João Feres Júnior, Matteo de Barros Manes, Bruno Marques Schaefer
Introdução
A literatura sobre comunicação política digital tem enfatizado que as redes sociais constituem um ambiente particularmente favorável à atuação da direita radical e de atores populistas, tanto em razão de suas características técnicas quanto de seus incentivos comunicacionais. Estudos de impacto argumentam que essas plataformas reduzem os custos de entrada no debate público, enfraquecem mecanismos tradicionais de gatekeeping jornalístico e favorecem estilos comunicacionais baseados na emocionalização, na personalização e no conflito (Bennett e Pfetsch, 2018; Chadwick, 2017). Nesse contexto, partidos e lideranças associados à direita radical tenderiam a se beneficiar de uma comunicação direta, desintermediada e frequentemente disruptiva.
Uma parte substantiva dessa literatura sustenta que a direita radical utiliza as redes sociais de maneira mais intensa e estratégica do que atores tradicionais, combinando alto volume de postagens com narrativas simplificadoras, ataques a adversários e enquadramentos identitários centrados na oposição entre “povo” e “elites” (Mudde, 2007; Engesser et al., 2017). Norris e Inglehart (2019) acrescentam que esse estilo comunicacional estaria associado a clivagens culturais profundas e a uma reação conservadora frente a transformações sociais, o que se expressaria com especial força em ambientes digitais menos regulados.
Trabalhos mais recentes, contudo, vêm problematizando a ideia de uma associação mecânica entre direita radical, redes sociais e comunicação altamente polarizada. Pesquisas comparativas mostram que o grau de radicalização do discurso online varia significativamente conforme o contexto institucional, o nível da disputa eleitoral e o tipo de cargo em jogo (Kriesi et al., 2020;
Almeida, 2019). Em eleições locais, em particular, os incentivos à ampliação do eleitorado e à construção de uma imagem de gestor competente tenderiam a moderar o discurso, mesmo entre candidatos ideologicamente mais extremos.
O presente estudo de caso do Acre nas eleições municipais de 2024 dialoga diretamente com esse debate. Nossa análise concentra-se em três municípios: Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia. A escolha dessas cidades obedece a critérios substantivos e analíticos. Rio Branco, capital do estado, concentra o maior colégio eleitoral do Acre. Cruzeiro do Sul, segundo maior município do estado, permite-nos observar estratégias digitais em um contexto urbano relevante, porém distinto da capital. Já Brasiléia, por sua vez, representa um município de pequeno porte, com eleitorado reduzido e campanhas mais personalizadas, oferecendo um contraste importante em termos de escala, recursos e intensidade da competição eleitoral.
Metodologia
A análise apresentada neste relatório baseia-se em dados de comunicação política em redes sociais, com foco nas postagens publicadas no Facebook por candidatos a prefeito nas eleições municipais de 2024. A base de dados foi obtida a partir do sistema SOMAR, que disponibiliza a coleta sistemática de conteúdos publicados em plataformas digitais. Foram incluídas todas as postagens realizadas pelos perfis oficiais dos candidatos durante o período oficial de campanha eleitoral, compreendido entre 16 de agosto e 6 de outubro de 2024, conforme o calendário definido pela Justiça Eleitoral para o primeiro turno das eleições municipais.
A base do Facebook contém, além do texto integral das postagens, um conjunto abrangente de metadados associados a cada publicação, tais como data e horário, identificador do candidato, partido, município, bem como métricas de engajamento. A partir dessa base bruta, foi realizado um processo adicional de codificação automática, utilizando scripts desenvolvidos em linguagem Python e modelos de inteligência artificial baseados em grandes modelos de linguagem.
A codificação por IA incidiu sobre três dimensões analíticas centrais da comunicação política: função comunicacional, ideologia manifesta e grau de polarização. Para cada uma dessas dimensões, foram construídos prompts estruturados, com categorias mutuamente exclusivas e critérios substantivos explícitos, de modo a garantir consistência conceitual e replicabilidade do procedimento.
A função comunicacional das postagens foi classificada em sete categorias: (1) informação factual de campanha, abrangendo anúncios objetivos sobre datas, eventos e procedimentos eleitorais; (2) promoção da plataforma ou programa, referente à apresentação de propostas e diagnósticos de políticas públicas; (3) autopromoção pessoal, voltada à valorização da trajetória, atributos pessoais e vínculos locais do candidato; (4) mobilização e engajamento, incluindo convocações para eventos, uso de hashtags e estímulos à participação; (5) defesa de valores e identidades, caracterizada por manifestações ideológicas ou valorativas sobre temas morais, religiosos, sociais ou identitários; (6) ataque a adversários, englobando críticas a outros candidatos, partidos ou instituições; e (7) resposta a eventos externos, quando a postagem se referia a acontecimentos relevantes do contexto político, social ou institucional. Nos casos em que o texto estivesse ausente ou não contivesse informação suficiente para classificação, a codificação retornou o valor zero.
A ideologia manifesta foi identificada a partir do conteúdo explícito das postagens, segundo quatro categorias amplas: (1) direita radical, associada a discursos autoritários, moralistas, nativistas ou antissistêmicos; (2) direita neoliberal, caracterizada pela ênfase no mercado, empreendedorismo, meritocracia e redução do papel do Estado; (3) centro, marcado por pragmatismo, moderação e discurso tecnocrático ou conciliador; e (4) esquerda, definida pela defesa de igualdade, justiça social, inclusão de minorias, papel ativo do Estado e direitos humanos. Diferentemente das outras dimensões, essa codificação não previu a categoria zero, uma vez que o modelo foi instruído a classificar apenas quando houvesse elementos ideológicos discerníveis no texto.
Por fim, o grau de polarização das postagens foi classificado em três níveis: (1) baixo, para conteúdos neutros, informativos ou técnicos; (2) moderado, quando o discurso distinguia o candidato ou suas propostas sem deslegitimar explicitamente o outro lado; e (3) alto, nos casos de discurso antagonista, emocionalmente carregado ou desqualificador de adversários. Assim como na função comunicacional, postagens vazias ou insuficientes receberam o valor zero.
Os resultados da codificação automática foram incorporados à base original e posteriormente analisados por meio de procedimentos estatísticos e gráficos, permitindo o cruzamento entre ideologia dos candidatos, funções comunicacionais, ideologia manifesta e grau de polarização. Essa estratégia metodológica combina a abrangência dos dados digitais com a sistematização analítica proporcionada pela inteligência artificial, oferecendo um retrato comparativo e escalável das estratégias de comunicação política adotadas na campanha municipal de 2024.
Resultados
A tabela abaixo apresenta o volume de postagens e o nível de engajamento no Facebook dos candidatos a prefeito nos municípios de Brasiléia, Cruzeiro do Sul e Rio Branco durante o período de campanha eleitoral de 2024. São reportados, para cada cidade e candidato, o número absoluto e a participação percentual de publicações, bem como o total e a distribuição relativa de curtidas recebidas. Os dados permitem comparar a intensidade de uso da plataforma e a capacidade de mobilização de audiência entre os candidatos, evidenciando assimetrias relevantes tanto no volume de comunicação quanto no alcance das mensagens em diferentes contextos municipais.
Tabela 1. Atividade e engajamento dos candidatos a prefeito no Facebook, por município (eleições de 2024)
| Cidade | Candidato | no. Posts | % | Curtidas | % | |
| Brasileia | 51 | 1304 | ||||
| (23.776 habitantes) | Leila Galvão (MDB) | 25 | 49% | 803 | 62% | |
| Carlinhos do Pelado (PP) | 26 | 51% | 501 | 38% | ||
| Cruzeiro do Sul | 42 | 2.040 | ||||
| (88.233 habitantes) | Jéssica Sales (MDB) | 3 | 7% | 98 | 5% | |
| Zequinha Lima (PP) | 39 | 93% | 1942 | 95% | ||
| Rio Branco | 705 | 24.509 | ||||
| (418.687 habitantes) | Marcus Alexandre (MDB) | 22 | 3% | 1378 | 6% | |
| Emerson Jarude (NOVO) | 125 | 18% | 1832 | 7% | ||
| Tião Bocalom (PL) | 513 | 73% | 21004 | 86% | ||
| Dr. Jenilson (PSB) | 45 | 6% | 295 | 1% | ||
| Total Geral | 798 | 27.853 |
A tabela revela um padrão bastante claro de assimetria na presença e no desempenho dos candidatos no Facebook, tanto em volume de postagens quanto em capacidade de gerar engajamento (curtidas), e esse padrão varia sistematicamente conforme o tamanho do município e a posição dos candidatos na disputa.
Em Brasiléia, município pequeno (23.776 habitantes), observa-se um equilíbrio quase perfeito no número de postagens entre os dois candidatos. Leila Galvão (MDB) responde por 49% das publicações e Carlinhos do Pelado (PP) por 51%. No entanto, essa simetria desaparece quando se observa o engajamento: Leila concentra 62% das curtidas, contra 38% do adversário. Isso sugere uma maior eficiência comunicacional da candidata do MDB, que obtém retorno proporcionalmente maior por postagem, possivelmente em função de maior reconhecimento
prévio, redes locais mais consolidadas ou maior aderência do conteúdo publicado ao público da cidade.
Em Cruzeiro do Sul, segundo maior município do estado (88.233 habitantes), o cenário é radicalmente distinto. A atividade no Facebook é fortemente concentrada em Zequinha Lima (PP), responsável por 93% das postagens e 95% das curtidas. Jéssica Sales (MDB) apresenta uma presença residual na plataforma, com apenas 7% das publicações e 5% do engajamento. Aqui, o Facebook aparece menos como um espaço competitivo e mais como um canal hegemonizado por um único candidato, o que pode refletir diferenças significativas de recursos de campanha, estratégias digitais ou posição assimétrica na corrida eleitoral (por exemplo, incumbência ou favoritismo).
O caso de Rio Branco, capital e maior colégio eleitoral do estado (418.687 habitantes), é o mais expressivo e informativo. A distribuição de postagens é extremamente desigual: Tião Bocalom (PL) concentra 73% de todo o conteúdo publicado, enquanto seus três adversários somados respondem por apenas 27%. Essa dominância é ainda mais acentuada no engajamento: Bocalom reúne 86% das curtidas, com destaque para a enorme distância em relação aos demais candidatos. Marcus Alexandre (MDB), Emerson Jarude (NOVO) e Dr. Jenilson (PSB) apresentam participação marginal tanto em volume quanto em impacto. O dado sugere uma estratégia intensiva e altamente eficaz de ocupação da arena digital, em que o Facebook funciona como um instrumento central de visibilidade e mobilização para o candidato do PL.
Considerando o total agregado, os dados apontam para uma forte concentração da comunicação e do engajamento em poucos perfis, especialmente em Rio Branco, que sozinho responde por quase 90% das postagens e das curtidas do conjunto analisado. Isso indica que, embora o Facebook esteja presente em diferentes municípios, sua relevância política e estratégica é muito maior nos grandes centros urbanos, onde campanhas mais profissionalizadas tendem a investir de forma sistemática na produção de conteúdo e na ativação de audiências.
Em termos substantivos, a tabela sugere que o Facebook não opera apenas como um canal complementar, mas como um espaço de competição desigual, no qual volume de postagens e capacidade de gerar engajamento se reforçam mutuamente. Em contextos onde um candidato domina a produção de conteúdo, essa dominância tende a se traduzir também em maior visibilidade e interação, reforçando vantagens já existentes no terreno político offline.
A tabela seguinte sintetiza a distribuição das postagens realizadas no Facebook pelos candidatos a prefeito, classificadas segundo sua função comunicacional, com desagregação por partido. Os valores correspondem à participação percentual de cada função no total de postagens de cada legenda, permitindo comparar estratégias comunicacionais predominantes e padrões de uso da plataforma entre partidos distintos.
Tabela 2. Distribuição percentual das funções comunicacionais das postagens no Facebook, por partido (eleições municipais de 2024)
| Função / Partido | MDB | Novo | PL | PP | PSB | Total |
| Sem conteúdo textual | 10% | 2% | 1% | 4% | 2% | 2% |
| Informação factual de campanha | 2% | 1% | 1% | 1% | 2% | 1% |
| Promoção da plataforma/programa | 2% | 4% | 8% | 0% | 26% | 7% |
| Promoção pessoal | 45% | 53% | 57% | 37% | 24% | 52% |
| Mobilização e engajamento | 41% | 31% | 24% | 52% | 28% | 29% |
| Defesa de valores e identidades | 0% | 5% | 5% | 4% | 7% | 5% |
| Ataque a adversários | 0% | 5% | 2% | 0% | 9% | 3% |
| Resposta a eventos externos | 0% | 0% | 1% | 0% | 2% | 1% |
| Total | 100% | 100% | 100% | 100% | 100% | 100% |
Os dados indicam que a comunicação no Facebook é majoritariamente orientada à promoção pessoal dos candidatos, que responde por mais da metade das postagens no agregado (52%). Esse padrão é especialmente pronunciado entre os candidatos do PL (57%) e do Novo (53%), sugerindo uma estratégia centrada na construção de imagem, liderança e atributos individuais, em detrimento da exposição programática ou do debate político substantivo.
A segunda função mais recorrente é a mobilização e engajamento, que representa 29% do total das postagens. Essa dimensão assume peso particularmente elevado entre os candidatos do PP (52%) e do MDB (41%), indicando maior ênfase em convocações, chamadas à participação e estímulos diretos à interação com apoiadores. Em contraste, candidatos do PL e do Novo recorrem menos a esse tipo de conteúdo, priorizando formatos mais individualizados de comunicação.
A promoção da plataforma ou programa aparece de forma relativamente marginal no conjunto da amostra (7%), com forte concentração entre candidatos do PSB (26%) e, em menor medida, do PL (8%). Nos demais partidos, esse tipo de postagem é residual ou inexistente, o que sugere um uso limitado do Facebook como espaço de apresentação sistemática de propostas e diagnósticos de políticas públicas.
As funções associadas ao conflito político — defesa de valores e identidades e ataque a adversários — têm presença reduzida no total das postagens (5% e 3%, respectivamente), embora se destaquem proporcionalmente entre candidatos do PSB e do Novo. Isso indica que, apesar da centralidade do Facebook na campanha, a plataforma foi utilizada predominantemente de forma não confrontacional, com baixo grau de negatividade explícita.
Por fim, a informação factual de campanha e a resposta a eventos externos são pouco frequentes em todos os partidos, assim como as postagens sem conteúdo textual, que representam apenas 2% do total. Em conjunto, esses resultados sugerem que o Facebook funcionou, sobretudo, como um instrumento de personalização da disputa e de ativação de apoiadores, mais do que como um espaço de debate programático ou de confronto direto entre candidaturas.
A tabela a seguir cruza a classificação ideológica atribuída aos partidos políticos com a ideologia manifesta identificada no conteúdo das postagens publicadas no Facebook por seus candidatos a prefeito. Os valores percentuais indicam, para cada partido, a distribuição interna das postagens segundo quatro categorias ideológicas — direita radical, direita neoliberal, centro e esquerda — enquanto a linha final apresenta as frequências absolutas agregadas do corpus analisado.
Tabela 3. Ideologia dos partidos e ideologia manifesta nas postagens do Facebook dos candidatos a prefeito (eleições municipais de 2024)
| Partido | Ideologia Partido | Direita
radical |
Direita
neoliberal |
Centro | Esquerda | Total |
| MDB | Centro fisiológico | 2% | 13% | 86% | 0% | 100% |
| PSB | Centro-esquerda | 2% | 15% | 58% | 26% | 100% |
| PL | Direita | |||||
| radical/neoliberal | 9% | 40% | 48% | 3% | 100% | |
| PP | Direita/conservador- | |||||
| clientelista | 5% | 10% | 80% | 5% | 100% | |
| Novo | Direita/liberal clássico | 12% | 29% | 58% | 2% | 100% |
| Total (freq.) | 144 | 568 | 1008 | 80 | 1800 |
Os dados revelam um padrão consistente de moderação discursiva no uso do Facebook, mesmo entre partidos situados mais claramente à direita ou à esquerda do espectro ideológico. Em todos os partidos, a categoria “centro” é predominante no conteúdo das postagens, indicando que a comunicação digital tende a suavizar clivagens ideológicas e privilegiar enquadramentos pragmáticos, gerenciais ou pouco polarizados.
No MDB, classificado como um partido de centro fisiológico e ideologicamente ambíguo, essa tendência é particularmente pronunciada: 86% das postagens apresentam ideologia manifesta de centro, com presença residual de conteúdos associados à direita neoliberal (13%) e praticamente ausência de referências à esquerda. O padrão sugere uma estratégia comunicacional alinhada à identidade histórica do partido, marcada por flexibilidade programática e ênfase em discursos conciliadores.
O PSB, partido de centro-esquerda e matriz social-democrata, apresenta o perfil ideológico mais heterogêneo. Embora o centro continue sendo a categoria dominante (58%), há uma proporção substantiva de postagens com ideologia manifesta de esquerda (26%), significativamente superior à observada nos demais partidos. Esse resultado indica que, no caso do PSB, o Facebook é utilizado com maior frequência como espaço de afirmação identitária e programática, ainda que combinado a estratégias discursivas moderadas.
Entre os partidos de direita, observa-se novamente a prevalência do centro, mas com nuances importantes. O PL, classificado como direita radical/neoliberal, apresenta a maior incidência relativa de conteúdos de direita neoliberal (40%) e também a maior proporção de postagens associadas à direita radical (9%). Ainda assim, quase metade de suas postagens (48%) adota enquadramentos centristas, sugerindo um uso estratégico da moderação discursiva mesmo por candidatos vinculados a uma legenda ideologicamente marcada.
O PP, caracterizado como direita conservadora de perfil clientelista, exibe um padrão fortemente centrista (80%), com baixíssima presença de conteúdos explicitamente ideológicos. Esse resultado reforça a interpretação de que o partido utiliza o Facebook sobretudo para comunicação pragmática e pouco ideologizada, evitando tanto a polarização quanto a afirmação programática clara.
Por fim, o Novo, identificado como direita liberal clássica, combina uma proporção relevante de conteúdos de direita neoliberal (29%) e direita radical (12%) com uma maioria relativa de postagens de centro (58%). Esse perfil indica uma estratégia híbrida, na qual elementos ideológicos coexistem com discursos tecnocráticos e moderados.
Considerando o total agregado de postagens, a ideologia manifesta de centro responde pela maioria do corpus (1008 de 1800 posts), seguida pela direita neoliberal (568), enquanto a direita radical (144) e a esquerda (80) aparecem de forma bastante minoritária. Em conjunto, os resultados sugerem que o Facebook, no contexto da campanha municipal de 2024, operou
predominantemente como um espaço de desideologização estratégica da comunicação eleitoral, no qual mesmo partidos com posições ideológicas bem definidas recorrem majoritariamente a enquadramentos moderados e transversais.
Abaixo temos uma tabela com a distribuição percentual do grau de polarização das postagens publicadas no Facebook pelos candidatos a prefeito, desagregada por partido e acompanhada da respectiva classificação ideológica das legendas. As categorias de polarização distinguem conteúdos de baixo, moderado e alto antagonismo, além de uma categoria residual (NA) para postagens sem informação suficiente para classificação. A linha final reporta as frequências absolutas do conjunto de postagens analisadas.
Tabela 4. Grau de polarização das postagens no Facebook por partido e posição ideológica (eleições municipais de 2024)
| Partido | Ideologia Partido | Baixo | Moderado | Alto | NA | Total |
| MDB | Centro fisiológico | 47% | 43% | 0% | 10% | 100% |
| PSB | Centro-esquerda | 46% | 27% | 21% | 6% | 100% |
| PL | Direita radical/neoliberal | 51% | 43% | 5% | 2% | 100% |
| PP | Direita/conservador-clientelista | 54% | 42% | 0% | 4% | 100% |
| Novo | Direita/liberal clássico | 39% | 35% | 7% | 20% | 100% |
| Total (freq.) | 400 | 322 | 55 | 33 | 810 |
Os resultados indicam que a comunicação no Facebook durante a campanha municipal de 2024 foi marcada predominantemente por baixos níveis de polarização, independentemente da posição ideológica formal dos partidos. No agregado, quase metade das postagens apresenta grau de polarização baixo (400 de 810), enquanto conteúdos altamente polarizados são raros (55 postagens), reforçando a ideia de que a plataforma foi utilizada majoritariamente para mensagens informativas, pragmáticas ou de autopromoção, e não para o confronto direto.
No MDB, partido classificado como centro fisiológico e ideologicamente ambíguo, a polarização elevada é inexistente. Suas postagens se distribuem quase igualmente entre polarização baixa (47%) e moderada (43%), com uma parcela residual de conteúdos não classificáveis (10%). Esse padrão é coerente com uma estratégia comunicacional voltada à moderação e à evitação explícita do conflito.
O PP, identificado como direita conservadora de perfil clientelista, apresenta comportamento semelhante ao do MDB. A ampla maioria de suas postagens exibe polarização baixa (54%) ou moderada (42%), sem registros de polarização alta. Esse resultado sugere um uso do Facebook orientado à mobilização e à comunicação prática, mais do que à retórica antagonista.
Entre os partidos ideologicamente mais marcados, observa-se alguma variação, mas sem ruptura do padrão geral. O PL, classificado como direita radical/neoliberal, concentra 51% de suas postagens no nível de polarização baixo e 43% no moderado, com apenas 5% de conteúdos altamente polarizados. Apesar da associação do partido a discursos mais confrontacionais no plano nacional, seus candidatos municipais adotam, majoritariamente, um tom contido no Facebook.
O PSB, partido de centro-esquerda e orientação social-democrata, é o que apresenta a maior proporção relativa de postagens altamente polarizadas (21%). Ainda assim, a maior parte de seu conteúdo permanece nos níveis baixo (46%) e moderado (27%). Esse resultado indica que, embora o PSB utilize o Facebook com maior frequência para diferenciação política e eventualmente para o confronto discursivo, tal estratégia não é dominante.
O Novo, partido de direita liberal clássica, exibe um perfil distinto sobretudo pela elevada proporção de postagens classificadas como NA (20%), o que pode estar associado ao uso mais frequente de conteúdos visuais, textos muito curtos ou formatos menos informativos. Entre as postagens classificáveis, predomina a polarização baixa (39%) e moderada (35%), com uma presença limitada de polarização alta (7%).
Em síntese, a tabela mostra que o Facebook funcionou, no contexto das eleições municipais de 2024, como um espaço de contenção da polarização, mesmo entre partidos ideologicamente mais extremos. A retórica altamente antagonista aparece como exceção, e não como regra, sugerindo que estratégias de comunicação digital em nível local tendem a privilegiar a moderação e a ampliação de apelo eleitoral em detrimento do conflito aberto.
Conclusões
Este relatório analisou o uso do Facebook por candidatos a prefeito no Acre nas eleições municipais de 2024, combinando dados de postagens, métricas de engajamento e uma codificação automatizada por inteligência artificial das funções comunicacionais, da ideologia manifesta e do grau de polarização do conteúdo publicado. Os resultados apontam para três achados centrais.
Em primeiro lugar, confirmou-se que o uso das redes sociais é profundamente assimétrico, com concentração de postagens e engajamento em poucos candidatos e partidos, especialmente aqueles situados à direita do espectro ideológico. Esse padrão está em linha com a literatura
que aponta maior propensão da direita radical e da direita populista a investir intensivamente em plataformas digitais como estratégia de campanha (Mudde, 2007; Cesarino, 2020).
Em segundo lugar, a análise do conteúdo das postagens mostrou que o Facebook é utilizado majoritariamente para autopromoção pessoal e mobilização de apoiadores, enquanto a comunicação programática, informativa ou explicitamente conflitiva ocupa um espaço secundário. Esse resultado sugere uma convergência estratégica entre partidos distintos, indicando que a lógica da plataforma incentiva formatos personalistas e pouco ideologizados, como já observado por Bennett e Pfetsch (2018) e Chadwick (2017).
Por fim, e em contraste com parte da literatura, os níveis de polarização observados são baixos e a ideologia manifesta predominante é a de centro, inclusive entre partidos classificados como direita radical ou direita neoliberal. Esses achados reforçam interpretações recentes que apontam para uma adaptação estratégica do discurso da direita radical em contextos locais, nos quais a moderação pode ser eleitoralmente mais vantajosa do que a confrontação aberta (Kriesi et al., 2020).
A dominância de candidatos do PL em termos de volume de conteúdo e curtidas é compatível com a literatura que associa a direita radical e a direita populista a um uso mais intenso e profissionalizado das plataformas digitais. Por outro lado, a análise das funções comunicacionais, da ideologia manifesta e do grau de polarização revela um quadro mais matizado do que aquele sugerido por parte da bibliografia internacional. Mesmo entre partidos classificados como direita radical ou direita neoliberal, a comunicação no Facebook mostrou- se amplamente centrada na autopromoção pessoal, na mobilização de apoiadores e em enquadramentos discursivos moderados, com predominância de conteúdos classificados como ideologicamente centristas e baixos níveis de polarização explícita. A comunicação disruptiva, entendida como ataque sistemático a adversários, defesa agressiva de valores identitários ou uso intenso de retórica antagonista, aparece de forma limitada e residual.
Esse descompasso entre a expectativa teórica de maior radicalização e os achados empíricos do caso acreano sugere que a literatura sobre direita radical e redes sociais precisa ser lida de maneira contextualizada. Em disputas municipais, especialmente em estados periféricos do sistema político nacional, a lógica da proximidade com o eleitorado, da personalização da candidatura e da valorização de atributos individuais parece se sobrepor à lógica da confrontação ideológica aberta. As redes sociais, nesse contexto, funcionam menos como
espaços de radicalização discursiva e mais como instrumentos de reforço de capital político local.
Situados frente à literatura sobre direita radical e comunicação digital, esses resultados sugerem que o vínculo entre uso intensivo de redes sociais e comunicação radical não é automático nem universal. O caso do Acre em 2024 indica que, em eleições municipais, praticamente todas as forças políticas se apropriam das plataformas digitais sobretudo como instrumento de visibilidade, personalização e mobilização, sem necessariamente recorrer de forma sistemática à retórica polarizadora descrita em estudos nacionais e internacionais. Assim, o relatório contribui para uma compreensão mais contextualizada da relação entre ideologia, estratégias digitais e níveis de polarização, destacando a importância de análises subnacionais para refinar as teorias sobre comunicação política em ambientes digitais.
Referências
Almeida, R. (2019). Bolsonaro presidente: conservadorismo, evangelismo e a crise brasileira. São Paulo: Companhia das Letras.
Bennett, W. L., & Pfetsch, B. (2018). Rethinking political communication in a time of disrupted public spheres. Journal of Communication, 68(2), 243–253.
Cesarino, L. (2020). Como vencer uma eleição sem sair de casa: a ascensão do populismo digital no Brasil. Internet & Society, 1(1), 91–120.
Chadwick, A. (2017). The hybrid media system: Politics and power (2nd ed.). Oxford: Oxford University Press.
Engesser, S., Fawzi, N., & Larsson, A. O. (2017). Populist online communication: Introduction to the special issue. Information, Communication & Society, 20(9), 1279–1292.
Kriesi, H., Grande, E., Lachat, R., Dolezal, M., Bornschier, S., & Frey, T. (2020). West European politics in the age of globalization. Cambridge: Cambridge University Press.
Margetts, H., John, P., Hale, S., & Yasseri, T. (2016). Political turbulence: How social media shape collective action. Princeton: Princeton University Press.
Mudde, C. (2007). Populist radical right parties in Europe. Cambridge: Cambridge University Press.
Norris, P., & Inglehart, R. (2019). Cultural backlash: Trump, Brexit, and authoritarian populism. Cambridge: Cambridge University Press.