Orlando Sabino da Costa Filho
O Decreto Governamental Federal nº 98.897, de 30 de janeiro de 1990, criou quatro Reservas Extrativistas, sob responsabilidade do IBAMA: uma em Rondônia (Rio Ouro Preto), outra no Amapá (Rio Cajari) e duas no Acre – a do Alto Juruá (no Vale do Rio Juruá) e a Reserva Extrativista Chico Mendes (nos vales dos rios Acre e Purus). Juntas, totalizam 2.162.989 hectares e beneficiam 6.250 famílias.
A Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex Chico Mendes), no Acre, à época de sua criação, contava com a presença de 1.428 famílias, em uma área de 970.570 hectares e que possuía 1.142 colocações. A Reserva está situada nos territórios dos municípios de Rio Branco, Senador Guiomard, Capixaba, Xapuri, Epitaciolândia, Brasiléia e Assis Brasil.
A partir da criação da Resex Chico Mendes, nasce a necessidade de ser implementar uma nova forma de produção, centrada em um conceito alternativo de desenvolvimento (Costa Filho, 1995). Mesmo antes de sua formalização, o papel desempenhado pelo cooperativismo na região já sinalizava mudanças na qualidade de vida dos moradores, por meio da diversificação das atividades produtivas sob a ótica do desenvolvimento sustentável.
As reservas extrativistas são definidas, segundo Allegretti (1994), como áreas cedidas pelo poder público para o direito real de uso para populações tradicionais, as quais atuam, tradicionalmente, no extrativismo de subsistência e comercial, sendo, simultaneamente, também um território de conservação e produção, no qual a exploração dos recursos naturais tem relação direta com um plano de manejo adequado.
A criação das reservas extrativistas representava, antes de tudo, a conquista de uma vitória na luta pela terra. A intensa corrida fundiária no Acre, na década de 1970, motivou uma resistência organizada por parte dos seringueiros, tendo em Chico Mendes seu maior líder. Assim, as reservas foram fruto do movimento do sindicalismo rural, surgido no contexto da luta pela reforma agrária (Costa Filho, 1995).
O movimento dos seringueiros, conforme argumenta Costa Filho (1995) coincidiu com a crise ambiental da década de 1970, período em que a crescente preocupação com as condições da biosfera, ameaçada pelo uso intensivo dos recursos naturais, levou à revisão dos modelos de desenvolvimento então vigentes.
De acordo com o Relatório Brundtland, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, o desenvolvimento sustentável é definido como “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem as suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991). Esse conceito baseia-se na integração de três dimensões fundamentais: o crescimento econômico, a justiça social e a preservação ambiental. Propõe um modelo de desenvolvimento que reconhece a interdependência entre os seres humanos e a natureza, orientando políticas públicas e práticas produtivas voltadas para a sustentabilidade de longo prazo.
Assim, pela própria definição de reserva extrativista, fica evidente tratar-se de um modelo de desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, de ecodesenvolvimento, pois abrange todos os aspectos exigidos pelas novas propostas de desenvolvimento.
Desde que as reservas extrativistas no Acre foram idealizadas e criadas, uma das estratégias utilizadas para promover o desenvolvimento sustentável foi a inserção do cooperativismo em suas atividades. Segundo a Aliança Cooperativa Internacional (ACI, 1995), o cooperativismo representa uma “associação autônoma de pessoas unidas voluntariamente para satisfazer suas necessidades e aspirações econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente gerida”.
Entre o fim da década de 1980 até o início dos anos 2000 foram implantadas algumas experiências cooperativistas no âmbito da Resex Mendes, no Acre. Entre elas, destacam-se:
- CAPEB (Cooperativa Agropecuária e Extrativista de Epitaciolândia e Brasiléia Ltda.), com sede em Brasiléia-AC, criada em 18 de fevereiro de 2000;
- CAEX (Cooperativa Agroextrativista de Xapuri Ltda.), criada em 30 de novembro de 1988, com sede em Xapuri-AC.
Ambas foram criadas no âmbito dos sindicatos dos trabalhadores rurais desses municípios.
A CAPEB e a CAEX surgiram com o propósito de melhorar a qualidade de vida dos associados, protegendo a floresta por meio de uma política de diversificação da produção e da comercialização. Mantinham diversos núcleos de compra de borracha e de castanha, além da venda de insumos essenciais ao consumo e à atividade produtiva dos seringueiros, os quais encontravam-se distribuídos em diferentes seringais.
As cooperativas contavam com ampla infraestrutura, destacando-se as usinas de beneficiamento de castanha, caminhões, tratores, barcos, computadores e rádios para comunicação entre os núcleos. Também recebiam apoio técnico de ONGs e financiamento de agências internacionais, como o WWF, a Ford Foundation e a GTZ (Alemanha).
Essas cooperativas buscaram agregar valor à produção de borracha nativa, castanha-do-brasil, óleos vegetais, açaí, mel silvestre, dentre outros produtos não madeireiros. A CAPEB e a CAEX tornaram-se experiências emblemáticas desse modelo, produzindo borracha beneficiada e atuando em mercados nacionais e internacionais.
No início dos anos 2000 essas duas cooperativas deixaram de funcionar, criando um vácuo em uma política econômica e social autônoma, ou seja, sob o controle dos próprios habitantes da RESEX (discutiremos os motivos de dissolução das cooperativas em um boletim específico).
Neste boletim partimos de um momento no qual o cooperativismo se consolida no âmbito da Resex Chico Mendes, sendo consideranda como um dos elementos centrais neste processo a constituição e o fortalecimento da Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre (Cooperacre), responsável pela comercialização dos produtos gerados pelas cooperativas singulares.
A volta do cooperativismo na Resex Chico Mendes
O cooperativismo é um fenômeno social e econômico multifacetado, cujo conceito varia conforme a vertente teórica ou ideológica adotada. Em sua essência, refere-se à associação voluntária de pessoas que se organizam coletivamente para atender a necessidades econômicas, sociais ou culturais comuns, por meio de uma organização empresarial de propriedade conjunta e gestão democrática. No entanto, as interpretações sobre seu papel na sociedade divergem substancialmente.
Na perspectiva clássica, inspirada nos pioneiros de Rochdale, o cooperativismo é visto como uma forma autônoma e democrática de organização econômica, voltada à justiça nas relações de produção e consumo. Já na ótica liberal, ele é valorizado como um instrumento de livre associação que favorece a eficiência econômica sem depender da intervenção estatal, operando dentro da lógica de mercado.
A visão marxista, por sua vez, considera o cooperativismo uma experiência contraditória: se inserido na lógica capitalista, pode ser funcional ao sistema; porém, quando praticado com base na autogestão e na propriedade coletiva dos meios de produção, constitui uma potencial via de transição ao socialismo. Nesse sentido, Marx (1866) reconhece o valor das cooperativas operárias como experiências pedagógicas de organização pós-capitalista, desde que articuladas à luta de classes.
Na abordagem da economia solidária, representada por autores como Paul Singer (2002), o cooperativismo ganha contornos transformadores. Aqui, ele é compreendido como uma prática contra hegemônica, baseada na autogestão, solidariedade e valorização do trabalho humano, sendo um instrumento de emancipação social e inclusão produtiva.
Por fim, sob a perspectiva da doutrina social da Igreja Católica, o cooperativismo é concebido como uma prática ética, orientada pela solidariedade, justiça social e promoção da dignidade humana no mundo do trabalho, conforme expresso em documentos como Rerum Novarum (1891) e Laudato Si’ (2015).
Essas diferentes interpretações demonstram que o cooperativismo não é um conceito único, mas sim um campo de práticas e teorias inserido em disputas ideológicas, podendo assumir um caráter conservador, reformista ou revolucionário, a depender de sua orientação e finalidade.
A nova configuração das cooperativas agroextrativistas no Acre
Um dos grandes marcos para o cooperativismo agroextrativista no Acre foi a criação da Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre (Cooperacre). Fundada em dezembro de 2001, com atuação em cerca de 18 municípios e mais de 2.500 famílias associadas, a Cooperacre tornou-se referência ao consolidar a produção e a exportação de produtos florestais (Cooperacre, 2024).
A Cooperacre surgiu da necessidade de comercialização dos produtos da Amazônia oriundos do extrativismo. Localizada em Rio Branco, é hoje responsável pela maior produção de castanha beneficiada do país, com planos de se tornar a maior do mundo.
A ideia de criação da Cooperacre partiu do princípio da união: era necessária a criação de uma Central que reunisse todas as cooperativas extrativistas do estado, garantindo a comercialização de seus produtos. Em 2006, a Cooperativa deu seu primeiro salto, com a construção de duas indústrias de beneficiamento de castanha nos municípios de Brasiléia e Xapuri, com recursos provenientes do governo do Acre. Pela primeira vez, a Cooperacre passou a beneficiar castanha e a exportá-la para outros estados brasileiros.
Atualmente, a Cooperacre atua no beneficiamento da castanha-do-Brasil, borracha, polpas de frutas, palmito de pupunha e, em breve, também com café, na busca por defender o desenvolvimento sustentável aliado à preservação da diversidade natural e cultural da Amazônia.
A cooperativa está presente em todas as etapas da cadeia produtiva: desde a implementação dos viveiros, passando pelos sistemas agroflorestais, coleta da matéria-prima, até o processamento, beneficiamento e comercialização de seus produtos.
O resultado dessa atuação estratégica é refletido nas parcerias consolidadas pela Cooperacre, que mantém contratos com empresas multinacionais de credibilidade nos mercados de alimentação e moda, garantindo o escoamento da produção por meio de cinco indústrias localizadas nos municípios de Brasiléia, Xapuri, Sena Madureira e Rio Branco. Atualmente, a Cooperacre conta com 30 galpões comunitários de armazenamento, quatro galpões centrais e cinco indústrias voltadas ao beneficiamento de castanha, polpas de frutas e látex.
Os produtos da Cooperacre, especialmente a castanha, são certificados como totalmente orgânicos e livres de qualquer tipo de toxina, fator que assegura sua credibilidade e amplia a demanda entre grandes indústrias alimentícias globais. No Brasil, seus produtos são comercializados em mais de 20 estados, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Bahia. No exterior, já alcançaram mercados como Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Reino Unido, Holanda, Filipinas, Itália, Kuwait, Peru, Lituânia, Rússia e Chile.
A Cooperacre reúne cerca de 35 cooperativas e associações espalhadas por todo o estado do Acre. Sua missão é atender mais de 2.500 famílias de extrativistas e agricultores nas diversas regionais do estado. A Central possui uma ampla rede de cooperativas singulares, entre as quais se destacam: Copasfe, Coopaeb, Cooperxapuri, Cooperlib, Caet, Cooperbonal, Coapex, CooperAquarios, Coopersonhos, Coopercintra, Cooperiaco, Coopergrão, Caet e Coopercafé.
Em parceria com a empresa V. Fair Trade Comércio e Exportação de Calçados e Acessórios (VEJA), a Cooperacre desenvolve a cadeia produtiva da borracha sustentável, proveniente de seringais nativos da Amazônia. Por meio dessa parceria, a VEJA paga um preço justo pela borracha nativa, chegando a oferecer um valor final por quilo até cinco vezes superior ao preço de mercado, composto pela remuneração do produto e pelos serviços ambientais.
Além disso, a VEJA oferece um bônus de qualidade e de serviços socioambientais (PSSA), que é pago aos seringueiros por preservarem a floresta e cumprirem critérios sociais e ambientais. Para se ter uma ideia, na última safra (2024), foram compradas mais de 650 toneladas de borracha da Cooperacre, o que demonstra o crescimento e o ganho de escala da produção sustentável na Amazônia.
Além da parceria com a VEJA, a Cooperacre mantém cooperação com o governo estadual e com agências do governo federal, como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Federal do Acre (UFAC). A cooperativa também possui experiência na captação de crédito junto a bancos, como o BNDES e o Banco da Amazônia, além de contar com o apoio de organizações internacionais.
Em 2024, a Cooperacre movimentou mais de R$ 91 milhões em bioeconomia, envolvendo cerca de 2.500 famílias extrativistas ligadas à instituição. Este valor representou um crescimento de 30% em relação ao ano de 2023, quando foram movimentados R$ 70 milhões. Atualmente, está investindo na construção de uma nova planta industrial de polpas de frutas, localizada no distrito industrial de Rio Branco, com o objetivo de diversificar seu portfólio de produtos e explorar novos mercados.
A Cooperacre foi criada por meio de uma política pública durante os governos da Frente Popular (1999–2018), que implementaram a chamada “Florestania” – uma política de desenvolvimento baseada na bioeconomia e na valorização da sociobiodiversidade. Nesse contexto, tanto a Cooperacre quanto as cooperativas singulares receberam apoio do Sistema OCB/Sescoop e de programas de certificação, o que contribuiu para o fortalecimento institucional e a consolidação de mercados diferenciados.
Percepções de dirigentes sobre o cooperativismo agroextrativista na Resex Chico Mendes
Para analisar com maior profundidade o novo momento das cooperativas na Resex Chico Mendes, partiu-se para um estudo específico dessa nova realidade, agora sob o contexto da existência de uma Cooperativa Central responsável pela comercialização dos produtos gerados pelas cooperativas singulares.
A pesquisa foi realizada com base em entrevistas semiestruturadas tendo com atores-chave os atuais presidentes de três cooperativas que estão vivenciando este novo momento do cooperativismo no estado e, de forma mais detida, no âmbito da Resex Chico Mendes. A escolha das cooperativas ocorreu por meio de ampla discussão com dirigentes da Cooperacre e técnicos da OCB/Sescoop no Acre, os quais, em comum acordo, pactuaram que as três cooperativas selecionadas representavam, de alguma forma, o universo das cooperativas e associações que atuam na Resex Chico Mendes.
A partir dos critérios de seleção acima apontados, foram realizadas entrevistas com lideranças que atuam em três cooperativas singulares:
- Cooperativa Agroextrativista de Assis Brasil, Epitaciolândia e Brasileia – COOPAEB, tendo como presidente o Sr. José de Araújo. Entrevista realizada no dia: 10/4/2025.
- Cooperativa dos Produtores Agroextrativista Santa Fé – COOPASFE, tendo como presidente a Sra. Nilva da Cunha de Lima. Entrevista realizada no dia: 16/5/2025.
- Cooperativa Agroextrativista de Xapuri – COOPERXAPURI, tendo como presidente o Sr. Sebastião Aquino. Entrevista realizada em: 21/5/2025.
As entrevistas foram gravadas e transcritas. Após essa etapa, foram estruturadas em nove blocos temáticos: informações gerais; gestão e governança; produção e infraestrutura; mercado e comercialização; questões financeiras; relacionamento entre cooperados; apoio de políticas públicas; questões sociais e ambientais; e desafios e perspectivas futuras.
Com base na análise minuciosa das informações foi possível reconstruir o contexto político e institucional da dinâmica das cooperativas nesse novo cenário do cooperativismo agroextrativista no Acre.
As partir das entrevistas realizadas, foi possível identificar as percepções acerca da dinâmica do cooperativismo no contexto da Resex Chico Mendes. Neste primeiro boletim nos dedicaremos a apresentar a contextualização histórica do cooperativismo na Resex Chico Mendes e a caracterização do cenário atual da COOPAEB. Nos dois boletins seguintes serão destacados os contextos da COOPASF e da COOPERXAPURI, respectivamente, tendo como base as entrevistas semiestruturadas realizadas com seus presidentes.
A Cooperativa Agroextrativista de Assis Brasil, Epitaciolândia e Brasileia – COOPAEB
Em entrevista realizada com o Presidente da Cooperativa Agroextrativista de Assis Brasil, Epitaciolândia e Brasileia – COOPAEB, José de Araújo, o líder cooperativista informou que a Coopaeb foi fundada em 2006, com o objetivo de organizar os produtores. Na época de sua criação, o foco era o fortalecimento da pecuária no município de Assis Brasil. Tanto que o seu nome era Cooperativa Agropecuária do Município de Assis Brasil. Com a criação da Cooperacre, foi nascendo a necessidade de organizar as cooperativas singulares, ligadas a atividades agroextrativistas. Em 2021, foi dado início ao processo de mudança do estatuto, o qual contou com o apoio do Sistema OCB/AC.
Depois de cinco mudanças estatutárias, a Coopaeb foi estabelecida. A sua sede está localizada no município de Brasiléia, que conta com uma estrutura de beneficiamento de café. Possuí também um ponto de recolhimento de produção no município de Assis Brasil, onde constam um escritório, um armazém de borracha, um armazém de castanha e um armazém de café que conta uma estrutura de beneficiamento do produto.
A Cooperativa trabalha com a compra e a venda de produção de borracha, castanha, frutas e o café, atuando tanto com produtos extrativos quanto de cultivos, daí ser considerada uma cooperativa agroextrativista. Acerola, açaí, caju, cajá, graviola, abacaxi, maracujá, cupuaçu e goiaba são as frutas comercializadas. A Coopaeb conta com 272 cooperados, com a entrada de novos associados intensificada nos últimos anos.
A Cooperativa conta com uma diretoria, um conselho administrativo e um conselho fiscal, todos ativos. Toda segunda-feira do mês ocorre uma reunião para deliberações, envolvendo as três estruturas. Quanto às assembleias de cooperados, devido à grande dispersão do cooperados pelo território, a presença nas reuniões deliberativas atinge somente 30% deles. Porém, para suprir essa deficiência, constituiu uma agenda constante de reuniões comunitárias em locais de maior concentração de sócios.
[…] depois que eu assumi, eu tenho uma agenda de 14 reuniões nesses municípios, duas vezes por ano. Falando do cooperativismo, da importância do cooperativismo, da importância de fazer parte para poder comercializar a borracha e a castanha. Infelizmente a gente não consegue botar os nossos cooperados em uma Assembleia com a participação em massa. A questão de distância, acesso, comunicação, tem vários fatores e eu só conseguimos ter a participação deles quando a gente faz essas reuniões comunitárias, na própria comunidade (De Araújo, 2025).
Há pouco mais de um ano a cooperativa conseguiu contratar três técnicos que prestam assistência técnica, especialmente na produção de borracha – cujo principal comprador, a empresa Veja, exige uma série de cuidados conhecidos como “os quatro zelos” -, além de atuarem com a castanha, o café e outros programas. Os “os quatro zelos” para com a floresta envolvem: a) manter a floresta em pé, não derrubando além do permitido por lei; b) ter borracha de qualidade; c) cuidar da seringueira; e d) ter zelo pela cooperativa.
Na entrevista, foi destacado ainda o apoio aos cooperados para manterem-se regularizados junto ao Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), requisito necessário para acesso ao PGPM-Bio (Política de Garantia de Preços Mínimos para Produtos da Sociobiodiversidade). Esse programa assegura preços mínimos para mais de 17 produtos extrativistas, contribuindo para a conservação ambiental.
Além de uma vasta experiência nos movimentos populares, o presidente da COOPAEB destacou como se preparou para assumir a liderança da Cooperativa. Participou de diversos cursos envolvendo cooperativismo, associativismo, gestão de cooperativas, gestão de pessoas e outros cursos de curta duração. Indagado se, em algum momento, cogitaram terceirizar a gestão da cooperativa, De Araújo respondeu com convicção:
[…] De maneira nenhuma… Porque se a gente terceirizar, deixamos de ter o domínio do que é nosso. A cooperativa, nós entendemos — e temos certeza disso — é a nossa empresa. Nós somos os donos e somos nós que temos que fazer a gestão (De Araújo, 2025).
A COOPAEB realizou recentemente um planejamento estratégico que reuniu, ao longo de oito dias, não apenas a diretoria e os sócios, mas também diversos parceiros: sindicatos, associações, Secretaria de Produção, Secretaria de Meio Ambiente, Governo do Estado, prefeituras e o Incra, entre outros. Para o presidente, esse instrumento é o guia da gestão. Ele afirma que quem entra nos escritórios da cooperativa sempre verá, afixado na parede, o planejamento estratégico impresso.
[…] Fizemos em oito dias o nosso Planejamento Participativo. Vieram sindicatos, associações, prefeituras locais, Secretaria de Produção, Secretaria de Meio Ambiente, Governo do Estado, ICMBio e o INCRA. Esse documento fica na entrada da Coopaeb. Meus sócios têm que ver, os meus parceiros têm que ver. As pessoas que participaram têm que ver, porque fica se perguntando, fica cobrando. E principalmente a diretoria, porque o meu guia é aquele planejamento (De Araújo, 2025).
A cooperativa compra e paga toda a produção de borracha e de castanha à vista. Os preços são fixados para os sócios (preço maior) e os não sócios (preço menor). O café é beneficiado pela estrutura da cooperativa e os outros produtos, como as frutas, são coletados e encaminhados para a Cooperacre.
De Araújo comenta como surgiu o cultivo do café no âmbito da cooperativa.
[…] quando ainda era a Cooperativa Agropecuária o pensamento era trabalhar com a pecuária. Quando a cooperativa foi fazer o levantamento nas propriedades, deparou-se que elas possuíam de 30 a 50 hectares. Ficou constatado que não havia como viabilizar a pecuária, pois nunca as receitas iriam superar as despesas. Nesse sentido, partiu-se para buscar outras culturas, que fossem viáveis, e que os sócios tivessem condições técnicas para implementá-las. Foi quando surgiu a ideia do café. Fizemos visitas em Rondônia, em Acrelândia. Percebemos então, que para mudar um pouco da realidade dos produtores, principalmente aqueles que têm áreas pequenas, que não tinham condições de estar trabalhando no extrativismo, o café poderia ser uma alternativa viável. Partimos para a execução. Instalamos viveiros em uma parceria com as prefeituras com doação de mudas. A realidade mudou, hoje a Coopaeb é uma das cooperativas ligadas à Cooperacre que, fora a Coopercafé de Mâncio Lima, é a maior em produção de café. (De Araújo, 2025).
Para o presidente da Coopaeb, a decisão pelo cultivo do café foi o início de uma nova realidade. Muitos cooperados da Coopaeb, que antes trabalhavam exclusivamente com o extrativismo, agora estão plantando café. Porém, devido às dificuldades de acesso, muitos ficam impossibilitados de adotar essa diversificação. Atualmente, a cooperativa entrega as mudas em suas sedes (Brasiléia e Assis Brasil), pois não consegue entrar com a caminhonete nas colocações. A entrega das mudas ocorre nos meses de janeiro e fevereiro. Caso isso não aconteça nesse período, o plantio não é realizado. Isto devido, em grande medida, aos ramais não oferecem condições adequadas de acesso a diversas localidades no interior da reserva.
Além disso, a cooperativa enfrenta carência de infraestrutura de transporte, contando com apenas uma caminhonete para realizar as atividades de compra, armazenamento e venda da produção.
Outra questão abordada pelo presidente refere-se às mudanças climáticas. Segundo ele, o planejamento da produção tem sido prejudicado. Explica que os produtores estavam acostumados a plantar arroz, feijão, mandioca e outras culturas em datas fixas, sem sofrerem com a escassez de chuva. Hoje, os cooperados não conseguem mais se programar: quando não há chuva em excesso, há escassez.
As dificuldades de acesso aos serviços de assistência técnica e de aquisição de insumos agrícolas também foram citadas. Segundo ele, o lema da Coopaeb é não perder produção, pois o objetivo da cooperativa é garantir que todo investimento traga retorno. Ele exemplifica com o caso do café:
[…] Se o produtor plantar um hectare de café e conseguir irrigar, adubar e seguir corretamente todo o processo, ele pode colher até 120 sacas por hectare. Se cada saca custar R$ 2 mil, isso representa uma renda bruta de R$ 240 mil. Mas, se nesse mesmo hectare não houver irrigação, adubação, limpeza e assistência técnica, a renda cai para R$ 40 mil. Veja o prejuízo: no final das contas, o produtor só cobre as despesas. Por isso, tudo isso precisa ser cuidadosamente analisado. . (De Araújo, 2025).
Quanto à concorrencial com outros agentes em relação aos principais produtos comercializados pela Coopaeb, o problema mais sério e intenso identificado pelo entrevistado ocorre na comercialização da castanha, com concorrência entre agentes externos à cooperativa — sejam eles locais, bolivianos ou peruanos. O que favorece a Coopaeb, atenuando esse problema, é o espírito cooperativista dos seus sócios, que preferem vender para a própria cooperativa. Os demais produtos – borracha, café e frutas – não enfrentam concorrência, pois apenas a cooperativa realiza a compra dessas mercadorias.
Para se viabilizar economicamente, a Coopaeb precisa adquirir parte da produção de não sócios. Segundo De Araújo, atualmente essa relação chega a 50%, principalmente no caso da castanha. Ele explica que, ao comprar de um produtor não cooperado, incide tributação sobre o valor da compra. Esse valor referente ao tributo é considerado um custo e não entra no cálculo das sobras distribuídas pela cooperativa.
A saúde financeira
Quanto à saúde financeira da Coopaeb, De Araújo afirma que, desde 2021, após as mudanças estatutárias, a cooperativa tem conseguido sanar todas as despesas e obter um pequeno lucro, as chamadas sobras. O destino dessas sobras, decidido em assembleias, nos últimos três anos, tem sido o reinvestimento na própria cooperativa.
Segundo presidente, outro aspecto importante na gestão de uma cooperativa é a existência de capital de giro, fundamental para financiar todo o processo de compra da produção.
Explica que no ano passado (2024), a Coopaeb conseguiu operar sem recorrer a empréstimos. Neste ano (2025), no entanto, devido ao alto preço da castanha, o capital de giro disponível não foi suficiente, em razão do aumento expressivo no valor pago aos produtores, sendo necessário o financiamento pela Cooperacre.
[…] O planejamento era comprar 60 mil latas de castanha. Compramos pouco mais de 20 mil, mas, com o dinheiro que tínhamos para comprar 60 mil, não conseguíamos adquirir nem 10 mil. No planejamento, a média era de R$ 75 por lata; tivemos que pagar R$ 180 (De Araújo, 2025).
O apoio do setor público
Quando perguntado se a cooperativa recebe apoio de órgãos governamentais, associações e ONGs, a resposta foi a seguinte:
[…] Sim, temos tido grandes parcerias. As principais são com a OCB, a GIZ, o SEBRAE e a EMBRAPA. As prefeituras ajudam muito pouco, mas ainda assim são parceiras. Pelo tamanho da responsabilidade que temos, os municípios têm contribuído pouco, mas mantemos a parceria. O governo do Estado também tem colaborado muito pouco — estamos sempre esquecidos. (de Araújo, 2025)
O presidente afirma que a agricultura no Acre tem sido negligenciada. Ele exemplifica com a situação da SEAGRI, presente nos 22 municípios do Estado:
[…] Antes, a SEAGRI tinha estrutura. Hoje, não tem um caminhão, não tem um quadriciclo, não tem um técnico, não tem quase nada. Atualmente, estamos recebendo muito mais benefícios do governo federal do que do próprio governo estadual. (De Araújo, 2025).
Sustentabilidade econômica e ambiental
Quando perguntado se os cooperados compreendem a importância da cooperativa para alcançar um dos objetivos da Resex Chico Mendes – buscar sua viabilidade econômica com a preservação da floresta -, o presidente respondeu que não tem nenhuma dúvida quanto a isso. Ele explica que a prova disso é que, com a mudança estatutária, a primeira medida tomada foi a alteração do nome da cooperativa:
[…] O nome ‘agropecuária’ estava errado. Mudamos para ‘agroextrativista’. Entendem que, hoje, quem garante a sustentabilidade da nossa cooperativa são os produtos extrativistas. Ninguém tem dúvida em relação a isso.(De Araújo, 2025).
No entanto, reconhecem a necessidade de diversificação da produção, com criação de gado, frango, porco, cultivo de café, entre outros. Mas todos têm convicção de que a questão ambiental é fundamental para a sobrevivência da cooperativa.
Quando questionado se os cooperados têm noção de que vivem dentro de uma Reserva Extrativista, o presidente afirmou que sim:
[…] uns 50% têm essa visão e cobram bastante. Porém, o poder público — seja municipal, estadual ou federal — não tratou a Resex com a seriedade que deveria. Ela foi abandonada. Hoje, o que garante as condições de vida daquelas pessoas é o cooperativismo, que compra a produção delas. Se dependesse apenas das políticas públicas que deveriam chegar até lá, eu diria que a situação estaria bem pior.”
Para o presidente, um dos maiores desafios que têm pela frente é fazer com que a juventude se envolva e compreenda qual é o papel do cooperativismo — seja no café, na borracha, na castanha ou nas frutas. Em sua concepção, esse é o obstáculo mais difícil de ser superado. Ele também citou outros desafios, como ampliar a capacidade de armazenamento, a assistência técnica e todos os demais instrumentos de apoio ao campo
Considerações
Em abril de 2023, Orlando Sabino, em sua coluna semanal no ac24horas, publicou um artigo intitulado “Resex Chico Mendes é a área protegida mais pressionada pelo desmatamento na Amazônia”. O articulista comentava que a crítica mais frequente feita às Reservas Extrativistas, desde o ano de sua criação, em 1990, é a de que o extrativismo estaria superado e que não existiria viabilidade econômica para essa atividade.
No entanto, estamos testemunhando um novo momento na realidade da Resex Chico Mendes. A Cooperacre, como central, juntamente com as chamadas cooperativas singulares — como é o caso da Coopaeb —, está mudando o cenário de abandono e descaso por parte do poder público em relação àquela reserva legal criada pelo Estado brasileiro. Na lúcida entrevista concedida pelo presidente De Araújo, percebemos desafios, mas também esperança e mudanças positivas, impulsionadas pela força do cooperativismo.
Concluímos que a Coopaeb atua de forma bastante próxima ao conceito de economia solidária, representado principalmente pelas teorias de Paul Singer, que via o cooperativismo como uma prática de caráter transformador. A Coopaeb se posiciona de forma contra hegemônica, com base na autogestão, na solidariedade e na valorização do trabalho humano, constituindo-se como instrumento de emancipação social, inclusão produtiva e defesa do meio ambiente.
Referências
- ALLEGRETTI, Mary H. “Reservas Extrativistas: Parâmetros para uma Política de Desenvolvimento Sustentável na Amazônia” . In: Anderson, Anthony…[et al]; Arnt Ricardo (edição), O Destino da Floresta: Reservas Extrativistas e Desenvolvimento 160 Sustentável na Amazônia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; Curitiba, PR: Instituto de Estudos Amazônicos e Ambientais, Fundação Konrad Adenauer, 1994. pp 17 a 47.
- COSTA FILHO, O. S. Reserva extrativista: desenvolvimento sustentável e qualidade de vida. (1995). 168 f. (Dissertação de Mestrado em Economia) – Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional – CEDEPLAR, FACE, UFMG, Belo Horizonte, 1995.
- COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro comum. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991.
- MARX, Karl. Instruções aos Delegados do Conselho Geral Provisório. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Textos sobre o cooperativismo. São Paulo: Boitempo, 2011.
- SINGER, Paul. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.
- ROCHDALE SOCIETY OF EQUITABLE PIONEERS. Constituição e Princípios. Rochdale, 1844.
- PAPA LEÃO XIII. Rerum Novarum: encíclica sobre a condição dos operários. Vaticano, 1891.
- PAPA FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 2015.
- ALIANÇA COOPERATIVA INTERNACIONAL. Declaração sobre a identidade cooperativa. Manchester, 1995.
- COOPERACRE. Sobre nós: quem somos. Disponível em: https://cooperacre.com/sobre-nos/. Acesso em: 10 jun. 2025.
- COOPERACRE. Cooperativismo. Disponível em: https://cooperacre.com/cooperativismo/. Acesso em: 10 jun. 2025.
- COOPERACRE. Cooperacre cria aliança para o fortalecimento da produção agroextrativista. 22 mar. 2023. Disponível em: https://cooperacre.com/cooperacre-cria-alianca-para-o-fortalecimento-da-producao-agroextrativista/. Acesso em: 10 jun. 2025.
- COOPERACRE. “Depois de se estabelecer no mercado nacional, Cooperacre entra no comércio internacional”. Cooperacre, 9 jun. 2015. Disponível em: https://cooperacre.com/depois-de-se-estabelecer-no-mercado-nacional-cooperacre-entra-no-comercio-internacional/. Acesso em: 10 jun. 2025.
- COOPERACRE. Participação em Dia de Campo na TV: Sistemas agroflorestais na Resex Chico Mendes. 2019. Disponível em: <…>. Acesso em: 10 jun. 2025.
- COOPERACRE. Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre. 2024. Disponível em: https://www.cooperacre.com/
- . Acesso em: 4 mar. 2024.
- DE ARAÚJO – José Rodrigues de Araújo. Entrevistado [abril 2025]. Entrevistador: Orlando S. C. Filho. Rio Branco: PROJETO LEGAL/UFAC. Entrevista concedida ao projeto de pesquisa Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal/UFAC, executado pela Universidade Federal do Acre, Rio Branco. 2025.