Francisco Afonso Nepomuceno, Orlando Sabino da Costa Filho
Os historiadores do futuro terão um farto material proveniente dos acontecimentos que podem servir de marcadores para caracterizar o século XXI: o período da mudança climática derivado do esgotamento do modelo de produção capitalista, crédulo na infinitude dos recursos naturais; conectado a esse fenômeno a pandemia da Covid 19 alertou a comunidade científica de que a humanidade poderá ser visitada por outros vírus provenientes da mudança brusca nos ecossistemas; o avanço da engenharia genética; das comunicações e informações do mundo digital; a crise da democracia liberal e o avanço do autoritarismo em suas mais variadas formas, inclusive o retorno de teocracias. Os recortes são inúmeros e ainda estamos no primeiro quarto do século. Todos esses fenômenos e outros, para serem diagnosticados e analisados adequadamente requerem pesquisas e dados, sem os quais as análises não passarão de exercícios diletantes.
Nesse sentido a pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre as Unidades de Conservação é fundamental para que pesquisadores, analistas e governo possam inferir com precisão as condições das unidades, no caso em tela, a Reserva Extrativista Chico Mendes. O IBGE lançou no último dia 11/7, com a apresentação dos resultados ocorrida no Anfiteatro Garibaldi Brasil, no campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco (AC). Os resultados do Censo Demográfico 2022: Unidades de Conservação – Principais características das pessoas residentes e dos domicílios, por recortes territoriais e grupos populacionais específicos. – Resultados do universo. O estudo trouxe as principais características dos moradores e domicílios dessas localidades, incluindo indígenas e quilombolas. O objetivo do presente boletim é trazer os dados gerais resultante do estudo das Unidades de Conservação do Acre com destaque para a Reserva Extrativista Chico Mendes.
As Unidades de Conservação no Acre
Um dos legados da luta dos seringueiros foi a influência exercida no debate sobre o meio ambiente no Acre e as conquistas subsequentes na criação de várias Unidades de Conservação (UC) no território acreano. O Acre tem cerca de 16 milhões de hectares, um pouco mais da metade 51% do seu território é constituído de alguma modalidade de Unidade de Conservação, de proteção integral ou de uso sustentável (Parques, Reserva Extrativista, Reserva indígena, APA, Projeto de Assentamento Extrativista – PAE). A passagem do Partido dos Trabalhadores pelo governo do Acre e do Brasil no mesmo momento foi muito importante para esses avanços. O slogan “Governo da floresta” utilizado durante o mandato do governo do engenheiro florestal, Jorge Viana traduz o vínculo com o legado de Chico Mende e com a causa do movimento dos seringueiros.
Para uma população total de 830 mil pessoas, 34,4 mil moravam em Unidades de Conservação – UC’s, correspondendo a 4,14% da população acreana. Desses moradores das Unidades, 6,7 mil moravam na zona urbana e 27,7 mil na zona rural.
O Acre possui 15 UC’s distribuídos pelo seu território. Na tabela abaixo contém a quantidade de moradores em cada uma das UC’s, destacando a situação de domicílio em cada uma delas. Na tabela a seguir constam os dados das pessoas por situação do domicílio das 15 UC’s do Acre.
ACRE: Total de pessoas residentes em Unidades de Conservação (Pessoas) por situação do domicílio – 2022 |
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| Acre | Urbana (19,3%) Rural (80,7%) | 34 394 |
| Estação Ecológica Rio Acre | Sem Morador | 0 |
| Parque Nacional da Serra do Divisor | Somente Rural | 1 944 |
| Floresta Nacional de Macauã | Somente Rural | 43 |
| Parque Estadual Chandless | Somente Rural | 69 |
| Reserva Extrativista Alto Juruá | Somente Rural | 7 245 |
| Reserva Extrativista Alto Tarauacá | Somente Rural | 1 098 |
| Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema | Somente Rural | 1 413 |
| Reserva Extrativista Chico Mendes | Somente Rural | 10 210 |
| Floresta Nacional de Santa Rosa do Purus | Somente Rural | 242 |
| Floresta Nacional de São Francisco | Somente Rural | 26 |
| Área de Relevante Interesse Ecológica Seringal Nova Esperança | Somente Rural | 182 |
| Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade | Somente Rural | 2 148 |
| Área de Relevante Interesse Ecológico Japiim Pentecoste | Somente Rural | 260 |
| Área de Proteção Ambiental Igarapé São Francisco | Urbana (66,4%) Rural (33,6%) | 7 112 |
| Área de Proteção Ambiental Lago do Amapá | Urbana (80,3%) Rural (19,7%) | 2 402 |
| Fonte: IBGE – Censo Demográfico – 2022 | ||
Os municípios acreanos com maiores proporções de moradores morando em UC’s, pela ordem são: Marechal Thaumaturgo (43,74%), Xapuri (20,79%), Brasiléia (10,78%), Jordão (9,66%) e Epitaciolândia (9,44%).
Os município com as menores proporções de população morando em UC’s, pela ordem são: Feijó (0,55%), Manoel Urbano (0,56%), Bujari (0,62%), Santa Rosa (0,71%) e Capixaba (1,12%).
Os municípios de Acrelândia, Plácido de Castro e Porto Acre não possuíam nenhum morador em UC’s.
Os números do Censo de 2022 da Resex Chico Mendes: símbolo da resistência seringueira e marco do extrativismo sustentável no Acre
A Reserva Extrativista Chico Mendes foi oficialmente criada em 12 de março de 1990, por meio do Decreto nº 99.144. A unidade foi instituída como uma área de uso sustentável destinada às comunidades tradicionais de extrativistas, inspirada na luta de Chico Mendes e pioneira nesse modelo no Brasil. A consagração em Lei da RESEX Chico Mendes foi precedida de muita resistência por parte do movimento dos seringueiros. Diferente dos que optaram em renunciar à luta e foram para os seringais da Bolívia e da maioria que foi habitar a periferia de Rio Branco, Chico Mendes liderou aqueles que decidiram permanecer e enfrentar jagunços e policiais para manter suas colocações e seu estilo de vida. A mobilização da categoria ante a necessidade da coesão para enfrentar os fazendeiros e seus representantes, proporcionou a organização sindical, partidária e legou uma enorme politização da categoria.
A criação das reservas extrativistas representa, antes de tudo, uma vitória na luta pela terra. A intensa corrida por terras no Acre, na década de 1970, motivou uma resistência organizada por parte dos seringueiros, tendo em Chico Mendes seu maior líder. Assim, as reservas são fruto do movimento sindical rural, surgido no contexto da luta pela reforma agrária e em diálogo com o movimento ambientalista. Tiveram papel destacado no processo de organização do movimento dos seringueiros, a Teologia da Libertação ligada ao clero católico, a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (CONTAG) e o Partido dos Trabalhadores (PT). Vale dizer que a interlocução com intelectuais e ativistas ambientais foi muito importante para o movimento dos seringueiros incorporar a pauta ambiental como constitutiva de sua luta.
Conforme relatório do Conselho Nacional dos Seringueiros, de 1992, a Resex Chico Mendes contava com 1.428 famílias, distribuídas em uma área de 970.570 hectares, com 1.142 colocações. A reserva representava cerca de 6% do território acreano, abrangendo os municípios de Rio Branco, Capixaba, Xapuri, Epitaciolândia, Brasiléia, Assis Brasil e Sena Madureira.
Panorama dos Moradores da Resex Chico Mendes em 2022
Em 2022, a Reserva Extrativista Chico Mendes abrigava um total de 10.210 moradores, dos quais 5.618 eram homens e 4.592 mulheres, evidenciando uma ligeira predominância da população masculina (cerca de 55% do total).
A faixa etária com maior número de residentes foi a de 20 a 59 anos, com 5.220 pessoas, representando aproximadamente 51% da população total. Essa faixa concentra a maior parte da força de trabalho ativa na reserva, refletindo a importância da mão de obra adulta nas atividades extrativistas e agrícolas locais. Nota-se uma transição geracional no âmbito da RESEX Chico Mendes. A geração da resistência vem sendo substituída gradativamente por seus filhos e netos. Soma-se a esse fenômeno natural o ingresso de famílias no território oriundas de outros lugares, grande parte do vizinho Estado de Rondônia. O compromisso com a causa que embalou o sonho da geração que lutou e conquistou a Reserva, tem se esvaído. A pouca participação nas assembleias do Sindicato e do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) atesta a despolitização crescente.
Já o grupo de 0 a 19 anos contabilizou 4.285 moradores (cerca de 42% da população), o que revela uma população jovem significativa e indica a necessidade de políticas públicas voltadas à educação, saúde e formação profissional. A nova geração precisa ser informada e formada através das histórias que resultaram na conquista da Reserva. Nesse sentido, os pater da Reserva que ainda residem no território ainda têm muito o que fazer. O diálogo aberto com a nova geração será determinante para que o sentimento de pertencimento não necessariamente a um território, mas a um modo de vida dele derivado, seja mantido. Por fim, a população com mais de 59 anos somou 705 pessoas, sendo a menor entre os três grupos etários, o que pode refletir tanto as condições de vida na floresta quanto o êxodo de idosos para áreas urbanas com maior acesso a serviços de saúde especializados.
Conforme pode ser constatado no gráfico abaixo, esse perfil populacional destaca o papel estratégico da juventude e da população em idade produtiva na continuidade dos modos de vida tradicionais e na sustentabilidade socioambiental da reserva. A Reserva tem se transformado cada vez mais num território em disputa. Durante o governo de Jair Bolsonaro por exemplo, o desmatamento cresceu e com ele a atividade pecuária para além do que preceitua o regramento da unidade. Por conta disso é que a juventude adquire um papel estratégico para manter vivia a ideia da sustentabilidade como garantia da qualidade de vida sem degradação ambiental.
Fonte: IBGE – Censo Demográfico – 2022
Jovens alfabetizados, idosos em desvantagem: O desafio educacional da Resex
A taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais de idade na Reserva Extrativista Chico Mendes, em 2022, alcançou 80,02%, com uma leve vantagem das mulheres (82,01%) em relação aos homens (78,49%). Destacar a importância da educação aplicada, com vistas a contribuir com a permanência da população na RESEX.
O grupo com maior nível de alfabetização foi o dos jovens de 15 a 19 anos, com taxa média de 96,19%, refletindo avanços no acesso à educação nas gerações mais recentes. Nesse grupo, as mulheres apresentaram um índice de 97,42%, superando os 95,21% dos homens. Destacar que a formação educacional deve envolver a compreensão da importância estratégica da RESEX, para seus moradores e para a humanidade.
Na faixa etária de 20 a 64 anos, que corresponde à maior parte da população economicamente ativa, a taxa de alfabetização foi de 77,63%, também com leve predominância feminina (78,69%) sobre os homens (76,82%).
O menor índice foi registrado entre os moradores com mais de 64 anos, com uma taxa de apenas 33,68%, evidenciando as dificuldades históricas de acesso à educação enfrentadas pelas gerações mais antigas da região.
Esses dados revelam importantes conquistas educacionais, especialmente entre os jovens, mas também apontam a necessidade de políticas públicas voltadas à alfabetização de adultos e idosos na reserva, reforçando o papel da educação como instrumento de inclusão social e cidadania. Um outro aspecto importante a ser destacado diz respeito à educação voltada para fortalecer a história da Reserva além de desenvolver competências e habilidades capaz de contribuir com a permanência no território daqueles jovens que queiram continuar residindo na unidade. Morar na Reserva deve constituir uma das opções para os jovens e a educação é determinante para a criação desse cenário.
Registro de Nascimento de Crianças na Resex Chico Mendes: Avanços e Desafios
O Censo Demográfico do IBGE de 2022 identificou 1.256 crianças de até 5 anos de idade residindo na Reserva Extrativista Chico Mendes (AC). Destas, a ampla maioria (aproximadamente 98,4%) possuía algum tipo de registro de nascimento, o que representa um avanço importante no reconhecimento de direitos básicos e na inclusão cidadã da população infantil da floresta. Isso demonstra a presença do Estado com outros órgãos que não só a polícia como faziam na época da resistência.
Entre os registros, o registro em cartório foi predominante, refletindo o alcance da política de registro civil mesmo em áreas remotas. Uma pequena parcela das crianças (menos de 1%) foi registrada por meio do Registro Administrativo de Nascimento Indígena (RANI), indicando a presença de povos indígenas em algumas regiões da reserva.
Apesar dos avanços, o levantamento aponta que ainda existem crianças sem qualquer tipo de registro (0,4%) ou cujos responsáveis não souberam informar a situação do registro (também 0,4%). Essas situações merecem atenção especial, uma vez que o registro civil é porta de entrada para o acesso à cidadania, à educação, à saúde e a outros direitos sociais.
O padrão de distribuição entre meninos e meninas é equilibrado, com 633 meninos e 623 meninas, confirmando uma estrutura populacional jovem e relativamente homogênea. A existência de registros em diferentes faixas etárias — inclusive entre bebês com menos de um mês de vida — reforça o papel das ações de assistência social e saúde básica em promover o registro precoce.
Composição Familiar e Perfil Etário dos Responsáveis por Domicílios na Resex Chico Mendes em 2022
Em 2022, a Reserva Extrativista Chico Mendes (AC) registrava 2.945 domicílios particulares permanentes ocupados, segundo dados do Censo Demográfico. A grande maioria dos domicílios tinha como responsáveis pessoas do sexo masculino (77,8%), evidenciando ainda forte predominância de homens na liderança familiar nas comunidades extrativistas.
A faixa etária mais representativa entre os responsáveis pelos domicílios foi a de 40 a 59 anos, com 1.111 domicílios (37,7% do total). Em seguida aparecem os grupos de 25 a 39 anos, com 1.067 domicílios (36,2%), e 60 anos ou mais, com 448 domicílios (15,2%). Isso revela uma concentração de responsáveis em idade produtiva, com um envelhecimento progressivo entre os moradores.
Os dados também mostram a estrutura familiar média nos lares: Apenas 11,1% dos domicílios são unipessoais (1 morador); A maior parte tem de 3 a 5 moradores, refletindo o modelo familiar ampliado típico das comunidades tradicionais (3 moradores: 755 domicílios, 4 moradores: 560 domicílios e 5 moradores: 365 domicílios).
Domicílios com 6 ou mais moradores ainda são significativos (338 registros), o que pode representar tanto o acolhimento intergeracional quanto a limitação de moradias disponíveis para famílias extensas. Um outro fator revelado por esses números é a diminuição do número de filhos por famílias quando comparado com a tradição nos antigos seringais. As famílias costumavam ter mais de 5 filhos com naturalidade. Nota-se o acesso a educação e o conhecimento de métodos contraceptivos e o contato, facilitado pela infraestrutura, com a cidade.
Em termos etários, destaca-se que: apenas 25 domicílios têm como responsável uma pessoa com menos de 18 anos, indicando baixa ocorrência de chefia juvenil. Já entre os idosos (60+), são 448 domicílios — um número considerável que alerta para a importância de políticas públicas voltadas à população idosa nas áreas protegidas. Trata-se da geração que resistiu e conquistou a Reserva ao lado de Chico Mendes, a memória instalada nesse segmento representa um grande acúmulo de saberes que não pode ser desperdiçado. Um ativo a ser cuidado pela saúde pública de um lado e aproveitado pela educação de outro.
Por fim, é relevante notar que não foram registrados domicílios improvisados (como barracos ou moradias informais), o que pode indicar um certo grau de estabilidade na ocupação residencial dentro da Unidade de Conservação, como veremos em seguida, das carências estruturais apontadas em outras variáveis (como saneamento e abastecimento de água). Isso indica uma melhoria relativa na qualidade de vida dos moradores quando comparada com as condições de moradia precárias nos antigos seringais.
Composição Familiar por Sexo e Idade do Responsável na Resex Chico Mendes: Média de Moradores por Domicílio em 2022
Na Reserva Extrativista Chico Mendes, em 2022, a média geral de moradores por domicílio foi de 3,47 pessoas. Esse valor representa o perfil tradicional de domicílios compostos por famílias numerosas, muito comuns em áreas rurais e comunidades extrativistas.
Ao analisar por sexo da pessoa responsável, nota-se que, as mulheres responsáveis por domicílios apresentaram média ligeiramente superior: 3,63 moradores, contra 3,42 nos domicílios com responsáveis homens. Essa diferença pode estar associada à presença de filhos ou familiares sob responsabilidade feminina, especialmente em situações de arranjos familiares extensos ou monoparentais.
Considerando os grupos de idade dos responsáveis, os dados mostram que, as maiores médias estão nas faixas de 25 a 39 anos (3,68) e 40 a 59 anos (3,72), o que é coerente com as fases da vida em que as famílias estão em maior expansão, com filhos ainda residindo no domicílio. A média cai para 2,88 entre os responsáveis com 60 anos ou mais, indicando a saída dos filhos da casa dos pais ou maior presença de casais idosos. Entre os responsáveis com até 17 anos, a média é a menor: 2 moradores, o que pode indicar casos excepcionais de chefia juvenil, geralmente envolvendo núcleos familiares pequenos.
Quando o recorte combina sexo e idade, nota-se que, as mulheres entre 25 e 39 anos têm a maior média registrada: 4,08 moradores por domicílio, seguidas pelas de 40 a 59 anos (3,9), evidenciando o papel central da mulher em lares com muitos dependentes. Entre os homens, a média mais alta também ocorre nas faixas adultas, com 3,68 moradores tanto entre os de 40 a 59 anos quanto os de 25 a 39 anos. A média de moradores nas residências chefiadas por homens de até 17 anos é a menor registrada: apenas 1,79, refletindo o caráter atípico dessa condição. Mesmo com o envolvimento cada vez maior da mulher na atividade política – como foram os casos de Dercy Teles que presidiu o STR de Xapuri por dois mandatos e de Leide Aquino que foi Assessora Especial do Governador Binho Marques na pasta da Mulher – a pesquisa revela a clara presença da cultura patriarcal nos lares da Reserva, na clássica situação em que o cuidado fica sob a responsabilidade da mulher, enquanto o provimento é fruto do trabalho masculino.
Condições de Saneamento e Abastecimento de Água nos Domicílios da Resex Chico Mendes – 2022
A Reserva Extrativista Chico Mendes contabilizou, portanto, 2.945 domicílios particulares permanentes ocupados em 2022. A análise dos dados do IBGE evidencia desafios significativos relacionados ao saneamento básico, abastecimento de água e destino do lixo nos domicílios da unidade.
Quanto ao abastecimento de água, a maior parte das residências (1.521) utiliza rede geral, poço ou nascente encanada até o domicílio, representando 51,6% do total. Contudo, um número elevado de domicílios (1.424) ainda depende de formas alternativas de abastecimento, o que pode indicar limitações no acesso à infraestrutura hídrica segura e contínua.
Já o esgotamento sanitário, a situação revela carências importantes. Apenas 150 domicílios (5,1%) são atendidos por rede geral, pluvial, fossa séptica ou filtro. Em contraste, 2.795 domicílios (94,9%) utilizam fossas rudimentares, buracos, valas, rios, ou sequer possuem instalações sanitárias adequadas — um dado preocupante do ponto de vista da saúde pública e ambiental.
O manejo Destino do Lixo (resíduos sólidos), também mostra forte dependência de práticas informais. Apenas 41 domicílios (1,4%) têm o lixo coletado por serviço público ou depositado em caçambas oficiais. A imensa maioria, 2.904 domicílios (98,6%), recorre a métodos como queima, enterramento ou descarte em áreas públicas, o que pode gerar sérios impactos ambientais e riscos à saúde da população local. Nesse tópico da pesquisa existem dois fatores a serem enfrentados: o primeiro é a cobrança do governo para cumprir seu papel no que diz respeito a saúde pública e o outro é a mudança de hábito da comunidade. Na primeira vista o dado em si, causa perplexidade, no entanto, parece natural para os que moram na floresta achar normal as condições descritas, principalmente os mais velhos.
Esses dados reforçam a urgência de políticas públicas integradas para universalizar o acesso a saneamento básico e serviços essenciais na Resex Chico Mendes, considerando as especificidades socioterritoriais da população extrativista. A melhoria dessas condições é fundamental para garantir dignidade, saúde e sustentabilidade para as comunidades tradicionais que vivem e protegem a floresta. A educação cumprirá um papel destacado nessa mudança de hábito.
Infraestrutura Sanitária nos Domicílios da Resex Chico Mendes: Avanços e Carências em 2022
Na análise da existência de banheiro ou sanitário revela um quadro de contrastes entre avanços e deficiências na infraestrutura sanitária da população residente. Dos domicílios recenseados; 1.270 (43,1%) possuíam banheiro de uso exclusivo, destes, 1.211 tinham apenas um banheiro, 52 tinham dois banheiros e apenas 7 domicílios dispunham de três ou mais banheiros.
No entanto, o cenário é preocupante para uma parcela significativa da população, pois, 963 domicílios (32,7%) não possuíam banheiro nem sanitário — o que representa uma condição crítica de insalubridade. Além do mais 477 domicílios (16,2%) dispunham apenas de sanitário ou buraco para dejeções, inclusive os instalados no terreno e 235 domicílios (8,0%) utilizavam banheiro de uso comum a mais de um domicílio, o que pode indicar precariedade habitacional.
Esses dados evidenciam a urgência de ações estruturantes de saneamento básico na Resex Chico Mendes. A ausência de banheiro em quase um terço dos domicílios reforça o desafio de garantir condições mínimas de dignidade, saúde e qualidade de vida para as comunidades extrativistas que desempenham papel essencial na preservação ambiental da região.
Perfil dos Óbitos em Domicílios na Reserva Chico Mendes (AC): Grupos Etários e Distribuição por Sexo (2019–2022)
Entre agosto de 2019 e julho de 2022, foram registrados 76 óbitos de pessoas que haviam residido em domicílios permanentes localizados na Reserva Extrativista Chico Mendes, no estado do Acre. Desses falecimentos, 67% eram homens (51) e 33% mulheres (25), indicando uma prevalência masculina nos registros de morte. As faixas etárias com maior número de ocorrências foram: 60 a 64 anos e 70 a 74 anos: 8 e 9 óbitos, respectivamente; 65 a 69 anos: 6 óbitos. Também chama atenção o número de falecimentos entre crianças de 0 a 4 anos: 6 casos.
Na distribuição temporal, os óbitos estão distribuídos da seguinte forma ao longo dos períodos: de Janeiro a julho de 2022: 15 mortes, maior concentração no recorte analisado. De Agosto a dezembro de 2021 e janeiro a julho de 2021: 14 e 12 óbitos, respectivamente. No ano pandêmico (2020), de janeiro a julho de 2020: 14 falecimentos; de agosto a dezembro de 2020: 7 falecimentos. Esses números sugerem impacto da COVID-19 no número de mortes, especialmente entre adultos e idosos.
No que concerne aos dados sobre mortalidade infantil, houve 4 óbitos de bebês com menos de 1 ano de idade, e outros 2 entre 1 e 4 anos, sugerindo desafios no acesso à saúde infantil em áreas remotas da unidade de conservação. Também foram registrados óbitos em idades extremas: 2 mortes acima dos 90 anos e 1 centenário (100 anos ou mais).
A ausência de registros no grupo de 5 a 9 anos e a concentração de óbitos em idades produtivas (25 a 64 anos) reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção de doenças crônicas, melhoria do saneamento e acesso à saúde nessas comunidades tradicionais.
Os dados do Censo Demográfico 2022 revelam avanços e persistentes desigualdades nas condições de vida das populações tradicionais da Reserva Extrativista Chico Mendes (AC), a maior e mais simbólica unidade de conservação do Acre. Com mais de 10 mil moradores, a Resex representa não apenas um modelo de convivência entre sociedade e floresta, mas também um território com demandas sociais urgentes.
Em síntese, o retrato demográfico da Resex Chico Mendes mostra um território resiliente, com avanços importantes em áreas como alfabetização juvenil e registro civil, mas ainda marcado por graves déficits em infraestrutura básica, saneamento e inclusão de populações idosas e vulneráveis. A continuidade da proteção ambiental da floresta passa, inevitavelmente, dentre outras coisas, pelo fortalecimento das condições de vida de seus guardiões.
Referências
COSTAFILHO, Orlando. Reserva Extrativista: Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de vida. Dissertação de mestrado – CEDEPLAR -UFMG – 1995
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Censo Demográfico. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. – Unidades de Conservação – Principais características das pessoas residentes e dos domicílios, por recortes territoriais e grupos populacionais específicos. – Resultados do universo.