Ivan Henrique de Mattos e Silva
Introdução
Este boletim é o quinto da série centrada na discussão do sistema cooperativista, e o primeiro a empreender uma análise da composição atual do Sistema OCB. Os boletins anteriores tiveram como foco a realização de análises envolvendo desde a evolução do conceito de cooperativismo, situando-o política e ideologicamente, bem como o exame da trajetória do nacional-desenvolvimentismo no Brasil e sua relação com o surgimento do Sistema OCB. Neste boletim o foco recai em torno de um diagnóstico fotográfico dos principais setores representados nas presidências estaduais e nacional do Sistema OCB, a partir do ramo de atuação de seus dirigentes. Tal como diagnosticado nos boletins anteriores, há uma sobre representação do setor agropecuário, o que pode indicar a permanência da hegemonia do capital agrário na estruturação do sistema cooperativista brasileiro contemporâneo.
Uma fotografia do Sistema OCB
O Sistema OCB é formado por três instituições com características distintas: a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) e a Confederação Nacional das Cooperativas (CNCoop). A OCB desempenha um papel central na representação e na defesa dos interesses do cooperativismo nacional, estando presente nos estados e no Distrito Federal. Neste boletim nos concentramos na OCB – uma das instituições que compõem o Sistema –observando os ramos nos quais os presidentes estão vinculados.
Para isso foi realizado um levantamento no âmbito das 27 presidências estaduais e da presidência nacional, com o intuito de identificar elementos que revelassem tanto a estrutura atual do cooperativismo brasileiro quanto desafios relacionados à diversificação representativa. Este levantamento baseia-se nas informações relacionadas ao nome e ramo de atuação dos dirigentes, permitindo analisar aspectos como predominância setorial, distribuição regional e representatividade de gênero.
São sete os ramos do cooperativismo: 1) Agropecuário; 2) Crédito; 3) Consumo; 4) Infraestrutura; 5) Saúde; 6) Trabalho e Produção de Bens e Serviços; 7) Transporte. A análise geral dos ramos de atuação evidencia uma clara predominância do setor agropecuário. Entre os 28 dirigentes (27 estaduais e 1 nacional), 13 têm atuação primária o ramo Agropecuário. Em seguida, destaca-se o ramo Crédito, com 8 presidentes. O ramo Saúde aparece na sequência, sendo representado por 4 presidentes estaduais. Já os ramos Consumo; Trabalho e Produção de Bens e Serviços; e Transporte aparecem de forma mais restrita, com 1 representante cada. Nenhum dos atuais presidentes da OCB é vinculado ao ramo Infraestrutura (Tabela 1).
Tabela 1 – Distribuição das presidências do Sistema OCB por ramo de atuação
| Ramo | Nº de presidentes |
|---|---|
| Agropecuária | 13 |
| Crédito | 8 |
| Saúde | 4 |
| Consumo | 1 |
| Infraestrutura | 0 |
| Trabalho e Produção de Bens e Serviços | 1 |
| Transporte | 1 |
Fonte: elaboração própria.
E há, aqui, um elemento adicional: parte significativa dos presidentes estaduais vinculados ao ramo do crédito dedicam-se, fundamentalmente, ao crédito rural, com vínculos bastante estreitos com a atividade produtiva rural.
Essa predominância da agropecuária não é surpreendente e evidencia a trajetória do cooperativismo brasileiro, que se estruturou historicamente em torno da produção rural, da comercialização agrícola e das cadeias produtivas ligadas ao agronegócio. Já o crescimento do ramo de crédito evidencia a importância das cooperativas financeiras como instrumento de viabilização e expansão dos demais ramos, especialmente em áreas rurais e cidades médias.
Quando observadas as distintas regiões brasileiras, é possível identificar características próprias e padrões específicos de liderança:
- Região Norte: a região apresenta dois perfis – a predominância da Agropecuária (Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins), ligada, assim, à produção rural; e, por outro lado, ainda que em menor proporção, a presença do Crédito como atividade de origem de duas lideranças estaduais (Acre e Pará), envolvendo dois dos sete ramos existentes no cooperativismo brasileiro.
- Região Nordeste: composta por nove estados, a região exibe maior diversidade de ramos das lideranças da Organização. Representado o ramo Agropecuário estão os presidentes do Piauí, Ceará e Pernambuco, enquanto o Crédito se destaca no Maranhão, Bahia e Sergipe. O ramo Saúde tem representatividade na Paraíba e em Alagoas, e o ramo Trabalho e Produção de Bens e Serviços é encontrado no Rio Grande do Norte. Essa dispersão reflete uma maior diversidade econômica e a amplitude do cooperativismo nordestino quando considerados os ramos de atuação dos presidentes das OCBs.
- Região Centro-Oeste: apesar da forte presença econômica da produção agropecuária, a região apresenta predominância do ramo Crédito na composição das lideranças estaduais do cooperativismo (Goiás e Mato Grosso do Sul), além da Saúde (Mato Grosso) e Consumo (Distrito Federal).
- Região Sudeste: tal como no cooperativismo nordestino, a região Sudeste apresenta uma composição heterogênea. Em São Paulo, a liderança é vinculada ao ramo Agropecuário; em Minas Gerais, ao ramo Crédito; no Espírito Santo a Saúde é o setor representado; e no Rio de Janeiro o presidente atua no ramo Transporte. Esse quadro sugere que o Sudeste abriga um cooperativismo diversificado, fortemente alinhado à diversidade econômica regional.
- Região Sul: Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina apresentam um padrão uniforme: todos os presidentes estaduais atuam no ramo Agropecuário. Isso reflete a força política e econômica das cooperativas agrícolas na região, que lideram cadeias produtivas como leite, grãos, carnes e hortifrutigranjeiros.
Quadro 1 – Perfil das presidências do Sistema OCB
| Estado | Ramo | Gênero | Região |
| Nacional | Agropecuário | Masculino | Nacional |
| AC | Crédito | Masculino | Norte |
| AP | Agropecuário | Feminino | |
| AM | Agropecuário | Masculino | |
| PA | Crédito | Masculino | |
| RO | Agropecuário | Masculino | |
| RR | Agropecuário | Masculino | |
| TO | Agropecuário | Masculino | |
| MA | Crédito | Feminino | Nordeste |
| PI | Agropecuário | Masculino | |
| CE | Agropecuário | Masculino | |
| PB | Saúde | Masculino | |
| BA | Crédito | Masculino | |
| RN | Trabalho e Produção de Bens e Serviços | Masculino | |
| PE | Agropecuário | Masculino | |
| SE | Crédito | Masculino | |
| AL | Saúde | Feminino | |
| SP | Agropecuário | Masculino | Sudeste |
| MG | Crédito | Masculino | |
| RJ | Transporte | Masculino | |
| ES | Saúde | Masculino | |
| GO | Crédito | Masculino | Centro-Oeste |
| MT | Saúde | Masculino | |
| MS | Crédito | Masculino | |
| DF | Consumo | Masculino | |
| RS | Agropecuário | Masculino | Sul |
| PR | Agropecuário | Masculino | |
| SC | Agropecuário | Masculino |
Fonte: elaboração própria.
Entre os 28 dirigentes, 25 são homens e 3 são mulheres, o que representa cerca de 10,7% de participação feminina. As presidentas estão nos estados do Amapá, Maranhão e Alagoas – todas nas regiões Norte e Nordeste. Não há mulheres na presidência das unidades estaduais do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O cargo nacional também é ocupado por um homem. Essa baixa representatividade feminina reforça um desafio histórico do cooperativismo brasileiro: ampliar o acesso de mulheres aos espaços de decisão, mesmo em setores nos quais a participação feminina na base associada seja significativa, como na saúde, na economia solidária e na agricultura familiar.
- Vocação primário-exportadora e hegemonia do agronegócio
A partir da década de 1990 o agronegócio passou a exercer um papel importante na configuração da Organização das Cooperativas Brasileiras, influenciando sua estrutura e funcionamento. A profissionalização do cooperativismo esteve alinhada à lógica da agroindústria, que consolidava sua posição como eixo estruturante da produção agrícola nacional. As grandes cooperativas agroindustriais concentraram o controle das decisões estratégicas no âmbito do sistema, fundamentando sua atuação em argumentos relacionados à eficiência produtiva, logística e capacidade de armazenamento, o que justificou a centralização do poder e a predominância dos interesses do agronegócio (Bruno, 2016).
Assim, o peso do agronegócio na estruturação do Sistema OCB desde os anos 1990 consolidou um modelo cooperativista orientado pela agroindústria e pelas grandes cadeias produtivas. Tal cenário destaca o agronegócio como um motor fundamental do desenvolvimento rural brasileiro, ao mesmo tempo em que expõe os desafios para a democratização e pluralidade de representação nos espaços decisórios dentro do setor cooperativista.
Compreender a hegemonia do setor agropecuário dentro do sistema cooperativista brasileiro passa, também, pela compreensão do papel histórico da economia agrária na estruturação do modelo de desenvolvimento construído no Brasil desde a sua independência. Em face de sua condição colonial, a economia brasileira se configurou enquanto um processo estratégico no sistema de produção e circulação internacional do capital, servindo como fornecedora de matérias-primas e produtos primários às economias capitalistas centrais, explorados em regime de monocultura e latifúndio. Do ponto de vista teórico e ideológico, essa vocação primário-exportadora esteve fortemente apoiada na Teoria das Vantagens Comparativas, formulada por David Ricardo, segundo a qual, para que um país alcance a utilização ótima de seus fatores de produção, este deverá produzir de preferência aquelas mercadorias cuja elaboração requer de forma mais intensa fatores que são mais abundantes.
Mesmo com a adoção de uma orientação neodesenvolvimentista pelos governos petistas – caracterizada pelo reforço do papel do Estado na indução do desenvolvimento, por meio de maior planejamento setorial e expansão do crédito público (Cepêda, Marques, 2010) —, a política agrária manteve importantes elementos de continuidade. Entre eles, destaca-se a permanência do agronegócio como eixo estratégico do modelo de desenvolvimento brasileiro, reafirmando sua centralidade na economia nacional (Delgado, 2012).
Considerações finais
O perfil atual das lideranças do Sistema OCB reflete tanto a história quanto os desafios contemporâneos do cooperativismo brasileiro. A predominância do ramo Agropecuário demonstra a solidez e a relevância econômica e política desse setor, mas também sugere a necessidade de ampliação da representatividade de outros ramos, acompanhando a diversificação econômica do país.
A expansão do Crédito como ramo estratégico na composição do cooperativismo brasileiro reforça seu papel como alavanca para o desenvolvimento cooperativo. Ao mesmo tempo, a baixa representatividade feminina e a concentração geográfica das poucas presidentas revelam que a inclusão de gênero ainda é um desafio.
Referências
BRUNO, Regina. Desigualdade, agronegócio, agricultura familiar no Brasil. Estudos Sociedade e Agricultura, v. 24, n. 1, p. 142-160, 2016.
CEPÊDA, Vera Alves; MARQUES, Antonio Carlos. Conhecimento enquanto fator de desenvolvimento – mudanças do Ensino Superior Brasileiro entre o Mercado e a cidadania. Caxambu: 34º Encontro Anual da Anpocs, 2010.
DELGADO, Guilherme Costa. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio: mudanças cíclicas em meio século (1965-2012). Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2012.