O “novo” cooperativismo no Juruá – O Caso da Coopercafé

Orlando Sabino da Costa Filho

Introdução

O cooperativismo rural acreano vive, nas duas últimas décadas, um processo de transformação estrutural que o diferencia radicalmente das experiências fragmentadas e assistencialistas do passado. O que antes era uma rede dispersa de pequenos empreendimentos de base extrativista, dependentes de apoio governamental e com baixa autonomia financeira, converteu-se, gradualmente, em um sistema integrado de produção, beneficiamento e comercialização, capaz de sustentar cadeias produtivas complexas e dialogar com os mercados nacional e internacional.

No centro dessa reconfiguração encontra-se a Cooperacre – Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre, fundada em 2001, que se consolidou como o eixo organizador do novo cooperativismo agroflorestal da Amazônia Ocidental. A Cooperacre desempenha papel estratégico ao articular dezenas de cooperativas singulares, associações e núcleos produtivos, oferecendo suporte técnico, gestão contábil, estrutura logística, industrialização e canais de comercialização. Sua trajetória representa o amadurecimento do cooperativismo acreano — um movimento que uniu eficiência econômica e compromisso social, mostrando que a floresta pode ser fonte permanente de renda e prosperidade.

A Cooperacre adotou um modelo empresarial mais robusto, baseado em autogestão, governança profissional e diversificação de produtos. Passou a coordenar cadeias de valor como a castanha-do-brasil, a borracha nativa, os óleos vegetais, o mel e o café, fornecendo estrutura industrial e comercial para dezenas de comunidades rurais e extrativistas.

Hoje, mais de 2.500 famílias estão vinculadas direta ou indiretamente à Cooperacre, distribuídas em cerca de 35 cooperativas e associações espalhadas por todas as regionais do Acre. Sua rede logística, com unidades de beneficiamento em Rio Branco, Xapuri, Tarauacá e Cruzeiro do Sul, representa o principal sistema de integração produtiva do estado, reduzindo custos, ampliando o valor agregado e criando condições para que o pequeno produtor se mantenha no campo e na floresta de forma digna e competitiva.

O impacto da Cooperacre não é apenas econômico, mas também institucional e simbólico: ela consolidou um novo paradigma de cooperativismo amazônico, que combina práticas de mercado com valores de solidariedade e sustentabilidade. Sob sua influência, surgiu uma nova geração de cooperativas singulares – como a Cooperxapuri, a Coopaeb, a Coopasf e, mais recentemente, a Coopercafé –, todas conectadas à central por relações de complementaridade técnica e comercial.

Essas cooperativas de base, cada uma em seu território, representam a “segunda onda” do cooperativismo acreano: são organizações mais jovens, com identidade local e foco em cadeias específicas, mas articuladas dentro de um sistema integrado que lhes garante estabilidade e escala. No caso da Coopercafé, a integração à Cooperacre permitiu superar as barreiras logísticas e financeiras que historicamente isolavam o Vale do Juruá, transformando a cafeicultura em uma atividade estruturante e com potencial exportador.

Assim, o “novo cooperativismo rural do Acre” é, em grande medida, uma obra coletiva catalisada pela Cooperacre, que se tornou um laboratório de inovação institucional e produtiva. Seu papel foi (e continua sendo) o de traduzir os ideais do cooperativismo amazônico em eficiência econômica, abrindo caminho para que as cooperativas singulares avancem da subsistência à competitividade, da informalidade à governança, e do extrativismo tradicional à bioeconomia moderna.

No contexto atual, a Cooperacre consolida-se não apenas como central de negócios, mas como referência de política pública de desenvolvimento regional, demonstrando que é possível articular produtividade, sustentabilidade e inclusão social em bases cooperativas. O futuro do cooperativismo no Acre – e, por extensão, na Amazônia – passa inevitavelmente por esse modelo: um cooperativismo de integração, aprendizado e autonomia, em que a Cooperacre é o eixo articulador e a Coopercafé representa o novo horizonte dessa expansão.

Gestão e governança

A Coopercafé está sediada em Mâncio Lima, município situado no ponto mais ocidental do Brasil. Fundada há cerca de quatro anos, a cooperativa nasceu da necessidade de organizar os produtores de café do Vale do Juruá, em um momento de expansão dessa nova atividade agrícola no Acre.

A iniciativa surgiu de forma espontânea, motivada pelo interesse de agricultores locais em buscar alternativas econômicas sustentáveis. O cultivo do café, já existente em pequena escala na região, foi reorganizado com apoio técnico e político, gerando entusiasmo entre os produtores.

O movimento ganhou força a partir da cooperação entre agricultores que passaram a compartilhar estruturas de beneficiamento e discutir formas de fortalecer a cadeia produtiva. Essa articulação resultou na criação da Coopercafé, consolidando um modelo de organização baseado em solidariedade, aprendizado coletivo e valorização do trabalho local.

Inserida no sistema Cooperacre, a Coopercafé faz parte de uma rede de apoio técnico, comercial e institucional que tem ampliado o alcance do café como produto estratégico da agricultura familiar acreana.

Sua atuação tem contribuído para diversificar a base produtiva do estado, gerar renda no interior e consolidar o Juruá como polo emergente da cafeicultura amazônica. A cooperativa tornou-se símbolo de uma nova fase do cooperativismo agroindustrial no Acre, marcada pela combinação de tradição, inovação e solidariedade.

Antes de fundar a Coopercafé, o presidente Jonas Lima atuou na Transterra, cooperativa localizada em Rio Branco, onde adquiriu experiência em gestão e estruturação de empreendimentos cooperativos.

Durante o processo de criação da nova cooperativa, essa vivência foi fundamental para estabelecer um modelo orientado por autossustentação e foco em resultados, evitando dependência de repasses governamentais e priorizando o fortalecimento dos produtores locais.

A Coopercafé não possui vínculo institucional com sindicatos rurais. Embora tenha havido convites para participação no projeto do café, essas entidades não integraram o processo de formação e gestão da cooperativa. O modelo adotado é independente e voltado à autogestão dos produtores associados.

A Coopercafé atua diretamente no apoio técnico e organizacional aos produtores, acompanhando desde a implantação das lavouras até o beneficiamento e comercialização.
O foco está na orientação dos agricultores, garantindo que o cultivo seja conduzido de forma eficiente, sustentável e tecnicamente adequada. Essa abordagem favorece o aumento da produtividade e o fortalecimento das famílias rurais, especialmente entre os que estão iniciando na cafeicultura.

A Coopercafé vem apresentando crescimento acelerado do quadro social.
O último balanço indica 182 cooperados ativos, número que recentemente foi ampliado em mais 52 novos associados.

Desde a fundação, com apenas 21 cooperados, a expansão tem sido contínua. Além disso, cerca de 50 produtores capacitados aguardam o início do plantio para ingressar formalmente na cooperativa, respeitando as normas internas.

O regulamento da Coopercafé estabelece duas exigências principais para o ingresso: possuir lavoura implantada com no mínimo mil pés de café e ter participado do curso de formação cooperativista oferecido pela própria instituição.

Esses critérios foram criados para assegurar o compromisso produtivo dos associados e evitar adesões fictícias, garantindo que todos os membros tenham vínculo real com a atividade agrícola e participem efetivamente da cadeia produtiva.

O processo é bem estruturado. Quando um produtor chega interessado em plantar café, é orientado que a primeira etapa é um curso de cooperativismo. Sem essa formação, ele não pode ingressar na cooperativa.

Durante o curso, o participante aprende noções básicas de governança cooperativa, responsabilidades do associado e fundamentos técnicos sobre o cultivo do café. É um momento de aprendizado e de compromisso.

Depois que o curso é concluído e o produtor decide realmente plantar, a cooperativa designa um técnico agrônomo — que também integra a equipe administrativa — para acompanhar diretamente o produtor no campo, orientando sobre preparo do solo, plantio, tratos culturais e manejo da lavoura.

[…] “depois que ele planta o café e está pronto para começar, entra a parceria com o SEBRAE e o SENAR, que garantem a continuidade da assistência técnica e o fortalecimento do nosso trabalho” (Jonas Lima, 2025).

Essa política segue orientação do sistema Cooperacre, que incentiva práticas de governança voltadas à autenticidade, produtividade e engajamento efetivo dos cooperados.

A Coopercafé possui um Conselho Administrativo composto por três membros: o presidente, o diretor financeiro e o diretor administrativo. Atualmente, o cargo de diretor administrativo e financeiro é acumulado, e contamos ainda com um técnico responsável pelo acompanhamento das atividades diárias.

Sua gestão é simples, mas funcional. Além da diretoria, já conta com um profissional de Tecnologia da Informação (TI), que dá suporte às operações e registros internos. A contabilidade é realizada por um escritório especializado do Paraná, que acompanha todo o processo contábil da cooperativa com alto padrão técnico. Embora esteja sediado fora do estado, o serviço é feito de forma integrada: o contador atua à distância, enquanto os nossos técnicos locais executam diariamente os lançamentos e prestam as informações necessárias.

A Coopercafé foi selecionada pela OCB Nacional (Organização das Cooperativas Brasileiras) para participar de um projeto-piloto de assessoria contábil voltado para o setor agropecuário, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, que historicamente apresentam dificuldades nessa área.

Esse programa tem como objetivo capacitar e profissionalizar as cooperativas, oferecendo um acompanhamento contábil completo e orientações técnicas permanentes. O escritório contratado — uma empresa do Paraná, especializada em contabilidade agropecuária — não apenas presta o serviço, mas também ensina e orienta os técnicos locais, promovendo autonomia e fortalecimento da gestão interna.

No Acre, a Coopercafé foi a primeira cooperativa a integrar o programa, que prevê acompanhamento por três anos. O primeiro ciclo já foi concluído com sucesso, e a experiência tem sido considerada um modelo de referência dentro da iniciativa.

Esse programa trouxe segurança contábil e transparência total à cooperativa. Hoje, possuí um CNPJ limpo e regularizado, e todos os processos seguem as melhores práticas de contabilidade para o ramo agropecuário. A presença de um contador especializado e a orientação técnica contínua elevaram o nível de gestão da Coopercafé.

[…] “sempre sonhei em fazer tudo da melhor forma possível, e essa cooperativa despertou em mim um sentimento profundo de responsabilidade. Sinto que represento pessoas que nunca tiveram oportunidade, e que hoje estão construindo algo novo e digno. Por isso, me dedico mais do que nunca — até mais do que na época da Transterra, minha experiência anterior com cooperativismo no transporte de caminhoneiros” (Jonas Lima, 2025).

Na Coopercafé, todas as decisões importantes são tomadas de forma democrática e participativa. Toda primeira semana de cada mês realizamos uma assembleia geral ordinária, em que apresentamos e discutimos todas as despesas, receitas e ações do mês. O Conselho Fiscal também se reúne mensalmente e funciona plenamente, acompanhando de perto a gestão.

Quando surge um projeto relevante, como parcerias ou novos investimentos, a decisão é sempre levada à assembleia. Nenhuma decisão é tomada apenas pela diretoria.

[…] “um episódio marcante exemplifica esse espírito democrático. A OCB/AC lançou um desafio à cooperativa: reunir a documentação necessária para acessar um financiamento de aproximadamente R$ 700 mil, destinado à instalação de um sistema de energia fotovoltaica, em parceria com a ABDI.

Para liberar o crédito, era exigida uma autorização formal da assembleia, registrada em ata, concedendo permissão ao presidente para firmar o contrato — algo que não poderia ser decidido apenas pela diretoria. O prazo, porém, era extremamente curto.

O técnico da OCB relatou que, ao conversar comigo sobre o assunto, deixei claro que não seria possível criar uma ata fictícia ou improvisada: “Não podemos inventar nada, é um negócio sério demais”. Então assumi o compromisso de mobilizar a base em apenas um dia.

E foi o que aconteceu: em menos de 24 horas, mais de 70 cooperados compareceram à assembleia extraordinária, de um total de 98 que havia na época. A deliberação foi realizada dentro das normas, registrada e documentada com fotos, que inclusive foram anexadas à ata para comprovar a legitimidade do processo.

Esse episódio mostrou a força de mobilização e o comprometimento dos cooperados, que só são chamados para deliberar sobre temas realmente importantes. A liderança participativa se consolidou como uma marca da Coopercafé, e o episódio reforçou a credibilidade da cooperativa junto às instituições financeiras e parceiras” (Jonas Lima, 2025).

A Coopercafé possui um plano estratégico elaborado especialmente para ela, em consonância com o da Cooperacre. O documento foi construído em parceria com a OCB/AC, a Cooperacre e a GIZ – Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável, no âmbito de um projeto voltado à profissionalização das cooperativas singulares do sistema.

A metodologia do processo de elaboração do planejamento foi participativa, incluindo os dirigentes e cooperados. Embora a Coopercafé ainda estivesse em fase inicial de estruturação, conseguiu ser incluída no grupo de cooperativas atendidas pela iniciativa — um passo importante para sua consolidação institucional.

[…] “esse planejamento veio no momento certo. A Coopercafé estava começando, e entrar nesse grupo foi uma conquista. Estamos aplicando tudo o que aprendemos com o apoio da OCB, da Cooperacre e da GIZ” (Jonas Lima, 2025).

Além do planejamento elaborado em parceria com a OCB, a Cooperacre e a GIZ, a Coopercafé foi contemplada com um Programa de Desenvolvimento da Gestão e Governança (PDGC), promovido pelo Sistema OCB. Esse programa foi conduzido pelo consultor Érico Espanha, especialista em cooperativismo agropecuário e com ampla experiência no ramo do café.

O consultor aplicou a metodologia nacional do Sistema OCB, que trabalha o fortalecimento da governança e das práticas de gestão nas cooperativas. O processo que começa com um autodiagnóstico institucional, em que os dirigentes e conselheiros avaliam o desempenho da cooperativa em diferentes dimensões — gestão, governança, transparência, controles internos, inovação e relacionamento com cooperados.

Após essa etapa, o consultor apresenta uma devolutiva detalhada, com observações e recomendações específicas. A partir desse diagnóstico, é entregue à cooperativa um plano de melhorias, que passa a ser implementado gradualmente, com o apoio técnico do Sescoop.

Relação com os cooperados

Jonas afirma que o ambiente interno da Coopercafé é marcado por diálogo e participação ativa. As assembleias mensais são o principal espaço de deliberação e transparência, onde todas as decisões importantes são debatidas coletivamente.

Ele reconhece que, à medida que a cooperativa cresce, é natural surgirem divergências, mas enfatiza que as discussões internas são positivas, pois fortalecem a gestão e o senso de pertencimento dos cooperados.

[…] “eu sempre digo para eles: aqui dentro é o lugar de questionar. Não lá fora. É aqui que vocês devem falar e propor mudanças. Isso ajuda o gestor e fortalece a cooperativa” (Jonas Lima, 2025).

Essa cultura democrática, segundo o presidente, é o que tem permitido manter a coesão do grupo e prevenir conflitos. Jonas vê o diálogo constante como uma ferramenta essencial de governança e afirma estar preparando a Coopercafé para se tornar uma referência de modelo institucional no Acre, com base na transparência e na participação.

O Presidente afirma que o nível de satisfação é muito alto, reflexo dos avanços conquistados nos últimos quatro anos. Ele destaca que nenhum cooperado desistiu ou se desligou definitivamente, e que até mesmo os poucos que haviam saído solicitaram retorno ao quadro social.

Mesmo os casos isolados de desligamento — geralmente de produtores que diversificaram suas atividades e se afastaram temporariamente — são tratados com respeito e procedimento formal, exigindo aprovação da assembleia para eventual reingresso.

Recentemente, a cooperativa entregou kits agrícolas financiados por emenda parlamentar da ex-deputada Perpétua Almeida, contendo uma bomba costal manual, uma motorizada, um perfurador de solo e uma roçadeira da marca Stihl. Foram distribuídos 136 kits para 131 cooperados ativos, reforçando o compromisso da cooperativa com a valorização do produtor familiar.

Esse tipo de iniciativa tem fortalecido o sentimento de pertencimento e a confiança no trabalho da diretoria. Jonas relata com orgulho que os cooperados reconhecem o esforço coletivo e a transparência na gestão, e que as assembleias mensais continuam sendo espaços de diálogo e cooperação.

A sede da cooperativa está localizada na área urbana de Mâncio Lima. Além da sede principal, a Coopercafé mantém um escritório avançado, utilizado para atendimentos e despachos quando o presidente está no município. Essa estrutura tem permitido uma presença constante da diretoria junto aos cooperados, facilitando a comunicação e o acompanhamento das demandas produtivas.

A cooperativa mantém parcerias com o SEBRAE e o SENAR, que oferecem assistência técnica e capacitação contínua na região do Juruá. Essas instituições desempenham papel essencial no desenvolvimento das atividades produtivas, especialmente diante da ausência de apoio direto do governo estadual ou municipal. O suporte técnico do Sistema “S” foi determinante para o fortalecimento inicial e para a profissionalização da Coopercafé.

A assistência técnica e a capacitação dos cooperados são as maiores fortalezas da Coopercafé. Atualmente, conta com quatro técnicos de campo atuando na região do Juruá, todos voltados para o atendimento dos produtores de café. Além disso, há um técnico vinculado diretamente ao SEBRAE, e em breve será incluído mais um profissional para atender especificamente o município de Mâncio Lima. Essa rede técnica garante acompanhamento constante às propriedades e apoio nas diversas etapas do cultivo.

Produção e infraestrutura

O avanço da cafeicultura no Juruá a uma combinação de fatores sociais e ambientais. O solo fértil e o regime de chuvas regulares oferecem boas condições para o cultivo, enquanto a tradição agrícola do povo local — historicamente voltado ao extrativismo da borracha, até à produção de produtos agrícolas como a mandioca e uma pecuária de pequeno porte — criou uma base de trabalhadores adaptados à rotina do campo.

Essa experiência foi gradualmente convertida para o café, com apoio técnico da cooperativa e de seus parceiros. Vários produtores que antes viviam apenas da farinha passaram a diversificar sua renda com o plantio de café, e até investidores de fora do estado, como do Amazonas, estão implantando novas áreas na região, algumas com até 50 hectares já em produção e previsão de expansão para 150 hectares no próximo ano.

A Coopercafé presta diversos serviços que vão além da comercialização. Jonas destaca o papel social da cooperativa como elo de apoio ao pequeno produtor, intermediando recursos e insumos que garantem a sustentabilidade da produção.

[…] “nós prestamos um serviço importante. Eu, como presidente, mantenho diálogo com parlamentares e instituições para conseguir apoio ao pequeno produtor. Quando conseguimos, por exemplo, mil sacas de adubo, elas são destinadas aos que mais precisam. Quem tem acima de cinco hectares não pega — o adubo vai para quem tem menos” (Jonas Lima, 2025).

As decisões sobre o uso desses recursos são tomadas de forma coletiva e transparente nas assembleias da cooperativa.

A cooperativa deixou de atuar na fase apenas agrícola e passou a incorporar etapas de industrialização, o que fortalece sua integração com o sistema Cooperacre e amplia as oportunidades de comercialização.

Essa mudança foi impulsionada pela parceria com a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e pela Copiai (Comissão da Política de Incentivo às Atividades Industriais do Estado do Acre), que exigiram um enquadramento industrial como condição para novos investimentos. A cooperativa passa, assim, a agregar valor ao produto e a elevar o padrão de qualidade.

[…] “a indústria instalada com o apoio da ABDI não é apenas de secagem. Ela conta com um conjunto de máquinas modernas que classificam o café nos padrões A, B, C e D, conforme a exigência do comprador. Também usamos tecnologia de secagem indireta, que evita o contato da fumaça da caldeira com o grão, garantindo um café mais puro e de melhor qualidade” (Jonas Lima, 2025).

O objetivo da estrutura montada é produzir um café de excelência, competitivo em qualquer mercado.

A cooperativa tem buscado modernizar suas práticas principalmente por meio de intercâmbio técnico e aprendizado com experiências de outros estados, como Rondônia, referência nacional na produção de café robusta amazônico. A participação em feiras agrícolas e visitas técnicas tem possibilitado o conhecimento de novas variedades e tecnologias aplicadas à cultura.

Jonas menciona que a cooperativa vem introduzindo mudas de alta qualidade genética, alinhadas às espécies mais produtivas cultivadas em Rondônia. Essa iniciativa tem garantido o avanço gradual da renovação dos cafezais e da produtividade local.

A Embrapa Acre teve papel fundamental na fase inicial do projeto, realizando estudos de solo e análises de aptidão agrícola da região do Juruá, o que permitiu identificar as áreas mais adequadas para o plantio de café. Segundo Jonas, os primeiros técnicos da instituição acompanharam de perto o início do cultivo, quando poucos acreditavam no potencial da cultura.

Atualmente, a UFAC também exerce um papel importante, sobretudo na formação e no apoio técnico. A cooperativa mantém parcerias de estágio supervisionado com professores e estudantes do curso de Agronomia, que acompanham as propriedades e auxiliam em levantamentos produtivos. O professor Leonardo, da UFAC, é citado como um colaborador ativo e entusiasta da cafeicultura regional.

Essa integração entre universidade e cooperativa tem permitido troca de conhecimento e capacitação prática para os futuros profissionais do setor agrícola, além de fortalecer os laços entre ensino, pesquisa e extensão rural.

Embora o regime de chuvas seja favorável, cerca de 70% dos cooperados ainda não dispõem de sistemas de irrigação. Jonas explica que a irrigação é essencial principalmente na fase de enchimento do grão, quando a planta sofre estresse hídrico. Para reduzir esse problema, a cooperativa, em parceria com o deputado Luiz Gonzaga, está elaborando um projeto de irrigação social voltado aos pequenos produtores com até dois hectares. O objetivo é garantir acesso à água sem onerar os cooperados de menor renda.

Mercado e comercialização

A comercialização do café é feita de forma totalmente direta pela cooperativa, sem atravessadores. Jonas explica que esse foi um dos motivos que o levaram a aceitar a presidência: eliminar a figura do marreteiro, o intermediário que lucrava sobre o esforço do produtor. Dessa forma, todo o resultado da venda retorna integralmente aos cooperados.

O modelo é simples e transparente: nenhum valor é retido da venda do café, com exceção de uma contribuição simbólica. Essa prática foi aprovada em assembleia e é administrada com prestação de contas mensal.

Com o crescimento da cooperativa e o aumento das despesas fixas — como energia elétrica, folha de pagamento e manutenção da indústria —, a assembleia decidiu instituir uma mensalidade simbólica para sustentar os custos administrativos.

Essa contribuição começou em R$ 50,00 e passou para R$ 100,00 por cooperado em 2024, valor que ajuda a cobrir despesas mensais como a conta de energia (que chega a R$ 17 mil, mesmo com o sistema solar instalado) e o pagamento de funcionários.

Jonas explica que o preço do café varia entre os estados e que o Acre ainda pratica valores inferiores aos de Rondônia. Em 2024, enquanto a pauta de Rondônia chegou a R$ 12 por quilo, o governo estadual reduziu para R$ 8, e o Acre manteve média de R$ 9, o que torna a comercialização local menos vantajosa para o produtor.

A cooperativa, no entanto, atua para proteger o produtor das oscilações de mercado, garantindo compra integral da produção. Assim, evita que os agricultores fiquem reféns das indústrias locais, que historicamente pagam valores abaixo da média regional. Esse sistema dá segurança ao cooperado e estabilidade à renda familiar.

A Coopercafé não possui concorrentes diretos no Acre, pois nenhuma outra organização apresenta o mesmo nível de estrutura e governança. As poucas iniciativas existentes são formadas por produtores isolados, sem capacidade de atuação coletiva ou escala produtiva significativa.

Ele estima que, ainda em 2025, o Vale do Juruá responderá por cerca de 50% de toda a produção de café do estado, resultado direto da organização cooperativista e das condições naturais favoráveis. O clima da região, com alta umidade e chuvas bem distribuídas, garante produtividade estável e reduz a necessidade de irrigação constante, diferentemente de outras áreas do Acre.

Com o mercado interno consolidado, a Coopercafé já tem parcerias firmadas com duas a três indústrias de Rondônia, que devem absorver parte do excedente da safra atual. Além disso, Jonas relata contatos com compradores de outros estados, inclusive de Minas Gerais, interessados na qualidade do café acreano.

Segundo ele, a cooperativa não enfrenta dificuldade para escoar a produção, pois o produto já despertou o interesse de torrefadoras que acompanham o avanço da indústria local. Há inclusive planos para que representantes dessas empresas visitem o complexo industrial da cooperativa e conheçam o processo de beneficiamento.

Situação financeira

O Presidente explica que 2025 ainda é considerado o primeiro grande ano de produção efetiva da cooperativa, e por isso os resultados financeiros estão em fase de consolidação. Até o momento, as receitas têm sido suficientes para cobrir os custos operacionais e manter a estrutura em funcionamento, mas sem sobras significativas.

Ele reconhece que, como o atual modelo não retém percentuais sobre as vendas, a geração de sobras é limitada. Esse formato — em que todo o valor da comercialização é repassado integralmente ao produtor — foi importante para fortalecer a confiança dos cooperados, mas restringe a acumulação de capital próprio.

[…] “a sobra vem exatamente da comercialização que fica na cooperativa. Se nada fica, não tem sobra. Mas isso vai mudar, porque agora começamos a cobrar pelos serviços” (Jonas Lima).

A partir do novo modelo de cobrança aprovado em assembleia, a cooperativa passará formar um fundo de reserva e garantir sobras reais ao final do exercício. Mesmo assim, a prioridade da diretoria não é distribuir valores pequenos entre os cooperados, mas reinvestir o resultado em melhorias estruturais: aquisição de equipamentos, expansão da frota e modernização da indústria.

Diante do aumento da produção e da estrutura de beneficiamento, a Coopercafé implantou um novo modelo de cobrança de serviços, aprovado em assembleia, que passará a vigorar gradualmente. O produtor pagará um percentual simbólico sobre o volume de café entregue — cerca de 4% a 5% —, destinado à manutenção da estrutura coletiva.

Esse modelo torna o sistema mais equitativo e sustentável, pois cada cooperado contribui de acordo com a própria capacidade produtiva. Assim, quem produz mais paga um pouco mais, e quem produz menos paga menos, mantendo o equilíbrio entre justiça social e responsabilidade financeira.

Jonas acredita que essa nova política vai permitir autonomia financeira à cooperativa, reduzindo a dependência de recursos externos e assegurando sua saúde econômica no longo prazo.

Questões sociais e ambientais

Segundo Jonas Lima, essa consciência é parte central da formação e das orientações internas da Coopercafé. Desde as primeiras palestras e assembleias, a diretoria enfatiza que a viabilidade econômica do café só é sustentável se estiver alinhada à preservação ambiental.

A cooperativa adota uma postura rigorosa: qualquer cooperado envolvido em desmatamento ilegal ou que tenha pendências ambientais perde imediatamente o direito de permanecer no quadro social. Esse princípio é constantemente reforçado nas reuniões e está incorporado à cultura organizacional da entidade.

[…] “todo projeto que nós criamos é em cima da sustentabilidade e do respeito ao meio ambiente. Quem desmata está fora da cooperativa” (Jonas Lima, 2025).

A Coopercafé foi contemplada com um projeto de energia solar fotovoltaica, implementado com recursos da ABDI e de emendas parlamentares, tornando-se uma das primeiras cooperativas do Acre a operar com matriz energética 100% limpa.

Além disso, a estrutura física da cooperativa foi planejada para reaproveitar integralmente a água da chuva — o sistema de calhas e reservatórios canaliza a água do telhado para cisternas de armazenamento, utilizada posteriormente na limpeza e no processamento do café.

Essas medidas reduziram custos operacionais e reforçaram a imagem da cooperativa como modelo de produção de baixo impacto ambiental no Vale do Juruá.

Um dos pontos frequentemente questionados nas assembleias é o uso da lenha nos secadores de café. Jonas explica que toda a lenha utilizada é adquirida de forma legal e certificada pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (IMAC), com nota fiscal e plano de manejo regularizado.

Além disso, o café é reconhecido como cultura com alto potencial de sequestro de carbono, contribuindo para a compensação ambiental e climática. A cooperativa acompanha com interesse os debates sobre sistemas agroflorestais, como o consórcio do café com espécies nativas (açaí, cacau, andiroba), o que amplia a biodiversidade e fortalece a economia verde.

A Coopercafé consolida um modelo agroflorestal inovador, que alia renda, inclusão social e conservação ambiental. As práticas de energia solar, reaproveitamento de água, manejo sustentável da lenha e adoção de sistemas agroflorestais demonstram que a cooperativa internalizou os princípios da bioeconomia e da sustentabilidade amazônica.

Mais que uma organização produtiva, a Coopercafé se firma como um projeto educativo e ambiental, comprometido em mostrar que o desenvolvimento rural pode caminhar junto com a preservação da floresta.

O Presidente reconhece que, no início, havia certa resistência dos filhos de produtores mais antigos em aderir ao cultivo do café — fenômeno também observado em outras cadeias tradicionais, como a borracha e a castanha. A juventude rural, muitas vezes, busca atividades mais urbanas ou que aparentam maior retorno financeiro e modernidade.

Contudo, ele destaca que essa realidade está mudando rapidamente, impulsionada pelos resultados concretos e pelo prestígio social crescente da cafeicultura regional. O café, diferentemente do extrativismo tradicional, tem se mostrado mais rentável e tecnicamente atrativo, despertando o interesse de jovens e mulheres pela sua capacidade de gerar renda e inovação.

A Coopercafé vem se consolidando como espaço de inclusão e protagonismo das novas gerações, especialmente de mulheres jovens, que assumem áreas produtivas e cargos de liderança. O cultivo do café tem superado o estigma de atividade pesada e pouco atrativa, mostrando-se como símbolo de modernização, autonomia e dignidade no campo.

A sucessão geracional, impulsionada por exemplos de várias produtoras locais, revela que o futuro da cafeicultura no Juruá está sendo construído por novos rostos, novas histórias e um compromisso renovado com o desenvolvimento sustentável.

Políticas públicas e apoio institucional

A Coopercafé tem contado, principalmente, com o apoio de parlamentares estaduais e federais por meio de emendas orçamentárias individuais, que têm sido fundamentais para a aquisição de maquinários e ampliação da estrutura produtiva.

O pontapé inicial foi dado ainda durante quando o período em o Presidente exerceu mandato parlamentar, quando destinou R$ 1 milhão em emendas para a própria cooperativa, possibilitando a compra das primeiras três colhedoras e de uma máquina descascadora de café.

Desde então, outros deputados e senadores se tornaram parceiros frequentes. Essas parcerias têm garantido os principais investimentos estruturais da cooperativa e permitido a expansão de sua capacidade produtiva.

No âmbito estadual, o apoio tem sido limitado e pontual. A principal contribuição veio da Secretaria de Estado de Agricultura (SEAGRI)., por meio de doação de um caminhão, obtido graças à relação institucional com o Secretário de Agricultura, José Luiz Schafe. O veículo foi reformado com recursos próprios da cooperativa e atualmente está em uso no transporte da produção.

Já a Prefeitura de Mâncio Lima desempenhou papel importante no início das atividades, executando emendas parlamentares que viabilizaram a distribuição de mudas e a mecanização de áreas de plantio. Embora não tenha produzido mudas diretamente, o município coordenou o processo de entrega e acompanhamento técnico junto aos produtores.

Em relação à legislação, Jonas considera que o ambiente legal atual é favorável à atividade, especialmente pela existência de leis criadas ainda no governo Tião Viana, como a Lei Estadual da COPIAI — norma que garante isenção de impostos sobre equipamentos industriais e incentiva a implantação de plantas de beneficiamento.

[…] “a COPIAI foi uma mão na roda. Cerca de 80% dos equipamentos da nossa indústria estão lá, e ninguém paga imposto na hora. Isso foi decisivo para tirar o projeto do papel”. 

A política estadual de incentivos, portanto, facilitou a industrialização do café, mas Jonas observa que a região do Juruá ainda carece de maior presença do Estado em programas de fomento e infraestrutura. A ampliação do apoio técnico e financeiro seria essencial para consolidar a Coopercafé como referência regional e impulsionar o desenvolvimento local.

Desafios e perspectivas futuras

A Coopercafé pretende, portanto, reinvestir as sobras no próprio negócio, conforme decisão da assembleia geral. Jonas destaca que essa proposta vem sendo bem aceita, pois os cooperados reconhecem que o fortalecimento da estrutura coletiva traz benefícios de longo prazo — maior eficiência, redução de custos e melhor valorização do produto.

Ele cita como exemplo a aquisição de colhedoras de café, que já estão operando em algumas áreas e devem ser ampliadas com o apoio de emendas parlamentares e da prefeitura local. Esses equipamentos, ao reduzirem perdas na colheita, representam receita indireta para os produtores e contribuem para o equilíbrio financeiro da cooperativa.

Apesar do desafio de sustentar as operações em fase de crescimento, Jonas afirma que não há dificuldades financeiras graves: as contas estão equilibradas e as parcerias institucionais continuam garantindo estabilidade.

Existem avanços, mas ainda enfrentam dificuldades em algumas áreas, especialmente no acesso ao crédito e à infraestrutura de transporte.

Apesar dessas limitações, o crescimento da produção é expressivo. No ano passado, foram colhidas cerca de 5.800 sacas de café. Este ano, a previsão é entre 35 e 40 mil sacas passando pela indústria. Podendo ser ainda mais.

Jonas faz questão de enfatizar a formalização das vendas como princípio de transparência e fortalecimento econômico:

[…] “nenhum cooperado pode vender café por fora. Todo o café tem que sair com nota fiscal. Isso é bom para o Estado, que arrecada, e bom para o produtor, que passa a ter registro de renda e pode buscar crédito bancário para crescer” (Jonas Lima, 2025).

A cooperativa também firmou parceria com o Sicoob, banco cooperativo que vem apoiando o financiamento da produção.

A Coopercafé ainda enfrenta fragilidades logísticas, especialmente no transporte da produção até a indústria. A maioria dos produtores não tem transporte próprio para levar o café até a indústria. Diante desse desafio a cooperativa já conseguiu organizar algumas caçambas para ela própria pagar o frete dos produtores. Hoje, a Coopercafé possuí apenas um caminhão, cedido pela Secretaria de Agricultura do Estado, que foi reformado e está pronto. Mas a necessidade é de pelo menos seis ou sete caminhões para atender toda a demanda. A cooperativa já conta com um secador próprio, instalado com apoio da ABDI, mas ainda busca ampliar a frota e otimizar o escoamento da produção:

Segundo Jonas, as condições dos ramais variam muito entre os municípios. Em Mâncio Lima, apesar das fortes chuvas do ano, a situação é relativamente melhor; já em Rodrigues Alves, o solo é mais argiloso e as estradas são consideradas as piores da região.

A cooperativa tem buscado soluções práticas para reduzir as perdas durante o escoamento da produção. Uma das estratégias é organizar o transporte com carroças e pequenos veículos para levar o café das propriedades até os pontos acessíveis aos caminhões. Essa logística emergencial evita que o produto fique armazenado por muito tempo sem secagem, o que comprometeria a qualidade.

Jonas explica que existe um esboço de projeto interno para aprimorar esse sistema e garantir que, mesmo nos períodos de chuva, o café possa ser transportado com eficiência até a indústria de beneficiamento.

Quanto a situação da BR-364, Jonas diz que melhorou significativamente nos últimos anos. Ele lembra que, em épocas anteriores, a rodovia chegava a ficar interrompida por semanas durante o inverno amazônico, prejudicando o transporte de mercadorias.

Atualmente, as condições são estáveis e o tráfego permanece aberto durante todo o ano, permitindo escoamento contínuo da produção. As transportadoras têm buscado a cooperativa espontaneamente para realizar o transporte do café, inclusive para Rondônia, o que demonstra maior integração logística da região.

Persistem desafios relacionados ao acesso ao crédito e à infraestrutura de transporte. Ainda há falta de insumos para 20% dos cooperados, consequência das dificuldades de muitos produtores em acessar linhas de financiamento.

Conclusões

A trajetória da Coopercafé simboliza, de forma exemplar, a maturidade e a vitalidade do “novo cooperativismo acreano”. O que começou como um movimento modesto de pequenos produtores em Mâncio Lima transformou-se, em poucos anos, em uma organização sólida, transparente e inovadora, capaz de articular produção, beneficiamento, governança democrática e responsabilidade socioambiental.

Mais do que uma cooperativa de café, a Coopercafé representa um modelo de desenvolvimento territorial baseado na integração produtiva e na valorização do trabalho familiar. Sua estrutura de gestão participativa, o rigor contábil, a regularidade fiscal e o compromisso com a sustentabilidade revelam um padrão de organização raro na economia rural amazônica. O vínculo com o sistema Cooperacre garante respaldo técnico e comercial, enquanto as parcerias com OCB, SEBRAE, SENAR, ABDI, GIZ, EMBRAPA, UFAC e instituições financeiras fortalecem a capacidade de expansão e de inovação.

Os resultados alcançados — com crescimento exponencial da produção, fortalecimento da confiança interna e consolidação de parcerias estratégicas — demonstram que o cooperativismo pode ser, simultaneamente, instrumento econômico e agente de transformação social. A formalização das vendas, a inclusão de jovens e mulheres, o uso de energia limpa e a adoção de práticas agroflorestais confirmam que a Coopercafé está alinhada à agenda contemporânea da bioeconomia e da sustentabilidade amazônica.

Ainda persistem desafios, sobretudo no acesso ao crédito, na regularização ambiental de parte dos cooperados e na infraestrutura de transporte rural. Contudo, a superação dessas barreiras dependerá menos de assistência externa e mais da continuidade do modelo de autogestão responsável que tem orientado a cooperativa.

A experiência da Coopercafé revela que o futuro do cooperativismo no Acre — e, em sentido mais amplo, na Amazônia — passa pela combinação entre autonomia local, integração em rede e inovação institucional. O caso do Juruá demonstra que é possível transformar uma atividade emergente, como a cafeicultura, em vetor de desenvolvimento sustentável, reafirmando o papel das cooperativas como pilares de uma economia florestal moderna, inclusiva e de longo prazo.

Em síntese, a Coopercafé não é apenas um empreendimento produtivo: é um projeto de futuro. Um futuro que brota da floresta, floresce no trabalho coletivo e se consolida na esperança de um Acre mais próspero, sustentável e cooperativo.

Bibliografia:

  1. LIMA, Jonas. Entrevista concedida a Orlando Sabino. Rio Branco, 15 abril 2025.
  2. COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPAEB. Boletim Legal, Rio Branco, Acre. Disponível em: https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-da-coopaeb/. Acesso em: 21 ago. 2025.
  3. COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPASFE. Boletim Legal, Rio Branco, Acre. Disponível em: https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-da-coopasf/. Acesso em: 25 set. 2025.
  4. COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPERXAPURI. Boletim Legal, Rio Branco, Acre. Disponível em:https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-da-cooperxapuri/. Acesso em: 15 out. 2025.