Francisco Afonso Nepomuceno
A estrutura fundiária do Brasil obedece ao mesmo padrão desde as sesmarias. Refiro-me à concentração de terra nas mãos de poucos, um fenômeno que não se resolveu ao longo de meio milênio por não ter havido a reforma agrária praticada na maioria dos países da América do Sul. Para manter inalterada essa condição, a elite agrária historicamente recorreu à violência para sufocar movimentos de trabalhadores na luta pela reforma agrária: as Ligas Camponesas no passado e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) atualmente, são dois exemplos eloquentes. Os seringueiros da região do Alto Acre (Xapuri, Epitaciolândia, Brasiléia e Assis Brasil), na sua mobilização nas décadas de 1970/80 no enfrentamento aos fazendeiros para permanecerem nas suas colocações; padeceram do método violento acima aludido.
O presente boletim abordará o fenômeno verificado no século XXI, onde, para além da violência, o agronegócio passou a adotar outros métodos para impor sua supremacia disputando corações e mentes para validar sua hegemonia e naturalizar a estrutura fundiária de seu interesse. Manifestações culturais e uma estética do agro têm sido utilizadas com rara sofisticação através de um trabalho de marketing na mídia em geral, para suavizar a imagem do segmento. Um exemplo dessa ofensiva é o comercial veiculado na Rede Globo de televisão de autoria do laureado marqueteiro Nizan Guanaes, cujo bordão “O agro é tec, o agro é pop, o agro é tudo” é, certamente, lembrado por todos e todas que assistem TV.
Embora a vertente do agro seja o campo, sua manifestação cultural sob o invólucro do que se convencionou chamar de sertanejo, espraiou-se por todo o território nacional, inclusive nas grandes cidades. A capilaridade do chamado sertanejo tem se dado através de eventos, shows, indumentária, comerciais, telenovelas e principalmente cantores (as) sertanejos hiper conhecidos como ícones de sucesso e ídolos da juventude. Interpretação de eventos e comparação entre ambientes distintos onde a cultura do agro é exibida, servirão de metodologia para a formulação do presente texto.
Campo e cidade: o agro em toda parte
Longe do mundo bucólico que marcou a vida agrária brasileira por quase quinhentos anos, a década de 1990 viu emergir um fenômeno novo responsável por alterar a imagem do mundo rural brasileiro. A música sertaneja outrora associada à moda de viola e a cantores de menor expressão, viu surgir as duplas sertanejas entoando canções e uma linha melódica capaz de seduzir fãs do campo e da cidade. A relação com o sertanejo raiz era apenas protocolar, por cantarem em dupla como fizeram no passado Tonico e Tinoco, os mais conhecidos até então desse gênero musical. As duplas mais conhecidas que mexeram com o mercado fonográfico nacional e reposicionaram a concepção do sertanejo na cidade no período mencionado, foram: Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano, Gian e Geovane, João Paulo e Daniel e outros; fizeram explodir a música sertaneja como sucesso nacional com baladas românticas curtidas em todo o território brasileiro.
As feiras agropecuárias, cada vez mais consolidadas, são o palco perfeito para o desfile dos ídolos da música sertaneja. Nesses eventos espalhados pelo país, a cultura do agronegócio é exposta na sua plenitude: indumentária, culinária, rodeio, cavalgada, vaquejada e óbvio, os shows com os cantores e cantoras sertanejos mais famosos. Esse combo revela o padrão estético e o estilo de vida sertaneja apregoado pelos ideólogos do agronegócio; tudo isso precedido de intensa propaganda midiática nas formas mais variadas: rádio, jornal impresso, TV, mídia digital e nas cidades que sediarão os eventos, muitos outdoors e carros de som. Esse verdadeiro festival de cultura sertaneja cria o ambiente para o comércio e os negócios com os produtos do agro.
Na região do Alto Acre onde a Reserva Extrativista Chico Mendes é mais povoada e onde historicamente o movimento dos seringueiros deitou raízes, o agronegócio tem avançado com visível solidez. Ao longo da última década tem se multiplicado os eventos promotores do agronegócio na região. Cada município quer realizar o evento de maior público e as prefeituras se esmeram em dar o melhor de si para agradar a população. Nesse sentido, fora o carnaval, que continua sendo uma festa de massa e com menos vigor, as festas juninas, o agro tem dominado a cena dos eventos de maior vulto na região.
Recentemente, a prefeitura de Epitaciolândia, um dos municípios atravessados pela RESEX Chico Mendes, promoveu um grande evento em parceria com o agronegócio. O jornal online, O Alto Acre, no dia primeiro de abril de 2025, estampou a manchete “XII Circuito Country 2025 de Epitaciolândia promete 4 dias de festa com grandes atrações” ( Alto Acre, 01/04/2025). E continua no subtítulo: evento consagrado no calendário acreano anuncia programação recheada de rodeio, shows nacionais e cultura sertaneja na região do Alto Acre. A matéria exalta as competições de rodeios afirmando que terá os melhores peões da região, do Estado e da região Norte; a escolha da garota country e shows com artistas nacionais e locais. Por fim, a reportagem afirma que o evento atrai turistas de todo o Estado e da Bolívia, o país vizinho.
Eventos como o circuito country de Epitaciolândia tem ocorrido com muita frequência em todos os municípios do Alto Acre. A presença de público é cada vez maior ocasião em que o padrão estético-cultural do agro é reafirmado com muito glamour e pompa. A participação de moradores da RESEX Chico Mendes nesses eventos, particularmente a juventude, é grande em virtude de o transporte ter sido facilitado pela infraestrutura de ramais e o acesso à internet, nos locais mais próximos às cidades. A propaganda midiática dessas atividades é massiva, de tal forma que, mesmo a pessoa não gostando será informada, dado o bombardeio de cards na internet, avisos no rádio, peças publicitárias na TV, carro de som e outdoors nos quatro municípios do Alto Acre: Epitaciolândia, Brasiléia, Assis Brasil e Xapuri.
Em minha pesquisa encontro a presença cada vez mais universal do agronegócio nos mais distintos lugares, através de empreendimentos econômicos ou da cultura a ele associada conforma um campo de saberes e possibilidades impensável no século passado por assim dizer. O urbano e o rural, outrora vistos como polos opostos, passaram a consumir o mesmo tipo de cultura numa interface proporcionada pela estratégia do agro. O mesmo fenômeno pode ser verificado nas regiões mais desenvolvidas do país, sul e sudeste quando comparadas com a Amazônia. Em ambas, a cantora Ana Castela, por exemplo, um dos maiores fenômenos da música sertaneja na atualidade, é hiper conhecida. Assim como Gustavo Lima, o maior ícone desse gênero musical.
Esses fatores culturais suavizaram a imagem do agro e mais que isso, emprestam um elã para os consumidores dos seus produtos. Da violência nua e crua, sem mediação, o que chamamos de “cultura do agro” foi se espraiando a ponto de encantar seguidores, atraídos pela economia e seduzidos pela cultura artística, realidade verificada com alguma facilidade no interior da RESEX Chico Mendes, principalmente envolvendo a juventude. Não cabe ingenuidade nesse diagnóstico, a violência é recorrente no campo brasileiro e continua ocorrendo, o ineditismo é o surgimento de uma espécie de soft power como estratégia de um segmento cuja marca historicamente conhecida sempre foi a força. Todo poder precisa de legitimidade, de algum grau de consenso; tendo a música e seus ídolos como principais influenciadores o marketing fez do agronegócio, mais do que um segmento econômico, um estilo de vida.
Ver para crer: está tudo dominado
O Brasil é conhecido, entre outras características, por ter um território de dimensões continentais. Nele se destacam os seis biomas mais importantes: Mata Atlântica, Caatinga, Pampa, Serrado, Pantanal e Amazônia. Sem que isso se constitua num imperativo geográfico para determinar as características culturais presentes nas cinco regiões que formam o país, mas não é tarefa difícil para um brasileiro medianamente informado saber distinguir a origem regional do interlocutor pela língua e logo associá-la ao contexto geográfico.
Mesmo com a globalização da economia, do conhecimento, da informação e da comunicação, um processo facilitado pela evolução da física quântica aplicada à tecnologia digital; a cultura manteve traços das características autóctones que a definem como local ou particular, mesmo não ficando totalmente infensa ao processo da globalização. Em que pese a polifonia de vozes e a pluralidade de ritmos, ainda associamos a músicas e sua linha melódica, às regiões do país: o frevo é pernambucano, o samba é carioca, o axé é baiano, o forró é nordestino, o carimbó é do Pará e o sertanejo “universitário” é do centro oeste.
No processo de mergulhar para entender a influência da música sertaneja e seus signos subjacentes, vivi uma experiência que muito me impactou durante a pesquisa para a minha tese de doutorado. Durante a Maratona Cultural alusiva aos festejos dos 352 anos de história de Florianópolis, resolvi assistir ao show de um dos principais ícones da música sertaneja, o cantor popular, João Gomes. Vou utilizar os dados fornecidos pelo apresentador que anunciou, por volta das 22 horas do dia 23 de março de 2025, a atração principal daquela noite, para uma plateia de jovens ávidos para ver e ouvir o astro. Disse o apresentador: “Ele só tem 22 anos, nasceu no interior de Pernambuco, é de família humilde e está entre os 50 cantores mais tocados no mundo atualmente e concluiu com o clássico: com vocês, João Gomes”.
Duas coisas me chamaram atenção de imediato: a produção do show é muito profissional e impactante. Efeitos sonoros e visuais, telões gigantes, vídeo clipes das músicas passando no telão atrás do palco e dois telões laterais replicando a imagem ao vivo da performance do cantor. A segunda coisa que me despertou foi a indumentária do artista. Chapéu de vaqueiro nordestino, calça frouxa (diferente do look fashion ajustado dos rapazes da mesma idade) por sobre as alpargatas e uma camisa folgada multicolorida sem ostentar nenhuma grife. É o espetáculo se entrelaçando com o consumo como afirma, Debord:
“O princípio do fetichismo da mercadoria, a dominação da sociedade por “coisas suprassensíveis embora sensíveis”, se realiza completamente no espetáculo, no qual o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e que ao mesmo tempo se fez reconhecer como o sensível por excelência”.
Os especialistas classificam o cantor João Gomes como pertencente ao gênero “Piseiro” uma derivação do forró proveniente do Nordeste. Essa sutil definição é para especialista, quem assiste ao seu show é bombardeado pela estética do sertanejo, seus videoclipes ilustram a cultura do agro e muitas de suas canções abordam temas que fazem clara alusão a cultura do agro. Ademais, durante o show ele interpretou vários sucessos de cantores sertanejos, o que torna a distinção para os não especialistas, mais difícil ainda.
A minha expectativa quando resolvi ir ao show era ver o contraste de um cantor do Nordeste, se apresentando na branca, opulenta e relativamente culta Florianópolis (quando comparada com a maioria das cidades do país), cuja maioria do povo sente orgulho de sua genealogia alemã e italiana. Para minha surpresa e essa, certamente, foi a coisa que mais me causou perplexidade, foi ver a plateia cantar as letras em coro e dançar na coreografia do cantor como se tivesse ensaiado com ele. Quando vi aquela reação da plateia, foi inevitável não concluir: está tudo dominado. A música sertaneja é universal no território e na cultura brasileira, se espraiou como água e trouxe na esteira o segmento de onde ela deriva, o agronegócio.
Longe da música sertaneja ser só um ritmo passageiro como ocorreu com inúmeros outros, tipo a lambada, o reggae, a gafieira que já foram sucesso, mas hoje tocam de modo residual e são nota de roda pé se comparados com o sertanejo universitário, o funk e o rap. O sertanejo tem um palco que lhe assegura longevidade, refiro-me as feiras agropecuárias que se multiplicam pelas principais cidades brasileiras, que além dos negócios ali praticados contam com entretenimento da cultura do agro como: rodeio, cavalgada, vaquejada e o show com os cantores e cantoras de maior sucesso da música sertaneja como principal atração desses eventos. Como diz a letra interpretada pela cantora, Alcione “O samba, agoniza mais não morre […]” o samba, além de estar entranhado na cultura brasileira, tem um palco que lhe dá sustentação e durabilidade, o carnaval e tudo ligado a ele. As escolas de samba, blocos, compositores e novos cantores e cantoras que são revelados nessa dinâmica de renovação permanente. Da mesma forma, se transformou o sertanejo como ritmo musical com suas feiras agropecuárias e os grandes rodeios, como o da cidade de Barretos.
Ao longo do show: as imagens dos vídeos clipes, fotografias no telão, letras das músicas e traje do cantor são ícones do agronegócio, um marketing infalível por assim dizer. Na abertura do show, no primeiro vídeo clip que aparece no telão atrás do artista, é a imagem de uma fazenda e um casal de jovens puxando um cavalo branco. Numa outra passagem do show, é fixada no telão principal uma imagem icônica do agro. Uma casa modesta, tipicamente de um trabalhador de uma fazenda, a ossada da cabeça de uma vaca no vértice superior do imóvel e o letreiro logo abaixo “Vaquejada e abaixo com letras menores, João Gomes”. No mundo de signos e significados da contemporaneidade, a semiótica ali expressa revela um trabalho de marketing calculado e muito profissional, É a ascensão de quem veio de baixo e se o João Gomes conseguiu, você também pode.
Assim como as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante, o padrão estético proveniente dessas ideias e cultuado pela sociedade, tendem a seguir o mesmo caminho. O capital agrário, ao lado do financeiro e do capital industrial, faz parte da hegemonia formada por essa trinca na acumulação capitalista no Brasil do século XXI. Por sua força no parlamento, o agronegócio tem se consolidado cada vez mais como um setor estratégico da burguesia, seu peso no PIB brasileiro tem crescido proporcionalmente ao subsídio recebido do governo federal. Para além do fator econômico, o agronegócio, atualmente mais do que qualquer outro segmento disputa ideias e faz da cultura, derivada do seu universo, um padrão estético pretensamente moderno que se pretende universal. Longe do caráter bucólico do universo caipira, associado ao mundo rural, o sertanejo fez emergir seus ídolos, marcas, estilos, gostos, sabores, saberes e sua música traz o epíteto “universitário” tornando seu padrão estético mais asséptico e palatável para o consumo da juventude urbana.
No contexto geral, os eventos e entretenimentos divulgadores da cultura do agronegócio principalmente a música, seu segmento principal, não focam num produto especificamente, mas num estilo de vida. No dizer de Chã:
“Não são raros os casos de publicidade e marketing do agronegócio nos quais o que está em jogo não é a promoção direta de uma marca ou produto, mas de um conceito ou imagem a ser lembrada e incorporada pelas pessoas de maneira mais “natural” possível, ou mesmo um projeto de país”. (Chã, 2018, p. 86)
Foi com essa intenção que o publicitário, Nizan Guanaes, autor do bordão que se popularizou na propaganda veiculada na Rede Globo “O agro é pop, o agro é tec, o agro é tudo” fala sobre uma sensação de bem-estar, de sucesso, ou de algo que denota orgulho e não de um produto necessariamente.
Conclusão
Por fim, mas não menos importante, no transcorrer do show naqueles momentos que todo artista dialoga com o público o cantor, João Gomes fez uma revelação que coincidiu com a minha curiosidade. Disse ele, eu estava muito nervoso antes do show e prosseguiu, estava com aquele frio na barriga imaginando como seria a recepção do povo de Florianópolis à minha música. Revelou que no início da carreira teria feito um show em Florianópolis e, naquela ocasião, a recepção não teria sido das melhores. Demonstrando visível contentamento, concluiu agradecendo à maravilhosa recepção e o carinho com que o povo o acolheu dessa vez.
A esquerda costuma condenar o gosto musical da direita conservadora e o caráter de massa do sertanejo como gênero musical. Tem um apelo lógico em se tratando de Brasil, por ser um país que ainda convive, em pleno século XXI, com o analfabetismo e uma parcela significativa da população é tida como analfabetos funcionais. Associar consumo de massa a gosto duvidoso não é um fenômeno recente. Em meados do século XX, quando o rádio se consolidou como meio de comunicação, a música consumida pela massa já era vista com desconfiança pela intelectualidade. No dizer de Adorno “[…] o estado musical das massas seria equivalente a uma degeneração”. Talvez o sertanejo não chegue a tanto, mas na quadra histórica distópica em que vivemos, eu ousaria dizer, nem todo mundo que gosta da música sertaneja é conservador, mas a esmagadora maioria dos conservadores gostam da música sertaneja.
Bibliografia
ADORNO, Theodor. Indústria Cultural. São Paulo. Ed. UNESP, 2020.
CHÃ, Manuela. Agronegócio e Indústria Cultural. São Paulo. Expressão Popular, 2018.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro. Ed. Contraponto, 1997.