Relatório Consolidado da Avaliação Econômico-Financeira de Três Cooperativas Agroextrativistas do Alto Acre (2021–2025): evidências do “novo” Cooperativismo Agroextrativista
Orlando Sabino da Costa Filho
A análise conjunta da COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI revela que o Alto
Acre vive uma nova etapa do cooperativismo agroextrativista. Entre 2021 e 2025, as três
cooperativas ampliaram patrimônio, movimentação financeira, capital de giro e
capacidade de organização das cadeias produtivas da castanha, borracha, frutas regionais
e outros produtos da floresta. Esse movimento confirma a emergência de um novo
cooperativismo agroextrativista, baseado não apenas na comercialização da produção,
mas também na agregação de valor, acesso a mercados, articulação com políticas
públicas, fortalecimento institucional e reinvestimento das sobras nas próprias
organizações.
Nesse processo, a Cooperacre ocupa posição estratégica como estrutura central de
coordenação econômica desse sistema. Mais do que uma cooperativa central, ela atua
como elo integrador das cadeias produtivas agroextrativistas, oferecendo escala, logística,
beneficiamento, industrialização, comercialização e acesso a mercados que seriam
inalcançáveis individualmente para os produtores e cooperativas locais. Ao conectar
cooperativas territoriais do Acre às cadeias da castanha, borracha nativa, frutas, óleos
vegetais e café, a Cooperacre viabiliza aquilo que talvez seja a principal característica do
novo cooperativismo: transformar ativos territoriais e ambientais em renda, mantendo a
floresta economicamente viva. O resultado é um modelo híbrido que combina mercado,
ação coletiva e políticas públicas como mecanismos complementares de desenvolvimento
regional.
Sob essa perspectiva, o cooperativismo agroextrativista acreano aproxima-se do conceito
internacional de economia solidária territorial, em que o objetivo não é apenas maximizar
excedentes econômicos, mas construir capacidade coletiva, reduzir vulnerabilidades e
ampliar o poder de negociação dos pequenos produtores. As sobras reinvestidas, os
subsídios produtivos, os mecanismos de financiamento e a coordenação institucional
deixam de ser vistos como exceções e passam a ser entendidos como elementos
estruturantes para sustentar a pequena produção rural em mercados competitivos.2
No conjunto, as três cooperativas demonstram crescimento econômico relevante. A
COOPAEB saiu de uma estrutura menor e passou a movimentar mais de R$ 4 milhões
em ativos em 2025; a COPASFE mais que dobrou seu ativo total no período; e a
COOPERXAPURI consolidou-se como a maior das três, superando R$ 4,6 milhões em
ativos. Esse crescimento mostra que as cooperativas deixaram de ser apenas instrumentos
de representação dos produtores e passaram a operar como estruturas econômicas
fundamentais para organizar produção, crédito operacional, comercialização e repasses
aos extrativistas.
Tabela 1 – Indicadores estruturais consolidados das cooperativas (2021–2025) – Mil R$

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
Gráfico 1 – Evolução do Ativo Total das três cooperativas (2021–2025)

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
A liquidez corrente mostra diferenças importantes entre elas. A COPASFE manteve a
situação mais confortável, com liquidez elevada durante todo o período, indicando boa
capacidade de pagamento das obrigações de curto prazo. A COOPAEB ainda preserva
capacidade de pagamento, mas perdeu folga financeira ao longo dos anos. Já a
COOPERXAPURI apresenta o quadro mais sensível: cresceu muito, mas com redução3
da margem de segurança financeira. Em linguagem simples: todas conseguem operar,
mas nem todas crescem com o mesmo grau de tranquilidade financeira.
Tabela 2 – Indicadores Financeiros Comparados— Liquidez Corrente (2021–2025)

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
Gráfico 2 – Liquidez Corrente (2021–2025)

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
O ponto mais importante da análise é a dependência crescente de recursos de terceiros,
especialmente na COOPAEB e na COOPERXAPURI. Grande parte das obrigações de
curto prazo está vinculada a subsídios da borracha, convênios, antecipações de clientes,
recursos do Selo Biodiesel Social, adiantamentos para compra de matéria-prima e valores
a repassar aos produtores. Isso não deve ser interpretado apenas como fragilidade. No
capitalismo mundial, a pequena produção rural raramente opera sem algum tipo de apoio
público, crédito subsidiado, seguro, política de preços, transferência direta ou mecanismo
institucional de sustentação. A própria OCDE acompanha anualmente o apoio público à4
agricultura em 54 países e estimou que, entre 2022 e 2024, o apoio total ao setor agrícola
nesses países alcançou média de US$ 842 bilhões por ano.
Gráfico 3 – Dependência de recursos de terceiros (% Passivo Circulante/Ativo)

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
Portanto, os subsídios públicos aos produtos agroextrativistas no Acre devem ser
compreendidos como parte de uma lógica mais ampla de sustentação da pequena
produção rural. No caso acreano, eles cumprem papel ainda mais estratégico, pois ajudam
a manter famílias na floresta, garantem renda mínima, reduzem a vulnerabilidade dos
extrativistas, preservam cadeias produtivas tradicionais e fortalecem atividades
compatíveis com a conservação ambiental. A FAO destaca que políticas públicas e
programas adequados são instrumentos centrais para promover segurança alimentar,
agricultura sustentável e redução da pobreza rural.
Quadro 1 – Principais recursos externos utilizados (2025)

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
Os estoques, por sua vez, mostram que as três cooperativas operam com estruturas
relativamente enxutas. A COPASFE apresenta baixíssima imobilização em estoques,5
indicando giro rápido da produção. A COOPERXAPURI também manteve estoques
baixos na maior parte do período, embora tenha registrado aumento em 2025. A
COOPAEB apresenta participação maior dos estoques, acompanhando sua dinâmica de
crescimento recente. Em geral, isso indica que as cooperativas não estão acumulando
mercadorias sem saída; ao contrário, operam com fluxo produtivo ativo e conectado às
cadeias da castanha, borracha e frutas.
Tabela 3 – Indicadores Financeiros Comparados – Estoque/Ativo % (2021–2025)

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
O capital de giro é outro indicador positivo. Nas três cooperativas, ele permaneceu
positivo ao longo do período, o que significa que havia recursos de curto prazo superiores
às obrigações imediatas. A COPASFE apresenta a trajetória mais estável; a COOPAEB
mostra recuperação importante após 2022; e a COOPERXAPURI mantém capital de giro
positivo, mas com maior oscilação.
Gráfico 4 – Capital de Giro – Capacidade Operacional -(2021–2025) – Em mil R$

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)6
Esse resultado reforça que o novo cooperativismo agroextrativista não depende apenas da
produção física, mas da capacidade de administrar fluxo de caixa, antecipar recursos,
comprar produção, receber subsídios e repassar valores aos cooperados.
As sobras também revelam um elemento central desse modelo: as assembleias das três
cooperativas decidiram reinvestir os resultados, em vez de distribuí-los aos cooperados.
Essa decisão reforça o caráter coletivo do cooperativismo. Na prática, as sobras
funcionaram como instrumento de capitalização, fortalecimento patrimonial e ampliação
da capacidade operacional das entidades. Mesmo com oscilações, COOPAEB,
COPASFE e COOPERXAPURI mantiveram resultados positivos em todos os anos
analisados, o que demonstra capacidade de geração de excedentes e consolidação
institucional.
Tabela 4 – Sobras à disposição das Assembleias (2021–2025) – Mil R$

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
Gráfico 5 – Evolução das Sobras (2021–2025) – Mil R$7

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025). Observação: todas permaneceram positivas assembleias optaram por reinvestimento.
Quadro 2 – Síntese do novo cooperativismo agroextrativista

Fonte: Balanços COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI (2021–2025)
Em síntese, o relatório conjunto mostra que as três cooperativas representam experiências
concretas do novo cooperativismo agroextrativista acreano. Elas cresceram, organizaram
cadeias produtivas, ampliaram ativos, movimentaram recursos públicos e privados,
financiaram produtores e reinvestiram sobras. O principal desafio, daqui para frente, será
equilibrar expansão econômica com maior solidez financeira, reduzindo riscos de
dependência excessiva de recursos externos, sem perder de vista que os subsídios
públicos são parte legítima e comum da sustentação da pequena produção rural no mundo.
No Acre, mais do que apoio financeiro, esses subsídios funcionam como política de
desenvolvimento territorial, inclusão produtiva e valorização econômica da floresta em
pé.8
Mais do que organizações econômicas, as cooperativas agroextrativistas analisadas
demonstram que o desenvolvimento da floresta pode ocorrer por meio da combinação
entre ação coletiva, agregação de valor, políticas públicas e inserção competitiva em
mercados, consolidando um modelo de desenvolvimento que transforma conservação
ambiental em oportunidade econômica para o território.
Fontes:
1. Balanços da COOPAEB, COPASFE e COOPERXAPURI, 2021–2025.Acesso em
maio de 2026.
2. 3. OCDE, Agricultural Policy Monitoring and Evaluation 2025.
FAO, políticas públicas para segurança alimentar, agricultura sustentável e redução
da pobreza rural.
4. Banco Mundial, agenda de reorientação do apoio público à agricultura.
5. O “novo” Cooperativismo na Reserva Chico Mendes – O Caso da COOPAEB.
https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-
da-coopaeb/ Acesso em maio de 2026.
6. O “novo” Cooperativismo na Reserva Chico Mendes – O Caso da COOPASFE.
https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-
da-coopasf/ Acesso em maio de 2026.
7. O “novo” Cooperativismo na Reserva Chico Mendes – O Caso da COOPERXAPURI.
https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-