidas, apesar de publicar menos. Esse resultado aponta para estratégias distintas de uso do Instagram: de um lado, uma aposta em volume e presença constante; de outro, uma comunicação potencialmente mais seletiva ou com maior apelo médio por postagem.

Em conjunto, a tabela sugere que o Instagram opera como um canal altamente sensível à escala do eleitorado e ao grau de profissionalização das campanhas, favorecendo candidatos e municípios capazes de sustentar produção frequente de conteúdo visual e de ativar audiências engajadas. Ao mesmo tempo, os dados indicam que maior volume de postagens não se traduz automaticamente em maior engajamento, reforçando a importância da qualidade e da adequação estratégica do conteúdo às lógicas específicas da plataforma.

A tabela seguinte apresenta a distribuição percentual das funções comunicacionais das postagens publicadas no Instagram pelos candidatos a prefeito nos municípios de Cruzeiro do Sul, Brasiléia e Rio Branco durante a campanha eleitoral de 2024. As postagens foram classificadas segundo sete categorias analíticas, permitindo identificar os usos predominantes da plataforma por cada candidatura e comparar estratégias comunicacionais em contextos municipais distintos.

Tabela 2. Distribuição das funções comunicacionais das postagens no Instagram, por candidato e município (eleições municipais de 2024)

Cruzeiro do Sul Brasileia Rio Branco

Zequinha Lima Jéssica Sales Leila Galvão Carlinhos do Pelado Emerson Jarude Marcus Alexandre
Função / Candidatos (PP) (MDB) (MDB) (PP) (Novo) (MDB)
Informação de campanha 1% 0% 0% 1% 0% 1%
Promoção da plataforma/programa 6% 31% 6% 2% 6% 11%
Autopromoção pessoal 19% 14% 15% 10% 9% 11%
Mobilização e engajamento 54% 38% 72% 84% 54% 50%
Defesa de valores e identidades 16% 12% 0% 4% 8% 5%
Ataque a adversários 2% 5% 0% 0% 18% 21%
Resposta a eventos externos 2% 0% 7% 0% 5% 1%

Os dados indicam que o Instagram é utilizado predominantemente como ferramenta de mobilização e engajamento, independentemente do município ou do partido do candidato. Em todos os casos, essa função ocupa a maior parcela das postagens, com destaque para Carlinhos do Pelado (PP), em Brasiléia, que dedica 84% de seu conteúdo a esse tipo de comunicação, e Leila Galvão (MDB), também em Brasiléia, com 72%. Esses resultados reforçam o caráter relacional e interativo do Instagram, no qual chamadas à participação, convocações e estímulos à interação tendem a ser privilegiados.

A autopromoção pessoal aparece como a segunda função mais recorrente, embora em patamares significativamente inferiores aos observados no Facebook. As proporções variam entre 9% e 19%, com maior incidência entre Zequinha Lima (PP), em Cruzeiro do Sul, e menor peso entre os candidatos de Rio Branco. Esse padrão sugere que, no Instagram, a construção da imagem pessoal do candidato é frequentemente integrada às estratégias de mobilização, em vez de aparecer como um eixo comunicacional autônomo.

A promoção da plataforma ou programa apresenta variação relevante entre candidaturas. O caso mais destacado é o de Jéssica Sales (MDB), em Cruzeiro do Sul, para quem conteúdos programáticos representam 31% das postagens, um valor muito superior ao dos demais candidatos. Nos outros casos, essa função permanece marginal, indicando que o Instagram é raramente utilizado como espaço central para a exposição sistemática de propostas.

As funções associadas ao conflito político — defesa de valores e identidades e ataque a adversários — aparecem de forma mais seletiva e concentrada. Em Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima (PP) e Jéssica Sales (MDB) recorrem com alguma frequência à defesa de valores,

enquanto em Rio Branco chama atenção a elevada proporção de ataques a adversários entre Emerson Jarude (Novo) e Marcus Alexandre (MDB), com 18% e 21%, respectivamente. Esse padrão sugere que, na capital, o Instagram foi mobilizado de maneira mais explícita para diferenciação negativa entre candidaturas, ainda que essa estratégia não seja dominante no conjunto das postagens.

Por fim, a informação factual de campanha e a resposta a eventos externos são funções residuais em todos os casos, reforçando a ideia de que o Instagram não é utilizado prioritariamente como canal informativo, mas como espaço de ativação simbólica, mobilização e construção de vínculo com o eleitorado.

Em síntese, a tabela revela que o Instagram desempenha um papel distinto do Facebook na campanha municipal de 2024, com maior ênfase em mobilização, engajamento e formatos interativos, e menor centralidade da autopromoção isolada e da comunicação programática. Ao mesmo tempo, as variações entre municípios e candidatos indicam que o uso da plataforma é sensível tanto à escala da disputa quanto à estratégia política adotada por cada campanha.

A tabela 3, abaixo, apresenta a distribuição percentual da ideologia manifesta no conteúdo das postagens publicadas no Instagram pelos candidatos a prefeito nos municípios de Cruzeiro do Sul, Brasiléia e Rio Branco durante a campanha eleitoral de 2024. A classificação distingue quatro categorias ideológicas — direita radical, direita neoliberal, centro e esquerda — permitindo avaliar em que medida o conteúdo divulgado na plataforma reflete posicionamentos ideológicos explícitos ou, alternativamente, enquadramentos discursivos mais moderados.

Tabela 3. Ideologia manifesta nas postagens do Instagram, por candidato e município (eleições municipais de 2024)

Cruzeiro do Sul Brasileia Rio Branco

Zequinha Jéssica Sales Leila Galvão Carlinhos do Pelado Emerson Jarude Marcus Alexandre
Ideologia posts Lima (PP) (MDB) (MDB) (PP) (Novo) (MDB)
Direita radical 3% 1% 0% 0% 2% 1%
Direita neoliberal 4% 1% 1% 4% 3% 0%
Centro 90% 91% 74% 94% 91% 60%
Esquerda 3% 7% 25% 1% 4% 39%

Os dados revelam um padrão bastante consistente de predominância de conteúdos ideologicamente centristas no Instagram, independentemente do município ou da filiação partidária dos candidatos. Em cinco das seis candidaturas analisadas, a categoria “centro” responde por cerca de 90% ou mais das postagens, indicando que a plataforma é utilizada majoritariamente para comunicação pragmática, pouco ideologizada e voltada à ampliação do apelo eleitoral.

Esse padrão é especialmente pronunciado entre os candidatos do PP e do Novo. Zequinha Lima (PP), em Cruzeiro do Sul, e Carlinhos do Pelado (PP), em Brasiléia, apresentam 90% e 94% de conteúdos classificados como centristas, respectivamente. Emerson Jarude (Novo), em Rio Branco, também se aproxima desse perfil, com 91% de postagens nessa categoria. Esses resultados sugerem uma estratégia deliberada de moderação discursiva, mesmo entre candidaturas associadas a partidos situados à direita do espectro ideológico.

As categorias de direita radical e direita neoliberal aparecem de forma residual em todos os casos, raramente ultrapassando 4% das postagens. Mesmo no caso do PP e do Novo, partidos frequentemente associados a discursos mais ideologicamente marcados no plano nacional, o Instagram não é mobilizado como espaço de afirmação explícita dessas orientações. Esse achado reforça a interpretação de que, no contexto municipal, a comunicação digital tende a atenuar clivagens ideológicas mais duras.

As exceções mais relevantes concentram-se entre os candidatos do MDB, particularmente em Rio Branco e Brasiléia. Marcus Alexandre (MDB) apresenta um perfil distintivo: 39% de suas postagens são classificadas como ideologicamente à esquerda, um valor significativamente superior ao dos demais candidatos. Leila Galvão (MDB), em Brasiléia, também se destaca, com 25% de conteúdos de esquerda. Esses resultados indicam que, em alguns casos específicos, o Instagram pode ser utilizado como espaço de afirmação identitária e programática, sobretudo quando a estratégia eleitoral envolve a diferenciação ideológica positiva.

Em Cruzeiro do Sul, Jéssica Sales (MDB) combina um alto grau de centralidade discursiva (91%) com uma presença não desprezível de conteúdos à esquerda (7%), enquanto Zequinha Lima (PP) praticamente não recorre a enquadramentos ideológicos explícitos. Esse contraste sugere estratégias comunicacionais distintas em uma mesma disputa municipal, refletindo diferenças de posicionamento político e de leitura do eleitorado local.

Em conjunto, a tabela indica que o Instagram funciona, na campanha municipal de 2024, como um espaço de forte desideologização da comunicação política, no qual a grande maioria das postagens adota enquadramentos centristas e pragmáticos. A ideologia manifesta aparece de forma seletiva e concentrada em poucas candidaturas, reforçando a ideia de que a afirmação ideológica explícita é uma estratégia minoritária e contextual, e não um traço estrutural do uso da plataforma no nível local.

Abaixo temos a tabela com a distribuição percentual do grau de polarização das postagens publicadas no Instagram pelos candidatos a prefeito nos municípios de Cruzeiro do Sul, Brasiléia e Rio Branco durante a campanha eleitoral de 2024. As categorias distinguem conteúdos de baixa, moderada e alta polarização, permitindo avaliar o tom predominante da comunicação política na plataforma e comparar estratégias discursivas entre candidaturas e contextos locais distintos.

Tabela 4. Grau de polarização das postagens no Instagram, por candidato e município (eleições municipais de 2024)

Cruzeiro do Sul Brasileia Rio Branco

Zequinha Jéssica Sales Leila Galvão Carlinhos do Pelado Emerson Jarude Marcus Alexandre
Grau Polarização Lima (PP) (MDB) (MDB) (PP) (Novo) (MDB)
Baixo 88% 64% 96% 92% 28% 45%
Moderado 9% 30% 4% 8% 45% 28%
Alto 3% 6% 0% 0% 27% 27%

Os dados evidenciam que, no conjunto das candidaturas analisadas, o Instagram é predominantemente utilizado para comunicação de baixo nível de polarização, especialmente nos municípios de menor porte. Em Brasiléia, tanto Leila Galvão (MDB) quanto Carlinhos do Pelado (PP) apresentam perfis fortemente moderados, com 96% e 92% das postagens classificadas como de polarização baixa, respectivamente. A ausência completa de conteúdos altamente polarizados nesses casos sugere uma estratégia comunicacional orientada à construção de proximidade e à evitação do confronto direto.

Em Cruzeiro do Sul, o padrão também é amplamente moderado, embora com alguma variação entre candidatos. Zequinha Lima (PP) concentra 88% de suas postagens na categoria de polarização baixa, enquanto Jéssica Sales (MDB) apresenta uma distribuição mais equilibrada, com 64% de conteúdos de baixa polarização e 30% de polarização moderada. Ainda assim, a polarização alta permanece residual, indicando que o conflito explícito não ocupa lugar central na comunicação da disputa.

O caso de Rio Branco contrasta de forma significativa com os demais municípios. Na capital, observa-se uma elevação substantiva dos níveis de polarização, especialmente entre Emerson Jarude (Novo) e Marcus Alexandre (MDB). Ambos apresentam 27% de postagens altamente polarizadas, proporção muito superior à observada nas demais candidaturas. Além disso, em ambos os casos, a polarização moderada também assume peso relevante, resultando em uma redução expressiva da participação de conteúdos de polarização baixa, particularmente no perfil de Jarude (28%).

Esse padrão sugere que, em contextos urbanos maiores e mais competitivos, o Instagram pode ser mobilizado de forma mais confrontacional, funcionando como espaço de diferenciação política mais explícita. Ainda assim, mesmo na capital, a comunicação de baixa ou moderada polarização permanece majoritária no agregado, indicando que o uso do conflito discursivo é seletivo e estratégico, e não dominante.

Em conjunto, a tabela reforça a interpretação de que o grau de polarização no Instagram é fortemente condicionado pelo contexto local. Em municípios pequenos e médios, a plataforma é utilizada quase exclusivamente para mensagens conciliatórias e não antagonistas, enquanto em contextos de maior competição eleitoral, como Rio Branco, abre-se maior espaço para discursos polarizados. Esses resultados sugerem que o Instagram, apesar de seu potencial para circulação de mensagens emocionalmente carregadas, é majoritariamente apropriado como um instrumento de moderação e gestão de imagem em campanhas municipais.

Conclusões

Este relatório analisou o uso do Instagram por candidatos a prefeito nos municípios de Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia durante as eleições municipais de 2024, combinando dados de atividade e engajamento com uma codificação automatizada do conteúdo das postagens segundo função comunicacional, ideologia manifesta e grau de polarização. A análise permite tirar conclusões substantivas tanto sobre o papel específico do Instagram no ecossistema digital da campanha quanto sobre a validade empírica de hipóteses recorrentes na literatura sobre direita radical e comunicação política em redes sociais.

Em primeiro lugar, os resultados indicam que o uso do Instagram é fortemente desigual e condicionado pela escala do município. Rio Branco concentra a maior parte das postagens e do engajamento absoluto, mas Cruzeiro do Sul se destaca quando se considera a relação entre

população, volume de conteúdo e curtidas, sugerindo maior intensidade relativa de uso da plataforma. Brasiléia, por sua vez, apresenta menor capacidade de mobilização, o que reforça a interpretação de que redes sociais visuais, como o Instagram, têm impacto limitado em campanhas de pequeno porte, nas quais o público potencial é restrito e as dinâmicas de interação são mais personalizadas e offline.

Em segundo lugar, a análise das funções comunicacionais mostra que o Instagram é utilizado predominantemente como instrumento de mobilização e engajamento, e não como espaço de informação factual ou debate programático. Em todas as candidaturas analisadas, essa função ocupa a maior parcela das postagens, frequentemente acima de 50%. A autopromoção pessoal aparece como dimensão secundária, enquanto a apresentação sistemática de propostas é residual, com exceção pontual de uma candidatura em Cruzeiro do Sul. Esse padrão confirma o caráter relacional, afetivo e performático do Instagram, no qual a ativação de apoiadores e a construção de vínculo simbólico prevalecem sobre a comunicação substantiva de políticas públicas.

No que se refere à ideologia manifesta, os resultados são particularmente relevantes para o debate teórico. A ampla predominância de conteúdos classificados como centristas — inclusive entre candidatos de partidos situados à direita e à direita liberal — indica um processo de desideologização estratégica da comunicação no Instagram. As categorias de direita radical e direita neoliberal aparecem de forma residual, enquanto conteúdos explicitamente à esquerda concentram-se em poucas candidaturas específicas, sobretudo do MDB. Esses achados sugerem que, no contexto municipal, o Instagram não é mobilizado como arena privilegiada de afirmação ideológica dura, mas como espaço de ampliação de apelo eleitoral e gestão de imagem.

A análise do grau de polarização reforça essa interpretação. Em Brasiléia e Cruzeiro do Sul, a comunicação é esmagadoramente marcada por baixos níveis de polarização, com virtual ausência de discurso antagonista. Apenas em Rio Branco observa-se uma elevação significativa da polarização, especialmente entre candidatos de Novo e MDB, o que indica que o conflito discursivo tende a emergir em contextos de maior competitividade eleitoral e visibilidade pública. Ainda assim, mesmo na capital, a polarização alta permanece minoritária no conjunto das postagens, sugerindo uso seletivo e estratégico do confronto, e não uma lógica dominante de campanha.

Considerados em conjunto, os resultados do relatório relativizam uma hipótese forte da literatura internacional segundo a qual a direita radical utilizaria as redes sociais de forma sistematicamente mais disruptiva e polarizadora. O caso do Acre em 2024 mostra que, embora candidatos associados à direita façam uso intenso do Instagram, esse uso se dá majoritariamente por meio de estratégias moderadas, personalizadas e pouco ideologizadas, sobretudo em disputas locais. A comunicação disruptiva aparece de forma contextual e concentrada, e não como traço estrutural do uso da plataforma.

Assim, o estudo contribui para o refinamento da literatura sobre comunicação política digital ao evidenciar a importância do nível da disputa, do contexto territorial e da lógica específica da plataforma. O Instagram, no âmbito das eleições municipais acreanas, opera menos como um vetor automático de radicalização e mais como um instrumento de mobilização afetiva, construção de proximidade e gestão estratégica da imagem dos candidatos. Esses achados reforçam a necessidade de análises subnacionais e comparativas para evitar generalizações derivadas exclusivamente de eleições nacionais ou de contextos políticos altamente polarizados.

Referências

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