AGENDA AMBIENTAL DO GOVERNO DE MATO GROSSO (2018-2024)*

Adilson V. de Oliveira, Aryeh Craveiro, Flávio Siqueira, Natacha Chabalbin, Izabelle Stefany Alves de Freitas, Raimundo França e Telmo Antonio Dinelli Estevinho

O Mato Grosso, terceiro maior estado brasileiro em extensão territorial, possui 903.208 km² e abriga, segundo o Censo 2022, uma população de 3.658.813 habitantes — um aumento de 20,5% em relação a 2010. A densidade demográfica permanece baixa (4,05 hab/km²), evidenciando o caráter predominantemente rural e agropecuário do estado, ainda que 87% da população viva em áreas urbanas.

O debate ambiental no Mato Grosso é bastante complexo, afinal, o estado tem três biomas importantes em seu território (Cerrado, Pantanal e Amazônia), tendo assim legislações ambientais específicas quanto aos limites e formas de uso para cada bioma. Também, conta com processos de ocupação bastante diversos e com populações heterogêneas dentro de suas espacialidades, especialmente os povos originários. Além disso, tem o setor produtivo mais dinâmico do Brasil no que se refere à produção agrícola, sendo líder na produção grãos.

É neste contexto que este Boletim Técnico analisa, a partir do monitoramento da produção legislativa, das ações desenvolvidas pela Secretaria de Meio Ambiente e da Secretaria de Segurança Pública, a agenda pública ambiental do executivo estadual mato-grossense entre 2018 e 2024, com intuito de destacar as principais macro agendas ambientais em discussão no estado, bem como as disputas em torno dela pelos diferentes grupos de interesses.

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FONTE: SEMA-MT/SESP-MT/Adaptado pelos autores, 2025.

Investimentos na Fiscalização e Combate a Crimes Ambientais.

    O governo estadual alocou aproximadamente R$ 180 milhões para a prevenção e combate ao desmatamento ilegal e aos incêndios florestais. Esses recursos foram destinados à aquisição de equipamentos, contratação de pessoal e monitoramento por satélite. Como resultado, houve uma redução de 13,8% no desmatamento ilegal no último ano do período, superando a média nacional. Todavia, o desmatamento ilegal continua a ser um gargalo a ser enfrentado pelo estado como se observa no gráfico abaixo.

    Gráfico 1 – Comparação dos alertas de desmatamento (1º trimestre 2024-2025)
    Gráfico

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    FONTE: SEMA-MT/2025.

    Mudanças Legislativas e Flexibilização das Normas Ambientais

    Durante o período, leis polêmicas foram aprovadas, incluindo uma reclassificação de áreas da Amazônia para o Cerrado, reduzindo a área de preservação de vegetação nativa de 80% para 35%. Críticos argumentam que a medida pode aumentar o desmatamento, impactando a biodiversidade e os compromissos ambientais do Brasil. Todavia, o governador Mauro Mendes (UB) optou por vetar o Projeto de Lei nº 1.361/2023, justificando dos prejuízos ambientais e climáticos de sua aprovação.

    Impacto da Moratória da Soja e Incentivos Fiscais

    A decisão de encerrar incentivos fiscais para empresas que aderem à Moratória da Soja gerou preocupação entre ambientalistas e investidores internacionais. A medida foi contestada no Supremo Tribunal Federal (STF) – (Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 7614) – que suspendeu sua implementação em dezembro de 2024.

    Sustentabilidade e Desenvolvimento Econômico

    O Mato Grosso manteve sua posição de liderança na produção agropecuária, ao buscar iniciativas de sustentabilidade, como o programa “Carne Carbono Neutro” e incentivos à produção de bioenergia.

    Criação e Redução de Unidades de Conservação

    Projetos de lei relacionados à criação e redução de Unidades de Conservação (UCs) foram pautados na ALMT. Enquanto algumas propostas visavam ampliar áreas protegidas, outras sugeriam a desafetação ou redução de UCs existentes para permitir atividades econômicas. Essas iniciativas geraram debates sobre a importância das UCs na preservação da biodiversidade e no combate às mudanças climáticas.​

    Zoneamento Ecológico-Econômico e Social

    O Zoneamento Ecológico-Econômico e Social (ZEE) mato-grossense, atualizado em 2018, é um dos mais importantes instrumentos de planejamento territorial. Ele divide o estado em zonas de proteção, uso sustentável e uso intensivo, com base em estudos sobre clima, solo, vegetação, hidrografia e dinâmica socioeconômica. O ZEE orienta políticas públicas, como licenciamento ambiental, outorga de água e incentivos fiscais, e serve como referência para o PPA e para o licenciamento de grandes empreendimentos.

    Lei do Transporte Zero

    A Lei nº 12.197/2023, conhecida como Lei do Transporte Zero, sancionada em 2023, proibiu por cinco anos o transporte, armazenamento e comercialização de pescado in natura em todo o estado, buscando conter a pesca predatória e preservar os rios, especialmente nas regiões de cabeceira. A lei prevê exceções para a pesca de subsistência e artesanal, importantes para comunidades.

    Pantanal mato-grossense

    O Pantanal, declarado Patrimônio da Humanidade e Sítio Ramsar, ocupa grande parte do sudoeste de Mato Grosso. Essa área enfrenta pressões de pecuária extensiva, turismo desordenado, mineração e hidrelétricas. O ZEE identifica o bioma como zona de alta prioridade para conservação e uso restrito.

    Pequenas centrais hidrelétricas (PCH´s)

    As Pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), frequentemente planejadas em rios do Pantanal, trazem riscos de alteração hidrológica e perda de biodiversidade. A proibição de novas PCHs em determinados trechos do estado visa mitigar tais impactos.

    ​O Plano Plurianual (PPA) 2024-2027 do estado de Mato Grosso estabelece diretrizes e metas para a gestão pública nos próximos quatro anos, com uma receita orçamentária estimada em R$ 153 bilhões. Dentre os seis eixos prioritários definidos, destaca-se o Eixo Ambiental, que prevê investimentos de R$ 422 milhões voltados para a preservação e conservação dos biomas e recursos naturais do estado, além do fortalecimento de estratégias de desenvolvimento socioeconômico ambiental sustentável. ​

    Uma característica do PPA é seu alinhamento aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa integração foi essa integração foi formalizada por meio do Decreto Estadual nº 1.895/2023, assinada pelo governador Mauro Mendes, durante a COP 28, em Dubai. Esse alinhamento demonstra um compromisso do governo estadual em promover políticas públicas que atendam a metas globais de sustentabilidade, abrangendo áreas como segurança alimentar, agricultura sustentável, saúde, educação, redução das desigualdades e proteção dos ecossistemas.​

    Portanto, embora o PPA 2024-2027 apresente uma estrutura promissora para a agenda ambiental em Mato Grosso, o sucesso de sua implementação dependerá da coerência entre as diretrizes estabelecidas e as políticas efetivamente adotadas pelo governo estadual. A comunidade ambiental e a sociedade civil deverão acompanhar de perto a execução dessas metas, garantindo que os compromissos assumidos no PPA se traduzam em ações concretas que promovam a sustentabilidade e a conservação dos recursos naturais do estado.

    Confisco de Terras e desmatamento ilegal

    O governador Mauro Mendes (UB) por meio da Procuradoria Geral do Estado (PGE) entrou com petição junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) – Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 743 – pedindo que seja reconhecido a constitucionalidade do confisco de terras que pratiquem o desmatamento ilegal e que estas sejam direcionadas a projeto de reflorestamento, unidades de conservação ou assentamentos rurais ecológicos.

    Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso

    Agenda Ambiental e Combate a Crimes Ambientais

    Eixo de Atuação

    Principais Ações

    Ferramentas/Parcerias

    Combate a Crimes Ambientais

    Operação Amazônia, Operação Cerrado-Jalapão, fiscalização contra desmatamento e garimpo ilegal

    Batalhão de Emergências Ambientais (BEA), IBAMA, Polícia Ambiental

    Regularização Ambiental

    Programa Regulariza MT, CAR (Cadastro Ambiental Rural), licenciamento ambiental simplificado

    Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA)

    Controle de Queimadas

    Plano PPCDIF/MT, Operação Fogo Zero, monitoramento via satélite

    Corpo de Bombeiros, INPE (satélites)

    Biodiversidade e UC’s

    Gestão de Unidades de Conservação (ex: Parque Estadual Cristalino), combate ao tráfico de animais

    ICMBio, ONGs ambientais

    Educação Ambiental

    Projetos de conscientização, campanhas sustentáveis, MT Sustentável

    Escolas, comunidades rurais, setor privado

    Monitoramento Tecnológico

    Sistema SISFLA/MT, drones, inteligência artificial para fiscalização

    Imagens de satélite (INPE, Planet Labs)

    FONTE: SEMA/adaptados pelos autores, 2025.

    Secretária de Segurança Pública do Mato Grosso

    QUADRO RESUMO: PRINCIPAIS AÇÕES DA SESP-MT NO COMBATE A CRIMES AMBIENTAIS

    ÓRGÃO

    AÇÕES PRINCIPAIS

    RESULTADOS (2023-2024)

    PARCERIAS

    Polícia Militar Ambiental

    Fiscalização de desmatamento ilegal
    Combate à caça/pesca predatória
    Apreensão de equipamentos

    +500 equipamentos apreendidos
    R$ 8 mi em multas aplicadas

    IBAMA, SEMA-MT

    Polícia Civil (PJC)

    Investigação de garimpo ilegal
    Combate ao tráfico de animais
    Apuração de queimadas criminosas

    +200 inquéritos instaurados
    150 prisões relacionadas

    MPE-MT, MPF

    Corpo de Bombeiros

    Combate a incêndios florestais
    Operações preventivas contra queimadas

    40% redução em focos de calor
    25 mil ha protegidos

    Defesa Civil, PREVFOGO

    CIOA (Coordenadoria Integrada)

    Operações conjuntas em áreas críticas
    Fiscalização de garimpos e desmate

    1.000 ha de áreas embargadas
    50 veículos apreendidos

     

    Operação Amazônia Viva: 

    R$ 10 milhões em multas por desmatamento

      

    Operação Fogo Zero:

    35% menos incêndios em UC’s

      

    Resgate de Fauna

    500+ animais silvestres salvos

      
    FONTE: Secretaria de Segurança Pública do Mato Grosso/Adaptado pelos autores, 2025.

    As medidas adotadas pelo governo estadual geraram tanto apoio quanto oposição, especialmente sobre:

    1. a Lei do Transporte Zero, que afetou diretamente os pescadores artesanais e ribeirinhas, ainda que tenha sido construída políticas de compensação durante o período de proibição de pesca, mobilizando forte apoio da Assembleia Legislativa à demanda dos pescadores e ribeirinhos;
    2. Confisco terras e desmatamento ilegal – que mobilizou os setores produtivos ligados ao agronegócio a pressionar o governo do estado pela retirada a petição junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), bem como a maior parte da Assembleia Legislativa que se colocou contrário à proposta do governo.
    3. A flexibilização da legislação ambiental – que mobilizou parte da opinião pública nacional e setores ligados as diversas camadas da sociedade civil pela contrariedade do projeto, repercutindo, inclusive, internacionalmente.
    4. Zoneamento Ecológico, Econômico e Social (ZEES) – que desde 2018 se encontram em processo de revisão, mas continua inacabado, sendo instrumento fundamental para o uso racional dos biomas, partindo de suas especificidades.
    5. Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – o governo assumiu postura ativa na incorporação ODS aos seus instrumentos de planejamento como Plano Plurianual.

    Em síntese, é importante destacar que o governo Mauro Mendes (UB) assumiu como manifestação pública de seu governo, adotar o discurso da legalidade ambiental, isto é, defender aquilo que está previsto na legislação ambiental como, por exemplo, o desmatamento legal, bem como sua contrariedade a Moratória da Soja por não ter abrigo na legislação nacional, especialmente no Código Florestal (2012). De modo que seu governo se insere dentro de uma agenda desenvolvimentista quanto à perspectiva ambiental.

    No caso das estruturas de governos aqui analisadas(Secretaria de Meio Ambiente e Secretaria de Segurança Pública), depreende-se que o governo está dotado de uma estrutura de governo sólida quanto aos instrumentos de fiscalização e planejamento. Tanto a Secretaria de Meio Ambiente do Estado quanto a Secretária de Segurança Pública apresentam de forma transparente o acesso aos seus dados.

    Por fim, a tônica da agenda ambiental no Mato Grosso é um tema, cada vez mais instigante e necessário, dada à importância de seus biomas e papel que o Mato Grosso ocupa em termos geopolíticos no Brasil e no mundo, e que merece bastante profundidade analítica, dado o contingente de dados e instrumentos técnicos à disposição dos diferentes interessados pelo tema. Todavia, quando se foco Agenda Ambiental do Governo do Estado verifica-se que o mesmo trouxe à baila diversas ações ambientais polêmicas e contraditórias que faz surgir enfrentamentos entre os diversos setores, inclusive entre seus aliados, como fora proposta de confisco e Lei do Transporte Zero.

    Agradecimentos
    Placa branca com texto preto sobre fundo branco

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    1. *Boletim informativo oriundo do Projeto Amazônia + 10: Governança policêntrica, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável na Pan- Amazônia, financiado pela FUNDAÇÃO DE AMPARO DO MATO GROSSO – FAPEMAT, bem como do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL)