Orlando Sabino da Costa Filho
A criação das Reservas Extrativistas no Brasil, entre elas a Resex Chico Mendes no Acre (1990), representou a vitória da luta dos seringueiros pela terra, vinculada ao movimento sindical e à defesa da floresta. Conforme (COSTA FILHO, 2025), esse modelo se baseia no desenvolvimento sustentável, articulando conservação ambiental, justiça social e geração de renda. Desde sua origem, o cooperativismo foi um instrumento central nesse processo, possibilitando a organização produtiva e a diversificação de atividades, com destaque para a criação de cooperativas como a CAEX e a CAPEB, que estruturaram núcleos de compra de borracha e castanha, além de contar com apoio técnico e financiamento de organizações nacionais e internacionais. Apesar do impacto positivo, essas experiências iniciais se dissolveram no início dos anos 2000, revelando os desafios de manter a autogestão no longo prazo.
Nesse contexto, surge a Cooperacre (2001), uma central que reúne hoje mais de 35 cooperativas e associações em todo o Acre, com mais de 2.500 famílias envolvidas. A Cooperacre consolidou-se como a maior produtora e exportadora de castanha beneficiada do país e expandiu sua atuação para borracha, polpas de frutas, pupunha e café, firmando parcerias com multinacionais como a VEJA e instituições governamentais e financeiras. O novo ciclo do cooperativismo agroextrativista no Acre é marcado pela busca de mercados diferenciados, certificações socioambientais e investimentos em infraestrutura, como galpões e indústrias. Pesquisas recentes, baseadas em entrevistas com lideranças de cooperativas da Resex Chico Mendes (COOPAEB, COOPASFE e COOPERXAPURI), mostram que esse modelo representa não apenas uma alternativa econômica, mas também uma forma de resistência cultural e política frente às pressões por exploração predatória da Amazônia.
Este boletim é uma continuação contida no boletim O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPAEB que visa demonstrar uma nova dinâmica do Cooperativismo na Resex Chico Mendes. Nesse boletim, a proposta é destacar a Cooperativa dos Produtores Agroextrativista Santa Fé – COOPASFE, tendo como base em entrevista semiestruturada realizada com a sua presidente.
A Cooperativa dos Produtores Agroextrativista Santa Fé – COOPASFE
A Cooperativa dos Produtores Agroextrativistas Santa Fé (COOPASFE) foi instituída no início dos anos 2000, por iniciativa do senhor Manoel Gameleira. Em 2023, a presidência da entidade foi transferida para a senhora Nilva da Cunha de Lima, que atualmente a conduz. A cooperativa conta com mais de 500 associados ativos e registra uma fila de espera superior a 200 produtores interessados em filiação, evidenciando sua relevância no contexto regional. Diferentemente de outras experiências cooperativistas na Amazônia, sua criação não esteve vinculada ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
A área de abrangência da COOPASFE inclui a Reserva Extrativista Chico Mendes e diversos projetos de assentamento agroextrativista, distribuídos pelos municípios de Capixaba, Senador Guiomard, Porto Acre, Bujari e Plácido de Castro. Sua base social é composta tanto por cooperados residentes na reserva quanto por produtores de áreas externas a ela, configurando um espaço de integração entre diferentes territórios e realidades produtivas.
Gestão e Governança
Assim como a Coopaeb, a Coopasfe possuí três membros do Conselho de Administração e 3 membros do Conselho Fiscal. O Conselho de Administração é composto pelo Presidente, um Diretor Administrativo e um Diretor Financeiro. Esses conselhos reúnem-se mensalmente para apreciar a gestão e deliberar sobre novos projetos que estão sendo propostos.
Anualmente fazem Assembleias Gerais para a prestação de contas e deliberação da destinação das sobras de cada cooperativa. Unanimemente, em cada ano nas assembleias da Coopasfe a decisão é pela incorporação das sobras para o plano de investimentos da cooperativa.
Devido à dispersão dos sócios em toda a Resex fica dificultado uma participação massiva dos cooperados nas Assembleias. Conforme a presidente, o nível de participação de participação atinge cerca de 30% do cooperados. Por conta da baixa participação nas assembleias. Os presidentes exercem uma ação ativa de contato com os seus membros no interior da floresta.
[…] A Coopasfe atende os municípios de Xapuri, Capixaba, Quinari, Porto Acre, Plácido de Castro e Bujari. Por isso, a distância entre as localidades é grande. Ainda assim, buscamos sempre, especialmente nas reuniões de prestação de contas, trazer um representante de cada comunidade para participar e ouvir.
Em cada comunidade existe um Presidente de Associação. Quando não há, nós auxiliamos na criação da associação para que o representante possa participar das reuniões e levar para a comunidade as informações apresentadas na prestação de contas. (Nilva, 2025).
A presidente foi capacitada para atuar na gestão da cooperativa. Sem dúvida, um diferencial na gestão dessa cooperativa é o forte conhecimento empírico socialmente acumulados pelos diretores. Todos forjados na luta e na convivência do ambiente de produção agroextrativista e no exercício de atividades sindicais e religiosas. Além disso, a busca por conhecimento em várias dimensões da gestão, seja administrativa, financeira, mercado e comercialização. Constantemente participam de cursos e treinamentos, ofertados por instituições parceiras como a Cooperacre, a OCB/Acre, o SEBRAE e outras instituições nacionais e internacionais.
Em 2023, a Cooperacre elaborou um Planejamento Estratégico com a participação de todas as cooperativas e associações do estado e realizado com a participação de muitos parceiros, visando soluções e estratégias para os próximos cinco anos, ou seja, até 2028. O foco foi em: formas de melhorar a produção de borracha, castanha, frutas e café. Foram definidas metas para o fortalecimento da organização interna da central com vistas a melhoria da capacidade de governança e gestão, além de intensificar a produção primária, principalmente na região da Reserva Extrativista Chico Mendes. A atividade foi feita através da parceria entre a Cooperacre, a GIZ – Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável e o Sistema OCB/Sescoop/Acre.
[…] O planejamento foi elaborado juntamente com 30 produtores, para ouvir a opinião deles e permitir que avaliem o que pretendemos realizar nesse período. Trata-se do nosso planejamento e do projeto de trabalho para 2024 a 2028. Só conseguimos que dê certo se eles estiverem junto conosco. Seguimos esse plano (Nilva, 2025).
Produção e infraestrutura
A COOPASFE desenvolve atividades tanto no âmbito extrativista (borracha e castanha), quanto na produção de frutas, destacando-se o maracujá. Toda a produção adquirida junto aos cooperados é destinada à Cooperacre, que centraliza o beneficiamento e a comercialização.
A infraestrutura produtiva constitui um dos principais entraves ao fortalecimento e à diversificação das atividades da cooperativa. Diferentemente de outras experiências cooperativistas no Acre, a COOPASFE não dispõe de sede própria, embora já possua um terreno destinado à futura construção de uma unidade física, que deverá funcionar também como ponto de recolhimento de produtos, no município de Capixaba. Atualmente, a cooperativa carece de armazéns para secagem da castanha, sendo a logística de coleta realizada diretamente pela Cooperacre, que busca os produtos nas propriedades e os transporta aos depósitos centrais.
Além disso, a COOPASFE não possui maquinário ou meios de transporte próprios, o que a torna fortemente dependente da infraestrutura disponibilizada pela Cooperacre. Dessa forma, toda a produção é comercializada de maneira direta com a Central, sem etapas intermediárias de beneficiamento local, o que limita a autonomia da cooperativa e restringe sua capacidade de agregar valor aos produtos.
Situação Financeira
A cooperativa vive atualmente uma situação financeira estável. Consegue pagar rapidamente os produtores, chegando a depositar o valor das compras (como frutas e borracha) até no dia seguinte à entrega. O maior desafio enfrentado no momento é a falta de estrutura para armazenar frutas, especialmente a ausência de câmaras frias no estado do Acre. A demanda é maior que a oferta disponível, e nem mesmo o governo estadual possui unidades para ceder ou alugar, o que chegou a causar a interrupção temporária das atividades no mês anterior.
Quanto ao acesso a crédito, a cooperativa já buscou apoio em instituições financeiras, mas os bancos não oferecem linhas para culturas como frutas ou irrigação, apenas para atividades como a pecuária. Apesar disso, a cooperativa consegue se manter com recursos próprios. As sobras financeiras são apresentadas em prestação de contas e reinvestidas conforme a decisão dos cooperados, que demonstram satisfação com a gestão atual.
Clima entre os Cooperados
O clima entre os cooperados e a cooperativa é considerado muito bom. Os cooperados são participativos, comparecem às reuniões, escutam com atenção e se envolvem nas atividades. Os encontros costumam terminar com momentos de confraternização, como almoços, bingos e sorteios, fortalecendo o vínculo entre todos.
Não há histórico de conflitos ou desligamentos por insatisfação. As poucas saídas registradas ocorreram por motivos pessoais, como mudança de cidade ou fim da produção. Os exemplos citados envolvem produtores que se mudaram para outras regiões ou que deixaram de atuar na agricultura.
Atualmente, cerca de 200 produtores demonstram interesse em se filiar à cooperativa, especialmente para escoar a produção de frutas como maracujá e acerola. No entanto, a cooperativa está com a capacidade no limite e, por isso, não consegue receber novos associados, o que causa frustração, tanto nos produtores quanto na gestão da cooperativa.
Questão Social
Além das atividades comerciais, a cooperativa exerce um papel social importante. Quando um cooperado ou alguém da família adoece, e precisa de apoio para exames, consultas ou deslocamentos para tratamento, a cooperativa oferece adiantamentos financeiros. Esses valores, que podem chegar a dois mil reais ou mais, são devolvidos em pequenas parcelas, conforme a condição do produtor.
Em casos em que o cooperado adoece gravemente e não consegue mais pagar ou continuar produzindo, a cooperativa não cobra a dívida. Nesses casos, o assunto é levado para discussão com os demais cooperados, que compreendem a situação. A filosofia é de apoio mútuo e solidariedade, visando manter o produtor dentro da cooperativa e valorizando o vínculo coletivo.
Meio ambiente
A cooperativa possui associados tanto dentro quanto fora da reserva extrativista. Os produtores que vivem dentro da reserva têm consciência da necessidade de preservar o meio ambiente. No início, alguns mantinham práticas como a criação de gado e o desmatamento, mas, ao se associarem à cooperativa, foram orientados a se adequar ao perfil extrativista, condição para que a cooperativa compre seus produtos.
Embora cerca da metade das famílias da reserva ainda mantenham algum gado — o que é permitido pelo ICMBio — muitos mudaram suas práticas após começarem a vender borracha para a cooperativa. Com a valorização do extrativismo, produtores passaram a entender que derrubar árvores comprometeria sua fonte de renda, levando à redução significativa do desmatamento. A própria cooperativa monitora esse comportamento, inclusive por plataformas de observação remota, e tem notado mudanças positivas no compromisso ambiental dos cooperados.
Segundo a entrevistada, a valorização do preço da borracha teve papel fundamental na mudança de comportamento dos produtores em relação ao desmatamento. Muitos reconhecem que, se essa valorização tivesse ocorrido anos antes, não teriam derrubado suas áreas de seringueira. Em reuniões, expressam arrependimento e afirmam que hoje preservariam suas árvores.
Desde que assumiu a diretoria administrativa da cooperativa, em 2017, a entrevistada já encontrou a parceria com a empresa Veja em funcionamento. A empresa tem comprado toda a produção de borracha da cooperativa, e até o momento nunca houve excedente que ela não tenha absorvido.
A cooperativa segue o protocolo dos “quatro zelos”, que estabelece regras de preservação ambiental para os produtores. O cumprimento é monitorado por meio de pontos georreferenciados das propriedades, enviados para a plataforma da empresa Veja. Caso haja indícios de desmatamento ou queimadas, a plataforma aponta o produtor como “risco alto”, o que exige verificação imediata.
Atualmente, a Veja é responsável pelo monitoramento, mas está previsto que as cooperativas também terão acesso à plataforma, o que permitirá um controle mais rápido e direto. A entrevistada relata que, em alguns casos, o alerta de risco foi causado por atividades de vizinhos, e não do próprio cooperado, exigindo checagem presencial para evitar penalizações injustas.
O sistema também ajuda a identificar e registrar ocorrências como invasões de terra. Em um caso, invasores derrubaram 14 seringueiras de um cooperado, e a rápida comunicação evitou que o cooperado fosse responsabilizado pelo dano ambiental.
A participação das mulheres e dos jovens
O envolvimento das mulheres na cadeia da borracha começou com a participação da entrevistada em uma capacitação de mulheres multiplicadoras, promovida em Xapuri. A partir dessa experiência, ela reuniu a comunidade e, com apoio do MDA e da empresa Veja, iniciou capacitações voltadas às mulheres extrativistas.
Muitas dessas mulheres já participavam ativamente da produção — ajudando a cortar seringueira, coletar o látex e preparar a borracha — mas não se reconheciam como produtoras. O trabalho de conscientização as incentivou a se afiliarem à cooperativa e a emitirem notas fiscais, fundamentais para comprovar sua atividade produtiva e garantir direitos previdenciários no futuro.
O processo levou ao fortalecimento do protagonismo feminino no extrativismo. Hoje, a cooperativa conta com 99 mulheres filiadas, muitas delas atuando de forma autônoma: cortam, colhem, produzem e entregam sua própria borracha. Esse movimento também impactou a dinâmica familiar, com maridos e filhos reconhecendo o papel produtivo das mulheres, e cada membro da família assumindo sua própria produção.
[…] Tem o exemplo do André. Ele começou a trabalhar com 16 anos: cortava de manhã e, à tarde, ia para a escola. Quando completou 18 anos, já tinha algum recurso guardado, pois vendia no nome da mãe. Depois, veio conversar conosco e conseguiu tirar a habilitação e comprar uma moto. Então eu perguntei: “E agora? O que você vai fazer? Você tem que continuar estudando, não pode parar”. Ele respondeu: “Não, dona Nilva, para a cidade eu jamais vou. Vou continuar cortando durante o dia e vou comprar um computador para fazer faculdade em casa”. Isso, para nós, é uma alegria muito grande. (Nilva, 2025).
[…] Outro exemplo: o seu Raimundo, que tem cinco filhos. Todos trabalhavam em uma fazenda. Quando fiz uma reunião lá no Vila Nova, ele me contou que tinha 12 estradas de seringa na colocação dele, mas que isso tinha chegado muito tarde, pois os filhos já haviam ido embora para trabalhar nessa fazenda. Assim, ele não tinha mais os filhos em casa para ajudarem. Isso aconteceu em um final de semana, e eu disse a ele: “Homem, na quarta-feira eu quero os teus filhos aqui. Chama eles, convida eles, que vou perguntar o que estão precisando”. Ele respondeu que não tinha bica, tigela nem material para que os filhos começassem a cortar. Então falei: “Chama os teus filhos, na quarta-feira eu volto aqui”. Quando foi oito horas da manhã, cheguei lá e ele já estava com os filhos. Tive uma conversa com eles e disse: “Olha, eu vou doar um kit para cada um, mas tem uma condição: daqui a 30 dias eu volto para pegar a produção. Se vocês não tiverem produzido, recolho o material e passo para outras pessoas que realmente tenham interesse em cortar”. Com 30 dias eu voltei. Estavam todos lá, com a borrachinha pronta, esperando para entregar. Hoje, todos voltaram para casa, e o pai ficou muito feliz. Ainda hoje, quando faço reunião, eles estão sempre presentes, os seis. O seu Raimundo diz que ficou muito contente, porque se preocupava com os filhos trabalhando em fazendas. Agora, sente alegria em tê-los por perto. Dois já se casaram, e às vezes brinco com ele dizendo que foi o próprio Raimundo quem incentivou esses meninos a se casarem, já que voltaram para casa. É uma alegria muito grande saber que, hoje, os jovens não precisam mais sair de casa para sobreviver. (Nilva, 2025).
O futuro da COOPASFE
A entrevistada projeta um futuro de fortalecimento da parceria com a empresa Veja, considerada essencial para manter e ampliar a compra de borracha, garantindo renda aos seringueiros e incentivando a preservação da floresta. Seu sonho é manter a mata em pé, investir em reflorestamento e reduzir a poluição por fumaça durante o verão.
Entre as metas, estão a inauguração de um ponto de recolhimento da Cooperacre, prevista para agosto, e o início das primeiras exportações até fevereiro do próximo ano. A expectativa é que, com a exportação, a cooperativa reduza a dependência de apoio governamental, aumente sua capacidade de investimento e proporcione maior crescimento aos produtores.
Qualidade de vida dos cooperados
Segundo a entrevistada, a qualidade de vida dos cooperados melhorou significativamente desde o início das atividades. Antes, havia produtores com pouca produção, deslocando-se de bicicleta e necessitando de cestas básicas para complementar a alimentação da família. Hoje, todos os associados dispõem de melhores meios de transporte, como motocicletas e carros, e têm autonomia financeira para fazer suas compras no supermercado, sem depender de doações.
Diversificação da produção
A cooperativa já iniciou a diversificação da produção com o cultivo de café, contando com áreas plantadas que variam de 1 a 10 hectares entre os produtores. Embora o incentivo formal ainda não tenha começado, a expectativa é iniciar compras de café entre 2026 e 2027, quando houver mercado garantido.
A entrevistada conta que o cultivo de cacau na região ainda é pequeno, havendo apenas cacau nativo e algumas iniciativas recentes de plantio. Ela mesma já começou com 100 pés para testar e incentivar outros produtores. Há interesse em ampliar a produção, especialmente se houver mercado garantido. Atualmente, o principal foco é concluir a instalação da indústria, pois isso permitirá apoiar melhor os agricultores.
Em relação à banana, a cooperativa não tem incentivado a produção devido à falta de mercado e à alta perda da fruta por falta de compradores, situação já vivida pela própria entrevistada e por outros produtores. Produtos como banana e macaxeira, apesar de cultivados por alguns associados, não são prioridade por enquanto, mas podem vir a ser trabalhados futuramente se surgirem oportunidades comerciais.
Apoio da prefeitura e do governo estadual
A entrevistada avalia que o apoio da prefeitura e do governo é limitado. Para conseguir serviços básicos, como limpeza de ramais ou reparo de pontes, é necessário insistir muito. Ela cita o caso da ponte do Ramal do Sabóia, que ficou quebrada por mais de cinco meses; os produtores tiveram que providenciar a madeira e, mesmo assim, esperaram dois meses para que a prefeitura realizasse o transporte e concluísse a obra.
Quanto ao governo estadual, a principal crítica é à falta de apoio na compra de produtos da cooperativa para programas como a merenda escolar. Embora o governo compre frutas e polpas de outras empresas locais não adquire diretamente da Coopasfe. Isso, segundo ela, prejudica os produtores, pois essas empresas locais não compram diretamente nas comunidades, ao contrário da Cooperacre, que adquire a produção local e garante escoamento para os cooperados.
A entrevistada relata que a Cooperacre compra diretamente do produtor, processa a produção e quer vender ao governo, mas enfrenta resistência na compra por parte deste. Ela participou de uma reunião na Assembleia Legislativa com 75 produtores para tratar do assunto, mas acredita que houve retaliação do governo após a mobilização. Segundo ela, o governo incentiva a produção, mas não garante mercado, o que desmotiva os produtores. Muitos, sem compradores, pensam em cortar suas plantações ou vender a terra, o que pode levar ao desmatamento por fazendeiros e ao abandono da atividade rural.
A entrevistada defende que o governo trabalhe em parceria com as cooperativas, destacando que estas têm um papel essencial para melhorar a vida dos produtores e comunidades. Conta que, antes de vender para a cooperativa, passava dificuldades e chegou a passar fome. Com as vendas, conseguiu construir uma casa melhor e sustentar a família, embora tenha perdido a plantação de abacaxi por falta de irrigação durante a seca. Critica o fato de o governo e prefeituras solicitarem informações sobre a produção, como ocorreu recentemente em Capixaba, onde informaram ter mais de 200 mil quilos de maracujá estocados, mas sem que isso resulte em apoio ou compra efetiva. Sente-se usada e frustrada com a falta de retorno concreto após fornecer dados.
A entrevistada critica duramente a ineficiência do governo e do INCRA no apoio aos produtores rurais, afirmando que, sem a Cooperacre, a floresta já estaria muito mais desmatada. Relata que o INCRA assenta famílias, mas não oferece incentivos ou assistência, e que há impasse entre prefeitura e INCRA sobre a responsabilidade de apoio, deixando produtores desamparados. Conta que já solicitou ajuda para manutenção de ramais, mas recebeu como resposta que o INCRA “não tem um copo de óleo para dar”.
Defende que a preservação da floresta depende da união de esforços e da produção sustentável. Afirma que um produtor de maracujá pode viver dignamente com apenas um hectare, produzindo por até oito anos sem necessidade de novos desmatamentos, e que a cooperativa incentiva o reflorestamento e o cultivo diversificado (como café e cacau) para garantir renda e manter a floresta em pé.
Em conclusão, a Cooperativa dos Produtores Agroextrativistas Santa Fé (COOPASFE), criada no início dos anos 2000, consolidou-se como uma das principais organizações do cooperativismo agroextrativista no Acre, reunindo mais de 500 associados e mantendo uma fila de espera de 200 produtores. Sob a presidência de Nilva da Cunha de Lima, a gestão é marcada pela governança participativa, pela incorporação das sobras em investimentos e por um forte vínculo social, expresso tanto no apoio aos cooperados em situações de doença quanto na valorização da participação feminina e juvenil no extrativismo. Apesar da dispersão geográfica que limita a presença nas assembleias, a direção mantém contato próximo com as comunidades, fortalecendo a representatividade e a confiança dos associados.
No campo produtivo, a cooperativa atua com borracha, castanha e frutas, vendidas à Cooperacre, mas enfrenta sérias limitações de infraestrutura, sem sede própria, transporte ou armazéns, dependendo integralmente da central. Ainda assim, mantém saúde financeira, pagando com rapidez os produtores e reinvestindo recursos em expansão. A parceria com a empresa Veja garante escoamento da borracha, remuneração diferenciada e estímulo à preservação ambiental, resultando em redução do desmatamento entre os cooperados. A COOPASFE também impulsiona o protagonismo feminino e a permanência dos jovens no campo, ressignificando a atividade extrativista. Contudo, enfrenta desafios estruturais e políticos, sobretudo pela falta de apoio efetivo do Estado e do INCRA, que, segundo a presidente, estimulam a produção, mas não asseguram mercado. Para o futuro, a prioridade é diversificar com café e cacau, inaugurar um ponto de recolhimento e ampliar exportações, reafirmando a cooperativa como um pilar da sustentabilidade econômica e socioambiental na Resex Chico Mendes e em áreas de assentamento extrativista.
A Coopasfe, assim como a Coopaeb, atua muito próximo do conceito da economia solidária. Onde o cooperativismo atua com contornos transformadores. Atuam numa prática contra hegemônica, baseada na autogestão, solidariedade e valorização do trabalho humano, sendo um instrumento de emancipação social e inclusão produtiva e defesa do meio ambiente.
Referências
- LIMA, Nilva da Cunha de. Entrevista concedida a Orlando Sabino. Rio Branco, 21 maio 2025.
- COSTA FILHO, Orlando Sabino. O “novo” cooperativismo na Reserva Chico Mendes – o caso da COOPAEB. Boletim Legal, [local, se houver]. Disponível em: https://legal-amazonia.org/o-novo-cooperativismo-na-reserva-chico-mendes-o-caso-da-coopaeb/. Acesso em: 21 ago. 2025.