Governança e Degradação no Coração da Amazônia: A Urgência do Pará na Agenda Climática

Rodrigo Dolandeli dos Santos; Carlos Augusto da Silva Souza; Bruno de Castro Rubiatti; Denis Conrado da Cruz; Leny May da Silva Campelo; Jorge Lucas Nery de Oliveira; Raimunda Eliene Sousa Silva; Jonatas Nogueira Aguiar de Souza Taulo Soares; Nicoly Akemi Nogueira Kawakami e Raiane da Silva e Silva.

Introdução

O estado do Pará, situado na Amazônia brasileira, destaca-se por seu vasto território e grande diversidade sociocultural e ambiental. Nas últimas décadas, tem enfrentado graves desafios decorrentes da intensificação do desmatamento, expansão agrícola, mineração ilegal e conflitos fundiários, resultando em impactos significativos para seus ecossistemas e populações (Fearnside, 2021). O desmatamento no Pará está diretamente associado à abertura de áreas para a agropecuária, construção de infraestrutura e expansão urbana. Mesmo com avanços em mecanismos de monitoramento e controle, a pressão sobre as florestas persiste, reflexo tanto da demanda global por commodities quanto da fragilidade da governança ambiental na região (Nepstad et al., 2014). Além dos danos ambientais, essas transformações trazem consequências sociais graves, afetando comunidades tradicionais, indígenas e pequenos agricultores, frequentemente envolvidos em disputas por terra e desafios relacionados à segurança alimentar e à saúde (Silva Junior et al., 2021).

Diante desse contexto, torna-se essencial compreender os vetores do desmatamento, os impactos da mineração ilegal e as dinâmicas dos conflitos agrários, bem como os efeitos das mudanças climáticas sobre a Amazônia. A integração de dados científicos é fundamental para subsidiar políticas públicas mais eficazes e promover práticas sustentáveis. Assim, o enfrentamento das crises ambientais no Pará exige não só ações de comando e controle, mas também estratégias de inclusão social, desenvolvimento econômico sustentável e fortalecimento institucional, de modo a garantir a conservação dos ecossistemas e a qualidade de vida das populações locais (Nepstad et al., 2014).

É importante mencionar que cenário político paraense é marcado por disputas históricas entre diferentes interesses econômicos, forças políticas locais e instâncias federais, que repercutem nas decisões sobre uso da terra e na implementação de políticas ambientais. A autonomia estadual convive com pressões do setor produtivo, de movimentos sociais e órgãos federais, o que torna o processo decisório complexo e, muitas vezes, sujeito a fragilidades institucionais e conflitos de interesses (Carvalho et al., 2022). O fortalecimento de instâncias de governança e a participação social são essenciais para garantir a transparência, a efetividade das políticas públicas e a proteção da floresta.

As Crises Ambientais e Seus Impactos na Sociedade Paraense

O Pará, um gigante em biodiversidade e recursos naturais, é paradoxalmente o epicentro de múltiplas crises ambientais que se interligam de forma intrincada, gerando severas consequências socioambientais e econômicas que afetam a vida de milhões de pessoas. A compreensão desses desafios exige uma análise aprofundada de suas origens e manifestações.

Histórico da Ocupação e o Legado do “Integrar para Não Entregar”

A gênese das atuais crises ambientais no Pará remonta ao processo histórico de ocupação da Amazônia. Desde o início do século XX, e de forma mais intensiva durante o governo Vargas (1930-1945), políticas governamentais como a “Marcha para o Oeste” impulsionaram a exploração dos recursos naturais da região, incluindo madeira, borracha, soja, minério e pecuária – sob o lema “integrar para não entregar”. O objetivo era consolidar o controle territorial e promover o “progresso” nacional. Contudo, essa abordagem, que legitimava a exploração intensiva de recursos naturais, frequentemente desconsiderava os impactos ambientais e sociais a longo prazo. O foco no progresso beneficiava desproporcionalmente pequenos grupos, como grandes fazendeiros e empresários, enquanto a população local, muitas vezes, experimentava um aumento da pobreza e da miséria. Esse legado extrativista criou uma lacuna entre o enriquecimento de poucos e o desenvolvimento social e ambiental equitativo, uma contradição que persiste até os dias atuais.

Desmatamento e Degradação Florestal

O desmatamento na Amazônia paraense representa um dos maiores desafios ambientais do Brasil, impulsionado principalmente pela exploração ilegal de madeira, expansão da pecuária, monoculturas como a soja, e atividades de mineração (Fearnside, 2021). A pecuária é reconhecida como a principal responsável pelo avanço da conversão florestal, respondendo por cerca de 80% das áreas desmatadas na região amazônica, evidenciando a magnitude do problema (Assunção et al., 2015). Paralelamente, a expansão do cultivo da soja, especialmente no oeste do Pará, tem modificado profundamente paisagens locais: em municípios como Mojuí dos Campos, a área plantada aumentou de 3 mil para mais de 51 mil hectares entre 2005 e 2023, um crescimento que reflete pressões intensas sobre o uso da terra (IMAZON, 2023).

A degradação ambiental decorrente desses processos resulta em impactos severos, como perda irreversível de biodiversidade, extinção de espécies endêmicas, empobrecimento e erosão dos solos, além de alterações nos regimes hídricos, afetando tanto a quantidade quanto a qualidade da água disponível para os ecossistemas e populações humanas (Silva Junior et al., 2021). Esses efeitos são interligados e frequentemente retroalimentam ciclos de deterioração ambiental, reforçando a necessidade de políticas integradas para conservação e uso sustentável dos recursos naturais da região.

As consequências sociais do desmatamento na Amazônia paraense são profundas e desiguais, atingindo com maior intensidade povos indígenas e comunidades tradicionais, cuja sobrevivência cultural, social e econômica está intrinsecamente ligada à floresta e à manutenção de seus territórios ancestrais (Brondizio et al., 2016). A intensificação dos conflitos fundiários é uma das faces mais violentas desse processo, sendo o Pará o estado com maior número de confrontos agrários, massacres rurais e famílias atingidas no Brasil, em um contexto de recorrente violação de direitos humanos e insegurança (Instituto Pastoral da Terra – CPT, 2023). Paralelamente, a degradação ambiental compromete a qualidade do ar e da água, ampliando riscos à saúde pública e agravando a vulnerabilidade socioambiental das populações locais (Silva-Junior et al., 2021).

Gráfico, Gráfico de barras

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Fonte: Compilação baseada em dados de Imazon (2023) e FAO (2006).

Queimadas e seus Efeitos Devastadores

As queimadas no Pará configuram um grave problema ambiental e de saúde pública, agravando-se nos períodos de seca e estando fortemente associadas ao desmatamento para abertura de novas áreas e à expansão da agropecuária (INPE, 2024). Utilizadas tradicionalmente como um método de “limpeza” do solo para pastagens ou cultivos, as queimadas têm efeitos muito mais amplos e destrutivos, contribuindo para a perda de biodiversidade, emissão de gases de efeito estufa e deterioração da qualidade do ar, fatores que impactam severamente a saúde das populações locais (Silva Junior et al., 2021).

Apesar de uma redução geral das queimadas no Brasil no primeiro trimestre de 2025, o Pará segue se destacando pelo alto número de focos de calor. Em abril de 2025, o estado registrou cerca de 77 focos de queimadas, o que representou um aumento de 48% em relação ao mês anterior, consolidando o Pará como um dos líderes nacionais desse problema. Em 2024, o estado alcançou a marca alarmante de 7,3 milhões de hectares queimados, figurando como a unidade federativa com maior ocorrência de queimadas no país (IPAM, 2025).

A tabela abaixo ilustra a distribuição dos hectares queimados por bioma entre janeiro e março de 2025:

Tabela 1. Hectares Queimados por Bioma no Brasil (Janeiro-Março, 2025)

Bioma

Hectares Queimados

Variação (%)

AMAZÔNIA

774.000

-72%

CERRADO

91.700

+12%

PANTANAL

10.900

-86%

MATA ATLANTICA

18.800

-81,20%

CAATINGA

10.000

-8%

PAMPA

6.600

+1487%

Fonte: Compilação baseada em dados do INPE, 2025. Elaboração equipe Legal Pará.

Apesar de a Amazônia, onde o Pará está inserido, ter registrado uma redução percentual significativa no período, a magnitude dos hectares queimados continua a ser uma preocupação colossal, demonstrando que o problema persiste e requer atenção contínua.

São graves e imediatas as consequências das queimadas para a saúde humana. A fumaça liberada contém diversos poluentes atmosféricos, como material particulado fino (PM2.5), monóxido de carbono e compostos orgânicos voláteis, todos altamente prejudiciais à saúde (Pereira et al., 2020). A exposição a esses poluentes provoca irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse persistente, dificuldade respiratória e o agravamento de doenças crônicas, como asma, bronquite e enfermidades cardiovasculares, afetando de forma desproporcional crianças e idosos, cujos sistemas respiratórios são mais sensíveis (Andrade et al., 2022). Além dos impactos diretos à saúde, as queimadas intensificam o aquecimento global ao liberar grandes quantidades de gases de efeito estufa, contribuindo para as mudanças climáticas e a destruição de biomas essenciais e seus ecossistemas.

Exploração Ilegal e Grilagem: A Lei da Selva Moderna

A persistência da exploração ilegal e da grilagem fundiária no Pará revela uma intrincada rede de interesses econômicos e evidencia a fragilidade do Estado na garantia da soberania territorial e da aplicação efetiva das leis. Entre as práticas ilícitas, a mineração clandestina se destaca por seus impactos devastadores: não apenas destrói ecossistemas e provoca desmatamento acelerado, mas também introduz mercúrio nos cursos d’água. Esse metal pesado contamina toda a cadeia alimentar, colocando em risco a saúde de populações tradicionais, entre as quais já foram registrados níveis alarmantes de intoxicação, inclusive com casos da doença de Minamata, condição neurológica causada pela exposição ao mercúrio. Essa dinâmica criminosa alimenta a insegurança jurídica, fomenta a violência no campo e desestrutura comunidades inteiras, transformando a luta pela terra e pela preservação dos modos de vida tradicionais em um desafio cotidiano.

Do ponto de vista social, as consequências da grilagem e da exploração ilegal são igualmente destrutivas. A grilagem intensifica a insegurança fundiária, multiplica os conflitos de terra e expulsa famílias inteiras de seus territórios de origem, frequentemente por meio de violência e ameaças. O Pará, como já evidenciado, ocupa posição de destaque nos conflitos agrários do país, sendo palco de assassinatos e perseguições a defensores ambientais e lideranças comunitárias (WWF Brasil, 2021). A mineração irregular não apenas polui rios com mercúrio, mas também compromete a saúde e a subsistência de ribeirinhos e indígenas, que dependem desses recursos para viver. A exposição persistente ao mercúrio acarreta sérios prejuízos neurológicos, psicológicos e no desenvolvimento infantil, agravando um quadro de violações no território. A ausência de regularização fundiária eficaz, aliada à impunidade e à fiscalização insuficiente, perpetua um ciclo de ilegalidade e degradação, tornando os direitos de posseiros, ribeirinhos e povos indígenas cada vez mais vulneráveis e a sobrevivência dessas comunidades, uma luta diária.

Impactos Socioeconômicos e a Contradição Energética

O Pará possui um dos maiores potenciais energéticos do Brasil, abrigando as hidrelétricas de Belo Monte e Tucuruí, responsáveis por quase toda a geração elétrica estadual (ANEEL, 2021; Agência Pará, 2024). No entanto, essa potência não se traduz em benefícios para os paraenses, o estado tem uma das tarifas de energia elétrica mais altas do país. Medidas federais recentes, como a conversão da MP 998/2020 em lei, buscaram reduzir contas de energia em várias regiões, mas excluíram o Pará, acentuando o paradoxo de ser um grande produtor que paga caro pela própria energia. Mesmo com pequenas reduções aprovadas pela ANEEL, a tarifa permanece elevada e, com a aplicação da bandeira amarela em 2025, o custo para as famílias tende a aumentar ainda mais.

Essa contradição energética aprofunda a desigualdade social no estado. Enquanto as riquezas geradas pela exportação de energia beneficiam majoritariamente grandes fazendeiros e empresários, a população local assume custos elevados por um serviço essencial. Para famílias de baixa renda, as altas tarifas de energia comprometem o orçamento doméstico e frequentemente forçam cortes em necessidades básicas, como alimentação e transporte, perpetuando cenários de pobreza. Tal realidade mostra que a abundância de recursos naturais no Pará não é acompanhada de justiça social nem de acesso equitativo ao desenvolvimento.

Vetores das Crises Ambientais

As crises ambientais que assolam o estado do Pará não são fenômenos isolados, mas sim o resultado de uma complexa interação de fatores históricos, econômicos e criminais que perpetuam a degradação ambiental. A compreensão desses vetores é crucial para a formulação de estratégias eficazes de combate à degradação e promoção de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.

Redução do Desmatamento vs. Preocupação com Queimadas

Apesar dos avanços celebrados pelo governo do Pará, como a divulgação da redução de 46% do desmatamento em comparação a 2022 e o destaque para quedas equivalentes a 1.604 milhão de quilômetros quadrados desmatados em 2023 (Agência Pará, 2024; SEMAS, 2024), é fundamental analisar com cautela os desafios persistentes enfrentados pelo estado. Enquanto relatórios oficiais e plataformas como o INPE apontam avanços relevantes, inclusive confirmando uma redução de aproximadamente 42% nos alertas de desmatamento na Amazônia Legal no Pará, o quadro das queimadas projeta uma realidade ainda preocupante. Embora tenha havido uma diminuição geral nas queimadas brasileiras entre janeiro e março de 2025, com a Amazônia registrando queda de 72% (INPE, 2025), dados recentes mostram que o Pará segue como um dos líderes nacionais em focos de incêndio, apenas em abril de 2025, foram registrados 77 focos no estado, um aumento de 48% em relação ao mês anterior, além de ter ocupado, em 2024, a posição de maior área queimada do país, com 7,3 milhões de hectares (MapBiomas Alerta, 2024). Assim, apesar dos progressos no controle do desmatamento, a crescente incidência de queimadas e incêndios florestais evidência que o combate à degradação ambiental requer esforços contínuos, integrando fiscalização, políticas preventivas e participação social, para que os resultados positivos sejam efetivos e duradouros.

Tensões entre Desenvolvimento e Conservação

O debate acerca da conciliação entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental permanece um dos temas mais sensíveis no Pará. A recente audiência da Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em 27 de maio de 2025, na Comissão de Infraestrutura do Senado Federal, destinada a debater a criação de novas áreas de conservação na região Norte e assegurar que grandes obras de infraestrutura não comprometam o patrimônio ambiental, ilustrou de maneira exemplar essa tensão, a sessão foi marcada por debates acalorados que levaram à saída prematura da Ministra. O episódio reflete não apenas as profundas divergências políticas, mas também os desafios estruturais envolvidos na busca pelo equilíbrio entre crescimento econômico e proteção dos ecossistemas. Interesses conflitantes entre o setor produtivo, órgãos governamentais, povos indígenas e comunidades tradicionais geram impasses frequentes, ressaltando as dificuldades em alinhar políticas públicas que considerem a pluralidade de demandas e direitos.

A iminente realização da COP30 em Belém (em 2025) amplia ainda mais essa pressão, posicionando o estado do Pará no centro das atenções nacionais e internacionais. A importância de resultados concretos vai além da proteção ambiental, há expectativa de que o governo estadual e federal concilie discurso e prática, apresentando avanços mensuráveis na redução de práticas predatórias, na valorização dos povos tradicionais e indígenas e no fortalecimento de mecanismos efetivos de fiscalização e transparência. O sucesso ou fracasso dessas ações impactará diretamente a credibilidade da conferência e, por consequência, o papel do Brasil no debate global sobre clima e sustentabilidade (Araújo et al., 2024).

Criminalidade Ambiental e Grilagem de Terras

A criminalidade ambiental e a grilagem de terras são vetores cruciais que facilitam e financiam a destruição ambiental no Pará, tornando o combate a essas atividades extremamente complexo e perigoso. A grilagem, caracterizada pela apropriação ilegal de terras públicas, constitui um dos maiores problemas fundiários do Brasil, afetando especialmente a Amazônia, onde vastas extensões permanecem sem destinação definida. Essa prática fomenta insegurança jurídica, intensifica a violência rural e provoca conflitos sangrentos pela posse da terra, desestruturando comunidades. O documentário “Amazônia: Sociedade Anônima”, https://www.imdb.com/pt/title/tt7476208/?ref_=fn_all_ttl_1 (2019) ilustra de forma contundente a magnitude da grilagem, do desmatamento e da violência em territórios indígenas no Pará. Importante destacar que a grilagem não é um crime isolado, estando intrinsecamente ligada à atuação de organizações criminosas que financiam o desmatamento, a exploração ilegal de recursos naturais e o tráfico de espécies, frequentemente utilizando atividades legítimas, como a pecuária, para legitimar a posse irregular da terra.

A persistência das crises ambientais no Pará é agravada por significativas lacunas na governança e por uma desconexão entre as decisões políticas e a realidade local. A fala do Cacique Joarez Munduruku, apresentada no documentário “Amazônia – Sociedade Anônima (2019)”, é emblemática dessa distância:

“Um dos maiores impedimentos para a resolução desses problemas seria o fato de quem discute sobre a Amazônia são os “poderosos que estão no trabalho no ar-condicionado, depois vai para o carro com ar-condicionado e por fim chega em casa, também no ar-condicionado”, por isso segundo o cacique é tão difícil manter um diálogo.”

Essa falta de comunicação e compreensão mútua dificulta a implementação de soluções eficazes e a construção de políticas públicas que realmente atendam às necessidades e respeitem os direitos das comunidades locais. A ausência de regularização fundiária, a fragilidade da fiscalização e a impunidade de crimes ambientais são obstáculos persistentes que enfraquecem a governança ambiental e permitem a perpetuação do ciclo de degradação. Uma governança ambiental eficaz exige não apenas leis e fiscalização, mas também um diálogo inclusivo e o reconhecimento do papel fundamental das comunidades locais na conservação da Amazônia.

O Pará no Cenário da COP30: Discursos e Realidades

O estado do Pará, considerado um dos corações da Amazônia, alcançou projeção internacional ao ser escolhido como sede da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que será realizada em Belém em 2025. Essa decisão colocou o Pará no centro das atenções globais e representa uma oportunidade histórica, ao mesmo tempo em que destaca desafios e contradições na gestão ambiental regional. Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro de 2024, o governador Helder Barbalho ressaltou o compromisso do estado com um novo modelo de desenvolvimento sustentável, alegando avanços na redução de queimadas e exploração ambiental, além de reforçar a intenção de reposicionar o Pará como protagonista nas agendas climáticas e ambientais (CNN Brasil, 2024).

A narrativa oficial busca alinhar o estado às metas globais de sustentabilidade e estimular investimentos e parcerias estratégicas para a região. A visibilidade internacional proporcionada pela COP30 é considerada fundamental para impulsionar setores como a bioeconomia, cadeias de valor sustentáveis e energias renováveis, conciliando conservação ambiental com melhorias na qualidade de vida das populações locais.

CONCLUSÃO

A crise ambiental no Pará é um fenômeno multifacetado e profundamente arraigado em um histórico de exploração territorial que remonta às políticas promovidas pelo governo Vargas. Esse legado deixou marcas estruturais que persistem até hoje na forma de desequilíbrios sociais e ambientais, expressos por vetores contemporâneos de degradação, como a criminalidade ambiental, a grilagem de terras, a mineração ilegal e brechas históricas de governança. O desmatamento, impulsionado pela extração ilegal de madeira, pela expansão da pecuária, das monoculturas e pela mineração clandestina, segue sendo uma das maiores chagas do estado, comprometendo seriamente a biodiversidade, o solo e os recursos hídricos. As queimadas, aliadas frequentes dessas atividades, potencializam ameaças à saúde pública em função da poluição atmosférica, com o Pará figurando entre os líderes nacionais de focos de calor. Em paralelo, a mineração ilegal impõe forte contaminação por mercúrio, especialmente na bacia do Tapajós, trazendo impactos devastadores às populações indígenas e ribeirinhas.

Esse cenário de degradação se agrava diante do paradoxo energético do estado. É um dos maiores produtores de energia hidrelétrica do país, mas a população local paga tarifas mais caras do Brasil, escancarando uma desconexão entre a exploração de recursos naturais e a justa distribuição de seus benefícios. Tal contradição agrava quadros de pobreza e miséria, indicando que o tão propagado “progresso” econômico não se traduz em “desenvolvimento” para a maioria. Essas assimetrias refletem as falhas estruturais de governança, evidenciadas tanto na precarização das condições de vida quanto no distanciamento do diálogo entre as esferas de poder e a realidade vivida pelas populações locais, uma crítica reafirmada por lideranças indígenas, como o Cacique Joarez Munduruku. As tensões expostas em debates recentes, como a audiência da Ministra Marina Silva no Senado, ilustram o desafio persistente de alinhar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.

A realização da COP30 em Belém, em 2025, desponta como uma oportunidade histórica para o Pará e para o Brasil reposicionarem-se no debate global sobre sustentabilidade. Mais do que um evento diplomático, a conferência representa um chamado urgente à construção de um novo modelo de desenvolvimento, fundamentado na redução efetiva das atividades predatórias e na proteção dos direitos de comunidades tradicionais, indígenas e ribeirinhas, pois são os verdadeiros guardiões da Amazônia. Para que a COP30 seja transformadora, será essencial garantir avanços concretos, como o fortalecimento da governança ambiental, aprimoramento dos mecanismos de fiscalização, enfrentamento da impunidade e implementação de políticas públicas baseadas em dados robustos, respeitando saberes tradicionais. Dessa forma, o Pará poderá, de fato, unir proteção ambiental e desenvolvimento humano inclusivo, referenciando-se como modelo de coexistência equilibrada entre sociedade e floresta para as próximas gerações.

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Agradecimentos: iniciativa Amazônia+10

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